Reviva: Novela das 6, uma tradição de 40 anos

Maria Maria
Léa Garcia, Nívea Maria e Ísis Koshdoski em “Maria Maria” (CEDOC/TV Globo)

Em 1975, há exatos 40 anos, a Globo iniciava uma tradição em sua grade de programação: a “novela das seis” – com a estreia de “Helena“, adaptação de Gilberto Braga do romance de Machado de Assis, dirigida por Herval Rossano e estrelada por Lúcia Alves e Osmar Prado.

Naquela época (anos 70), existiam outros três horários de novelas na Globo: às sete, às oito e às dez horas. Na verdade, a emissora já experimentava o horário das seis para novelas desde o início da década, mas elas não eram regulares dentro da grade. Em 1971, foi ao ar a reprise de “A Pequena Órfã” (trama originalmente exibida na TV Excelsior), seguida de “Meu Pedacinho de Chão“, de Benedito Ruy Barbosa (a primeira versão), “Bicho do Mato” e a novela infanto-juvenil “A Patota“. Essa fase estendeu-se até 1973. Após isso, o horário foi preenchido com reprises do seriado “Shazan, Xerife e Companhia” e com uma programação que podia variar de desenhos animados a seriados americanos, dependendo da praça (a transmissão ainda não era em rede nacional).

Cabocla
Fábio Jr, Glória Pires e Roberto Bonfim em “Cabocla” (CEDOC/TV Globo)

Só a partir de 1975 – com a estreia de “Helena“, em 5 de maio – é que o horário das seis foi reservado exclusivamente às novelas, uma tradição até hoje. A princípio, a Globo priorizava adaptações de obras clássicas de nossa Literatura. O responsável por esse núcleo era o diretor Herval Rossano, que o levou até 1982. Com poucas exceções, essas novelas eram tramas de época. As duas primeiras – “Helena” e “O Noviço” – ainda eram em preto e branco. E curtinhas: ambas tiveram apenas 20 capítulos. Foram chamadas de “mininovelas” (mas hoje poderiam ser chamadas de “minisséries”).

A trama seguinte inaugurou a cor no horário das seis: “Senhora“, adaptação de Gilberto Braga do romance de José de Alencar. Já era maior: 80 capítulos. E apresentou uma requintada produção de época, que retratava a côrte do Rio de Janeiro da segunda metade do século 19. Norma Blum brilhou como Aurélia Camargo, que herdou uma fortuna e comprou um noivo – literalmente – que a desprezara quando era pobre – papel de Cláudio Marzo.

Olhai os Lírios do Campo
Herval Rossano dirigindo Lourdes Mayer em “Olhai os Lírios do Campo” (CEDOC/TV Globo)

Seguiram-se, em 1976, “A Moreninha” (sucesso com Nívea Maria), “Vejo a Lua no Céu“, “O Feijão e o Sonho” (de Benedito Ruy Barbosa) e “Escrava Isaura“. Esta última, já com 100 capítulos, também adaptada por Gilberto Braga, tornou-se um dos maiores produtos de exportação da Globo, por décadas, sucesso aqui e lá fora. E imortalizou Lucélia Santos no papel de Isaura e Rúbens de Falco como o vilão Leôncio Almeida.
Depois de “À Sombra dos Laranjais“, em 1977, estreou “Dona Xepa” (novamente Gilberto, a partir da peça de Pedro Bloch) – a primeira, nesta fase, que era contemporânea, não de época. Outro grande sucesso, com Yara Côrtes no papel-título. Foi substituída por “Sinhazinha Flô“, junção de três romances de José de Alencar que comemorava o centenário da morte do escritor (em 1977).

Dona Xepa
Yara Côrtes e Edwin Luisi em “Dona Xepa” (CEDOC/TV Globo)

Manoel Carlos estreou como novelista na Globo em 1978, ao adaptar o livro “Maria Dusá”, de Lindolfo Rocha, para o horário. Era a novela “Maria Maria“, com Nívea Maria vivendo papel duplo: a simplória Mariazinha Alves e a sofisticada Maria Dusá. No mesmo ano, Maneco lançou outro sucesso às seis: “A Sucessora“, baseada no romance de Carolina Nabuco – que teria sido plagiada pela inglesa Daphne du Maurier em seu romance “Rebeca”, levado ao cinema por Hitchcock. Susana Vieira viveu Marina Steen, uma das personagens que mais gostou de interpretar. Também um grande destaque nesta novela para Nathalia Timberg e Rúbens de Falco.

Ciranda de Pedra
Adriano Reys, Eva Wilma e Lucélia Santos em “Ciranda de Pedra” (CEDOC/TV Globo)

Em 1978, também estreou a adaptação do livro “Gina” (com Christiane Torloni), de Maria José Dupré, feita por Rúbens Ewald Filho. Ele havia sido contratado pela Globo juntamente com Silvio de Abreu após o bom trabalho da dupla na TV Tupi, com “Éramos Seis“, outro livro da Sra. Dupré. Enquanto Rúbens escrevia essa novela para as seis horas, Silvio de Abreu estava com “Pecado Rasgado“, às sete. Só que nem “Gina” nem “Pecado Rasgado” tiveram uma boa repercussão.

Assim como também não repercutiu a novela “Memórias de Amor” (1979), adaptação do romance “O Ateneu”, de Raul Pompéia, feita por Wilson Aguiar Filho, com Jardel Filho, Eduardo Tornaghi e Sandra Bréa no elenco.

O Feijão e o Sonho
Cláudio Cavalcanti e Nívea Maria em “O Feijão e o Sonho” (CEDOC/TV Globo)

Benedito Ruy Barbosa voltou ao horário das seis em 1979, com “Cabocla“, que aproveitava o sucesso que Glória Pires havia feito no ano anterior, em “Dancin´ Days“. Para contracenar com ela, outro jovem ator que despontava na época: Fábio Jr. Eles uniram-se na novela e na vida real, e essa união gerou Cléo Pires, hoje também atriz. Com o sucesso de “Cabocla“, a Globo pediu a Benedito que espichasse sua novela, mas não contava com a recusa dele. Benedito acabou fora da emissora. Enquanto era providenciada uma reprise compacta de “Escrava Isaura“, a trama substituta – “Olhai os Lírios do Campo” – foi produzida a toque de caixa.

Memórias de Amor
Aracy Cardoso e Jardel Filho em “Memórias de Amor” (CEDOC/TV Globo)

Olhai dos Lírios do Campo” foi o único trabalho do veterano Geraldo Vietri na emissora. Ele vinha de sucessos na Tupi. Mas Vietri não adaptou-se ao ritmo e às exigências da nova casa. Um desentendimento com o diretor Herval Rossano o afastou da produção. Após esta, a emissora voltou a apostar em tramas contemporâneas e urbanas no horário: seguiram-se, com pouco sucesso, “Marina“, do livro de Carlos Heitor Cony, com Denise Dumont, e “As Três Marias“, adaptada de Rachel de Queiroz, com Glória Pires, Nádia Lippi e Maitê Proença estreando na Globo.
Em 1981, o horário das seis voltava a ter uma novela de sucesso: “Ciranda de Pedra“, adaptação de Teixeira Filho do romance de Lygia Fagundes Telles, com Lucélia Santos, Eva Wilma, Armando Bógus e Adriano Reys como os protagonistas. Uma perfeita reconstituição de São Paulo da década de 1940. E um papel de destaque para Norma Blum: a severa governanta alemã Frau Herta.

Sinhazinha Flô
Thaís de Andrade e Bete Mendes em “Sinhazinha Flô” (CEDOC/TV Globo)

A última novela do núcleo de Herval Rossano às seis horas foi “Terras do Sem Fim“, exibida entre 1981 e 1982, escrita por Wálter George Durst, inspirada na obra de Jorge Amado, com Nívea Maria e Cláudio Cavalcanti. Uma novela curta, pouco lembrada e que não fez sucesso. Rossano e a mulher, Nívea Maria, deixaram a Globo temporariamente, e a emissora apostou em mais uma última adaptação às seis: “O Homem Proibido“, baseada no folhetim de Nelson Rodrigues. A novela seguinte, “Paraíso” (em 1982), de Benedito Ruy Barbosa, foi a primeira trama original do horário.
Uma nova adaptação voltou a ocorrer apenas em 1986: “Sinhá Moça“, escrita por Benedito Ruy Barbosa a partir do livro de Maria Dezonne Pacheco Fernandes. De lá para a cá, o horário vem alternando histórias originais com adaptações de outras obras. A última adaptação foi em 2008: uma nova versão do livro “Ciranda de Pedra“, desta vez feita por Alcides Nogueira.

Terras do Sem Fim
Otávio Augusto, Cláudio Cavalcanti, José de Abreu e Maria Cláudia em “Terras do Sem Fim” (CEDOC/TV Globo)

Nestes 40 anos, a novela das seis manteve-se forte, sendo adaptação ou não. Houve uma ameaça de extinção em 1986, após “Sinhá Moça” – foi quando a Globo suspendeu temporariamente a produção de uma novela e preencheu o horário com uma reprise de “Locomotivas“. Mas não tem como desconsiderar grandes sucessos da nossa TV exibidos neste horário, o que prova a sua força: “A Gata Comeu“, “Fera Radical“, “Barriga de Aluguel“, “Mulheres de Areia“, “História de Amor“, “O Cravo e a Rosa“, “Chocolate com Pimenta“, “Cordel Encantado” e tantas outras.

Texto: Nilson Xavier/Canal Viva

E essa é a edição de hoje do “Reviva”! Quero agradecer ao Nilson Xavier e ao Canal Viva! Voltamos na segunda com mais uma edição da coluna!

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