Globo 50 Anos: Viva o Gordo

Primeiro programa comandado exclusivamente por Jô Soares na Globo, Viva o Gordo ironizava a política e os costumes do país.

O Viva o Gordo é demais!/ Muitas garotas e piadas sensacionais!/ Preste atenção/ na televisão,/ o nosso show vai começar!”. Essa era a letra do tema de abertura do primeiro humorístico comandado exclusivamente por Jô Soares (José Eugênio Soares) na TV Globo.

Na televisão desde o final da década de 1950, o humorista já havia atuado como apresentador de Quadra de Setes (1966); como redator e comediante de Faça Humor, Não Faça Guerra (1970),Satiricom (1973) e Planeta dos Homens (1976); e como entrevistador do programa de variedades Globo Gente (1973).

No início, Viva o Gordo era temático. O programa de estreia, por exemplo, foi inteiramente dedicado aos gordos. Jô Soares reverenciou “colegas” ilustres – como Buda, Sancho Pança e Honoré de Balzac. O programa contou com as participações especiais do então ministro do Planejamento Delfim Netto, que já havia sido parodiado em O Planeta dos Homens, e de Chico Anysio, com quem Jô Soaresreviveu cenas da dupla cômica Stan Laurel e Oliver Hardy, conhecidos como O Gordo e o Magro. Um balé de dançarinas gordinhas, comandado pela atriz Claudia Jimenez, invadia a cena cantando e celebrando a alegria da “vida gorda”.

Com um nome derivado de um espetáculo que Jô Soares apresentava no teatro – Viva o Gordo e Abaixo o Regime!, ironizando os tempos de abertura política –, Viva o Gordo era dirigido por Cecil Thiré e redigido por Max Nunes, Hilton Marques e Afonso Brandão. Jô Soares representava seus personagens com o apoio de veteranos do humor, como Brandão Filho, Walter D’Ávila e Berta Loran; jovens promessas como Claudia Raia e Louise Cardoso; e atores mais conhecidos por seu trabalho em teledramaturgia, como Flávio Migliaccio, Pedro Paulo Rangel, Denise Bandeira e Felipe Carone, entre muitos outros.

Em 1982, Luis Fernando Verissimo passou a integrar a equipe de redatores de Viva o Gordo.

Em 1983, Carlos Ferreira passou a integrar a equipe de criadores do programa, que abandonou o esquema temático. Neste ano, Viva o Gordo passou a ser exibido nas terças-feiras, às 21h30.

A partir de 1984, Viva o Gordo voltou a ser exibido às segundas, às 21h20. Afonso Brandão deixou a equipe de redação em 1984, e Armando Costa assumiu seu lugar.

Em 1985, o Viva o Gordo passou a ser dirigido por Francisco Milani. O programa só voltou das férias em agosto, devido à cobertura da morte do presidente Tancredo Neves.

Em junho de 1987, Francisco Milani entregou a direção a Walter Lacet, que ficou à frente do programa até dezembro, quando Jô Soares decidiu não renovar o contrato.

Depois de uma passagem de 12 anos no SBT, o humorista retornou à Globo no ano 2000, para comandar o Programa do Jô.

GALERIA DE PERSONAGENS

SEBÁ – “O último exilado” era louco para voltar ao Brasil, mas reagia às notícias sobre a situação política que recebia pelo telefone de sua mulher, Madalena, com um exasperado: “Você não quer que eu volte!”

  

BÔ FRANCINEIDE – Atriz de pornochanchadas à procura de trabalho na televisão, estava sempre acompanhada da “porno-mãe” (Henriqueta Brieba), uma senhora tão pequenina e de aparência tão frágil que levava Bô a dizer impressionada: “Eu saí de dentro dela!”.

 REIZINHO – Diminuto monarca de um reino com problemas muito parecidos com os do Brasil. Voluntarioso, mas muito indeciso, ele se aconselhava com o sábio Eminência (Eliezer Motta) e se divertia à custa do Bobo da Corte (Flávio Migliaccio). Jô Soares tinha que ficar de joelhos para interpretar o personagem, que fez sucesso também entre as crianças. Apesar da baixa estatura, o Reizinho tinha um ego imenso e se dirigia aos súditos com as palavras: “Deste solo que eu piso, desse povo que eu amo, que que eu sou? Que que eu sou? Que que eu sou?”. Era saudado com a resposta: “Sois rei! Sois rei! Sois rei!”. O bordão, segundo Jô Soares, foi criado por Max Nunes, baseado em uma história verídica. Um dos integrantes da Academia Brasileira de Letras saía atrasado para uma recepção de gala na Academia e resolveu pegar um táxi. O motorista, ao vê-lo vestido com o fardão, perguntou: “Sois rei?”.

– Operário que ouvia atentamente as notícias que seu amigo Juca (Flávio Migliaccio) lia nos jornais. Perplexo com os rumos da política e da economia brasileira, ele exclamava ironicamente: “Ah! Eu quero aplaudir!”.
Em 1981, fizeram sucesso, ainda, os personagens Seu Roseira, o cortineiro de um teatro; e Gelatina, um policial que tinha pânico de assaltos.
CAPITÃO GAY – Um super-herói que, ao lado do seu fiel parceiro, Carlos Suely (Eliezer Motta), defendia os fracos e oprimidos. A dupla se escondia sob a identidade secreta de homens de negócios sérios e compenetrados. Quando recebiam o chamado de alguém em apuros, ambos vestiam o uniforme multicolorido (o do Capitão Gay era um collant cor de rosa) e se transformavam em duas figuras multicoloridas. Seu grito de guerra era: “Cansei!”.
O sucesso do Capitão Gay gerou um compacto simples com o jingle do personagem, composto e gravado pelo próprio Jô Soares. A letra dizia: “Ele é o defensor das minorias (gay) / E é sempre contra as tiranias (gay) / É um avião, um passarinho sem rabicho?/ Ou se parece mais com outro bicho? / É o Capitão Gay/ Gay, Gay/ Capitão Gay!”.
O personagem entrou em cena no ano de 1982.
 GARDELÓN – Argentino, era uma espécie de quebra-galhos que se metia nas maiores roubadas por influência dos “muy amigos”.
KID FRUTUOSO – Punk, líder da banda Sangra Sangra Hemorragia, que se esforçava para odiar a sociedade de consumo – “Eu cuspo na sociedade! Cuspo!” –, mas no fundo era um consumista.
DONA CONCEIÇÃO – Uma analista econômica supertemperamental, sátira à economista Maria Conceição Tavares.

GENERAL GUTIERREZ – Ex-déspota argentino que, para escapar à Justiça do seu país, decidira mudar-se para a Bahia e passar a se chamar Severino Silva. O personagem surgiu quando a Justiça argentina começava a processar os militares envolvidos com a ditadura.

ANABELA – Repórter especialista na cobertura de catástrofes.
VENTUROSO – Enviado ao Brasil pelo Rei de Portugal para avaliar os progressos da ex-colônia.
ZÉ DA GALERA – Torcedor fanático da seleção brasileira que ligava de um orelhão para o técnico Telê Santana para dar palpites na escalação do time. Na época, a grande polêmica envolvendo a seleção era o esquema tático de Telê, que abria mão dos jogadores que atuavam nas pontas direita e esquerda em prol de uma marcação especial no meio-campo. Zé da Galera pedia, inconformado, aos berros: “Bota ponta, Telê!”, um bordão que se tornou uma febre durante a Copa do Mundo.

DOM CASQUETA – Chefe mafioso, desiludido porque não via nenhuma condição de a máfia existir em um país tão desorganizado quanto o Brasil.

PILOTO – Assistente de estúdio temperamental e atrapalhado que se consagrou com o bordão “Falha nossa!”.
JAQUELINO – Um homem que se dizia honesto “até certo ponto”.
CORONEL PANTOJA (Jô Soares) e CORONEL BEZERRA (Chico Anysio) – Dois poderosos fazendeiros do interior que se odiavam secretamente, mas se passavam por vizinhos cordiais durante suas conversas na varanda. O quadro era exibido, alternadamente, a cada semana, nos programas Viva o Gordo e Chico Anysio Show (1982).
DOMINGÃO – Jogador de futebol que, apesar de gordo e perna de pau, não entendia por que ainda não fora descoberto pelos empresários europeus.
Também estrearam naquele ano a PR – Porta-Voz, emissora de rádio que só noticiava desmentidos; e o turista inglês que não conseguia entender o sutil conceito de “jeitinho brasileiro”.
ZEZINHO – Telespectador que aparecia no final de cada edição assistindo ao programa em casa com um controle remoto na mão. Debochado e extremamente crítico, ele reclamava todas as semanas do programa do “Gordo”, a quem considerava totalmente sem graça. Jô Soares sempre ganhava a simpatia de Zezinho prometendo o striptease de uma das atrizes do elenco, mas todas as vezes interrompia o número para encerrar o programa.
 ARAPONGA – Um recepcionista confuso que não reconhecia ninguém, por mais famoso que fosse, e repetia irritantemente: “Quain?”.
JÚLIO FLORES – Anarquista basco convocado para servir de assessor em qualquer espécie de greve.
DALVA MASCARENHAS – Confundia as pessoas pelo seu modo de vestir (sempre de terno), bigode e voz grossa, e se autodefinia  “Mulheríssima”, feminina e vaidosa.
Neste ano, fez sucesso ainda o quadro do dentista tarado que se aproveitava das consultas para assediar as pacientes e exclamava: “Bocão!”.

 VOVÓ NANÁ – Rosa Bernardino era uma velhinha corcunda e meio surda que, de guarda-chuva em punho e com a boca borrada de batom, tentava a todo custo descolar uma vaga na televisão, para desespero do diretor (Francisco Milani).

Outros personagens

Em 1983, alguns personagens sofreram mudanças. O Reizinho foi destronado e passou a ter que enfrentar a vida dura de plebeu, enquanto o Capitão Gay ganhou uma versão infantil. Novos quadros fixos – como uma paródia de Alice no País das Maravilhas e o Coração do Povo – foram apresentados, e a sátira política ganhou ainda mais peso no humorístico.

Em 1985, o programa só voltou das férias em agosto, devido à cobertura da morte do presidente Tancredo Neves. Houve tempo, portanto, para criar um personagem que comentasse o fato: o General, interpretado por Jô Soares. Amigo do então presidente João Figueiredo, o General sofrera um acidente no dia da posse e passara seis anos em coma. Ao despertar, ainda enfraquecido e ligado a tubos e sondas, descobria que o Brasil havia mudado e que seu amigo não ocupava mais a presidência; pior, quem ocupava o cargo agora era José Sarney, um civil. O General quase ia à loucura, pedia: “Me tira o tubo! Me tira o tubo!”.

Em 1986, merece destaque também o desempregado que fazia biscate como “espantalho” de uma fazenda e conversava o dia todo com dois corvos cheios de opiniões.

Em 1987, o último ano do programa, novos tipos estrearam em Viva o Gordo, só nos dois primeiros meses da temporada. Um dos quadros que merece destaque era o Jornal do Gordo, direcionado a pessoas “mais ou menos surdas”. Enquanto o apresentador (Paulo Silvino) dava as notícias, um intérprete (Jô Soares) tentava desesperadamente comunicar as notícias através de mímicas para os surdos-mudos.

Paulo Silvino protagonizou tipos engraçados no Viva o Gordo. Entre os personagens que merecem destaque estão Fonseca (“Ele guenta, ele guenta!”), Frei Serapião (“Como é grande”!) e a Boneca (“Dá uma pegadinha!”), além dos bordões “Vou às mulheres!”, “Eu gosto muito dessas coisas!” e “Aí tem!”.

A atriz Kate Lyra ficou famosa interpretando a gringa ingênua que dizia a célebre frase: “Brasileiro é tão bonzinho”.

Alexandre Frota participava do quadro Claquete no papel de um galã que não sabia beijar. Ele precisava beijar a Claudia Raia e Jô Soares aparecia como um claquetista e o ensinava como fazer.

Bordões

Os bordões criados por Jô Soares no programa Viva o Gordo caíram na boca do povo, entre eles “Tirante o Aureliano, que fala, vice não fala”, do vice-presidente de uma empresa; “Vamos malhar?”, da professora de ginástica; “Tem pai que é cego”, de Tavares, orgulhoso do filho Dorival, que fazia cursos de maquiagem, balé e corte e costura e saía-se com a expressão quando um pai de família lhe contava sobre as atividades másculas do rebento (“Faz judô, é? Já entendi… Cala-te boca, tem pai que é cego!”); “É o meu jeitinho”, expressão de Rochinha, o tímido desengonçado que causava inveja nos homens por andar com o mulherão Liliane (Magda Cotrofe); “Não quero meu nome em bocas Matildes”, da sogra que conversava com a filha pelo telefone deitada numa banheira de espuma com uma toalha na cabeça; “Soniiinho”, do bebê Filico, que rezava e esfregava os olhinhos quando ouvia comentários sobre assuntos de gente grande como a inflação brasileira; “Cala a boca, Batista”, do Irmão Carmelo, que não deixava seu dentuço colega de sacristia (Eliezer Mota) pronunciar uma palavra; além de “Aproveita que eu tô calmo!”, “Vai sobrar pra mim!” e “Bótimo, melhor que bom, melhor que ótimo!”.

ABERTURA

No início, as aberturas de Viva o Gordo eram feitas a partir de fotografias cômicas, desenhos e cartuns criados pelo cartunista Redi.

Em 1982, o programa começava com uma abertura carnavalesca reunindo o balé da TV Globo e o elenco em figurinos cheios de brilho e plumas.

Em 1983, Hans Donner idealizou uma abertura na qual Jô Soaresse transformava em personagens históricos gordos ao som do tema do programa, agora em versão instrumental. O comediante ia trocando de roupa à medida que os trajes e adereços de cada tipo voavam até as suas mãos. Para conseguir o efeito, o truque foi rodar o videoteipe de trás para frente depois que Jô gravava atirando as peças em direção à câmera. Entre as figuras satirizadas por Jô Soares estavam Mao Tsé-tung e o papa João XXIII.

Hans Donner criou nova abertura em 1984, dessa vez feita com o uso do newsmate, recurso que permite recortar e sobrepor imagens. Jô Soares, usando roupas coloridas, figurava sobre imagens em preto-e-branco. No final, o comediante saltava sobre uma cama elástica que se transformava na logo do programa. Esse princípio de sobreposição de imagens seria explorado por Hans Donner nas aberturas dos anos seguintes.

Na temporada de 1985, Jô Soares aparecia em imagens de arquivo, ao lado de celebridades internacionais, como se estivesse participando e interferindo nas cenas. Entre outras façanhas, ele fumava charutos com Fidel Castro, levava um sermão do papa João Paulo II, limpava a mancha de nascença na testa de Mikhail Gorbatchov, e ajudava Margareth Thatcher na cozinha. No final, surgia em frente a uma bandeira gigante do Brasil, em uma imagem captada durante um dos comícios pelas eleições diretas, e mandava um beijo para a câmera.

Na abertura de 1986, ano do Plano Cruzado, Jô Soares interagia com personalidades da política nacional e internacional. Entre outros momentos, o comediante aparecia discutindo táticas de futebol com o técnico Telê Santana, bebendo chimarrão com Leonel Brizola e repartindo salgadinhos com José Sarney e Marco Maciel.

Em 1987, Jô Soares “contracenava” com Ronald Reagan – rasgando um documento que o então presidente dos Estados Unidos acabava de assinar; a princesa Diana – que o esbofeteava; Diego Maradona – com quem batia bola; e Orestes Quércia – de quem batia a carteira.

CURIOSIDADES

Jô Soares conta que havia um coronel com o sobrenome “Gay” em Brasília. Com receio de uma intervenção da censura, ele conversou a respeito com o então vice-presidente de Operações da TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que bancou imediatamente o personagem Capitão Gay. Tempos depois, o humorista se encontrou por acaso com o coronel Gay, que garantiu se divertir imensamente com o quadro.

A atriz Ângela Vieira começou sua carreira trabalhando por oito anos nos humorísticos Planeta dos Homens e Viva o Gordo. Ela fazia aparições de um minuto, sempre no papel da mulher glamourosa.

O bordão “Falha nossa”, do contrarregra Piloto, virou nome de um quadro do Video Show.

Os melhores momentos do programa humorístico Viva o Gordo foram lançados em dois DVDs pela Globo Marcas em 2009. Com duração total de cinco horas e meia, a série trazia personagens clássicos como Reizinho, Venturoso, Zé da Galera e Zezinho.

Fonte: Memória Globo 

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