Globo 50 Anos: TV Pirata

Integrado por um elenco fixo de atores, o humorístico ironizava a realidade brasileira satirizando a programação da TV.

Até a década de 1980, a principal escola de humor na televisão brasileira era o rádio, de onde vieram humoristas de sucesso comoMax Nunes, Haroldo Barbosa e Chico Anysio. Os programas, em sua maioria, traziam personagens fixos que repetiam rotinas, bordões e piadas pontuadas pelas gargalhadas produzidas pela claque.

Ao longo dos anos, houve várias tentativas de escapar à formula e criar uma linguagem específica para a televisão. Em 1984, com a estreia do seriado Armação Ilimitada, surgiu, de fato, uma nova proposta de humor, com recursos de imagem e de texto inéditos até então. Um dos responsáveis pelo seriado era o diretor Guel Arraes, que, em 1990, à frente do TV Pirata, deu mais um passo em direção às novas possibilidades de humor na televisão.

TV Pirata reunia, entre outros, escritores consagrados como Luis Fernando Verissimo; dramaturgos expoentes do teatro apelidado pela imprensa de “besteirol”, como Mauro Rasi, Vicente Pereira, Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro; e os humoristas da Casseta Popular e do Planeta Diário, Hubert, Reinaldo,Bussunda, Claudio Manoel, Helio de La Peña, Beto Silva e Marcelo Madureira.

No elenco, atores de teatro e televisão, nenhum deles identificado com o perfil tradicional do comediante: Marco Nanini, Louise Cardoso, Ney Latorraca, Débora Bloch, Diogo Vilela, Claudia Raia, Guilherme Karan, Cristina Pereira, Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães. Os dois últimos eram ex-integrantes do lendário grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone, do qual também saiu Patricya Travassos, que fazia parte da equipe de redatores.

Ao mesmo tempo em que soava inovador para os padrões brasileiros – TV Pirata apresentava um humor mais sofisticado que aludia aos ingleses do Monty Python e aos americanos do Saturday Night Live, por exemplo – o programa também fazia parte da linhagem de humorísticos que começou no final dos anos 1960 com o TV0-TV1 (1967) e prosseguiria, na década seguinte, com Satiricom (1973) ePlaneta dos Homens (1976). Como esses programas, TV Pirata satirizava a própria programação televisiva: as telenovelas, os telejornais, os programas de entrevistas, os seriados, os programas esportivos, os videoclipes, os shows, os anúncios comerciais e as mensagens de utilidade pública. A Globo era, evidentemente, o alvo principal.

A sátira da televisão era o pretexto para que TV Pirata falasse da realidade brasileira e de temas como violência urbana e infantil, crime organizado e a situação nos presídios. Os quadros variavam a cada semana, com predominância de esquetes cômicos e vinhetas, além dos quadros fixos. Na estreia, por exemplo, foram ao ar 33 quadros, e poucos tiveram continuação nas semanas seguintes, como a novela Fogo no Rabo e o seriado de guerra Combate.

Em 1989, ainda sob a direção de Guel Arraes e José Lavigne, TV Pirata voltou com novos quadros, como Pestana e As Presidiárias. No mesmo ano, o elenco passou a ter a participação de Pedro Paulo Rangel, no lugar de Marco Nanini.

Novas mudanças no elenco aconteceram na terceira temporada do TV Pirata, em 1990. Além da volta de Marco Nanini, também as atrizes Maria Zilda Bethlem e Denise Fraga passaram a participar do programa, no lugar de Claudia Raia e Louise Cardoso. No dia 31 de julho daquele ano, o humorístico saiu da grade de programação da Globo.

TV Pirata voltou a ser exibido em abril de 1992; a partir de então, mensalmente. Cada edição tratava de um tema específico. Os atores Marisa Orth, Otávio Augusto e Antonio Calloni se juntaram ao elenco. Os redatores eram Alexandre Machado, Beto Silva, Bussunda, Claudio Manoel, Helio de La Peña, Luis Fernando Verissimo, Marcelo Madureira, Mauro Rasi, Reinaldo e Expedito Faggione.

Fogo no Rabo

 Fogo no Rabo era uma paródia de Roda de Fogo, novela exibida pela Globo em 1986. O quadro – que teve nada menos que 33 capítulos – foi um dos mais marcantes da TV Pirata, por sua inovação ao fazer uma mistura com diversos chavões dos folhetins: perda de memória, reencontro de gêmeos, procura pela verdadeira mãe, alpinismo social e personagens questionando sua sexualidade. Seus personagens principais eram os seguintes:

REGINALDO (Luiz Fernando Guimarães) – Um empresário sem escrúpulos interpretado pelo fictício galã Felipe Fernandes, que havia trocado tiros com vários irmãos gêmeos e gabava-se de ser honesto – nunca vendeu uma criança que não funcionasse corretamente. Noivo de Natália (Debora Bloch), na realidade a desprezava e a usava para seus golpes. Sempre que seu nome era pronunciado ou Reginaldo entrava em cena, era tocado o trecho “Como uma deusaaaa”, do refrão da canção O Amor e o Poder, da cantora Rosana Fiengo. A música fez parte da trilha sonora da telenovela Mandala, exibida em 1987. Músicas do filme Blade Runner também eram usadas em Fogo no Rabo.

NATÁLIA (Debora Bloch) – Filha de Barbosa (Ney Latorraca) e Clotilde (Louise Cardoso) e irmã de Amílcar (Diogo Vilela). Suburbana lourinha e romântica, ainda brincava de Barbie mas sonhava em se casar com Reginaldo (Luiz Fernando Guimarães) e ter dois filhos lindos: Danielle Aparecida e Cleverson Carlos. Sempre maltratada pelo amado, dizia: “Reginaldo, você é tão bom pra mim!”

 PENÉLOPE (Claudia Raia) – Antagonista da história, vilã digna de novela mexicana. Mulher fatal, com roupas exageradas, era amante de Reginaldo (Luiz Fernando Guimarães) e se aproveitava da ingenuidade da apaixonada Natália (Debora Bloch) para explorar sua família.

BARBOSA (Ney Latorraca) – Pai de Natália (Debora Bloch) e Amílcar (Diogo Vilela) e marido de Clotilde (Louise Cardoso). Barbosa era um velhinho caquético de cabeça branca, barrigudo, que não conseguia comandar a família, e só sabia repetir a última palavra de tudo o que os outros diziam com um beicinho inconfundível que virou mania nacional. O personagem foi um dos maiores sucessos do TV Pirata.

CLOTILDE (Louise Cardoso) – Mulher de Barbosa (Ney Latorraca), mãe e conselheira de Natália (Debora Bloch) e Amílcar (Diogo Vilela). Sua vida era cuidar da família. Era definida como “uma mulher misteriosa que guarda um grande segredo: 4-3-3 para a esquerda e 5-2-8 para a direita”.

AMÍLCAR (Diogo Vilela) – Irmão de Natália (Debora Bloch), jovem intelectual e engajado, criticava a sociedade, o governo, e não aceitava a vida alienada dos pais Clotilde (Louise Cardoso) e Barbosa (Ney Latorraca). Aspirante a jornalista, gostava sempre de citar estatísticas sociopolítico-econômicas alarmantes em cenas dramáticas, geralmente acompanhadas de tabelas e gráficos. Descobriu sua sexualidade ao apaixonar-se por Agronopoulos (Guilherme Karam), capanga de Reginaldo (Luiz Fernando Guimarães).

DONA MARIANA (Regina Casé) – Prestativa secretária de Reginaldo (Luiz Fernando Guimarães), não perdia a chance de fazer merchandising nas cenas mais impactantes. Também teve um caso com Agronopoulos (Guilherme Karam).

GRONOPOULOS (Guilherme Karam) – Capanga de Reginaldo (Luiz Fernando Guimarães), comunicava-se por meio de grunhidos. Uma criatura bizarra, definido como uma mistura high-tech de Corcunda de Notre-Dame e Nosferatu, tinha um olho de vidro e a cabeça toda costurada com uma placa metálica no canto. Apesar dos preconceitos, provou que os brutos também amam.

Episódios de Fogo no Rabo

Entre os episódios exibidos, alguns foram marcantes. Num deles, Amílcar assumia sua amizade colorida com Agronopoulos e os dois passavam a morar na casa de Barbosa e Clotilde. Sem esperanças de conseguir se casar com Reginaldo, Natália arrumava um namorado, João Batista (Felipe Camargo). Reginaldo ficava sabendo e, com ciúmes, pedia para Agronopoulos liquidar o sujeito. Na hora do crime, Barbosa passava na frente do casal, acabava levando um tiro e morria. Clotilde ficava desesperada e, no velório, apareciam outras viúvas com vários filhos de Barbosa, com a mesma peruca grisalha e o beicinho repetindo “Barbosa, Barbosa”.

A morte de Barbosa mobilizou o país. A repórter Adelaide Catarina (Debora Bloch) foi às ruas para saber a reação do público, que pedia a volta de Barbosa. Assim, em outro episódio, Barbosa saía da sepultura e voltava ao mundo dos vivos como um zumbi. A volta de Barbosa virou manchete dos jornais no TV Pirata: “Milagre! Barbosa ressucita e é recebido pela irmã Tereza”.

Em outro episódio, Reginaldo sofria um acidente numa viagem a Búzios e perdia a memória. Esperto, Agronopoulos o fazia assinar uma procuração no hospital e ficava com o controle das empresas. Quando saía do hospital, Reginaldo ficava vagando pelas ruas e acabava encontrando a família de Natália. Para alegria da moça apaixonada, ele ia morar em sua casa. Após seis meses soltando pipa, jogando bola e vivendo uma vida simples, Reginaldo recuperava a memória e decidia retomar seu império. Sem compaixão, ele acabava deixando a família de Natália na miséria.

Perto do final de Fogo no Rabo, Marco Nanini assumiu o lugar de Luiz Fernando Guimarães no papel de Reginaldo. No dia de seu casamento, Natália descobriu que era irmã de Reginaldo e não poderia se casar com ele. Penélope, que havia se trancado num convento, acabava saindo para se casar com Reginaldo. Mas ele só pensava em Natália. Nesse meio tempo, Amílcar era escalado para uma entrevista com o presidente Getúlio Vargas e o chefe de Estado faz uma revelação: Natália não era irmã de Reginaldo.

Na noite de Natal, Natália, enfim, descobria pelos jornais que não era irmã de Reginaldo, vestia-se de noiva e aparecia na igreja onde Reginaldo se casaria com Penélope, que desmaiava. Amílcar encontrava Penélope amargurada, bebendo num bar, e os dois acabavam saindo juntos.

O final de Fogo no Rabo foi um casamento coletivo: Natália e Reginaldo, Amílcar e Penélope, Agronopoulos e Dona Mariana e até Barbosa e Clotilde se casam novamente.

Foi gravado um final que acabou não sendo exibido. Nele, Barbosa ganhava na Mega-Sena e alugava um foguete para a família fazer uma viagem para o espaço.

Fogo no Rabo sempre começava com a locução: “A primeira novela brasileira sem Paulo Gracindo”. Ficaram na memória ainda os créditos que apareciam no final: “Novela de Angu do Gomes. Com: Bugleux, Cafuringa, Alfinete, Denílson, Batata, Fidélis, Waltencir, Claudinei, Adãozinho, Bianchini & Grapete. Astros convidados: Júpiter, Saturno e Plutão. As crianças: Huguinho, Zezinho, Luisinho & Nelsinho Motta. Direção: Emmerson Fittipaldi”.

TV Macho

“Boa noite, pessoal da maromba, rapaziada macha do Brasil! Estamos mais uma vez aqui com um programa feito para você que é macho de verdade. Por quê? Tá com alguma dúvida? Então desliga logo esse televisor, antes que eu vá aí e parta a tua cara, sua bicha!”. Era dessa forma que o apresentador Zeca Bordoada (Guilherme Karam) iniciava as transmissões da TV Macho – uma versão debochada do programaTV Mulher, exibido pela Globo anos antes.

Com um visual inspirado no estereótipo do cafajeste consagrado nos anos 1970 – costeletas, óculos escuros estilo aviador, correntes de ouro penduradas no pescoço, camisa listrada e palito nos dentes – Zeca Bordoada entrevistava seus convidados, legítimos representantes da “classe dos machos”, enquanto cuspia no chão. Um deles era o costureiro Paulo Tesourão (Ney Latorraca), que defendia que a cartela de cores do homem só tem três opções: cinza, preto ou marinho. E ainda: “homem não usa tecido, homem usa pano”!

Outra representante era Edicleia Carabina (Refina Casé), presidente da Torcida Violência Alvinegra, que bradava: “chegou a hora da mulher assumir sua porção macho”. A presidiária Tonhão, interpretada porClaudia Raia, o cowboy americano Billy Joe, interpretado por Marco Nanini e o sexólogo Luis da Mangueira, interpretado por Diogo Vilela, foram outros entrevistados que passaram por lá.

O cenário se resumia a duas cadeiras e uma mesinha com um cinzeiro, uma garrafa térmica e várias garrafas de cerveja. No chão, alguns papéis de balas espalhados. As entrevistas eram sempre pontuadas por comentários cafajestes e rompantes de fúria do apresentador, que ameaçava “dar uma bifa” em alguém o tempo todo. Invariavelmente, o quadro terminava com o entrevistador descendo a bordoada no convidado ou no próprio cameraman.

O programa tinha ainda um quadro de culinária comandado por Luiz Fernando Guimarães. O chef desajeitado e sujo deixava a cozinha de pernas para o ar e ainda botava fogo nas panelas. Suas receitas sempre davam errado e no final, desistia de cozinhar e pedia uma pizza calabresa.

Até as propagandas exibidas nos intervalos do TV Macho eram temáticas. “Nada de a primeira faz tchan, a segunda faz tchun. Isso é coisa de boiola. Acaba de chegar Moto Shave, o barbeador do macho”, dizia Diogo Vilella, mostrando uma motoserra usada para fazer a barba. Em outro comercial,Luiz Fernando Guimarães aparecia se preparando para sair e, em vez de passar perfume, pegava um borrifador de inseticida com o produto Futum, “o perfume do homem que não pisa na chapinha nem escorrega no quiabo”. Logo depois, aparecia dentro de um trem espantando todos os passageiros com seu peculiar odor.

A abertura do quadro era um videotape de uma luta de boxe com um logotipo parodiando o do antigo programa TV Mulher, ao som da música Macho Man, do Village People, ou ao som de uma guitarra ao fundo.

O segredo de Darcy

Darcy (Luiz Fernando Guimarães) era uma “mulher” meio diferente das normais, com métodos nada ortodoxos. Comandava com mãos de ferro a vida do marido, o panaca Otávio (Pedro Paulo Rangel), o Tavinho, filho de Dona Celeste (Regina Casé) , que sempre se metia na vida do casal.

Darcy gostava de filmes de ação, futebol, praticava boxe tailandês, tomava cerveja Caracu com ovos, tinha uma coleção de revistas Playboy em casa e apresentava um comportamento abrutalhado demais para o gosto de sua sogra. Sempre que Tavinho aprontava alguma, Darcy partia para cima do Perobão – como o chamava quando estava com raiva – com rolo de macarrão e garrafas de cerveja. O coitado voava para trás do balcão da cozinha, seu único refúgio, e invariavelmente saía de lá com o olho roxo.

Quando Dona Celeste aparecia, Darcy a recebia com um tapão nas costas: “E aí, Dona Celeste, como é que vai essa força aí, sogrão?”. Nas horas de intimidade do casal, que se chamavam de Nononha, Jojonho, Fofonho e Xoxonha, Dona Celeste percebia que era hora de ir embora e se despedia: “Já estou de saída. Eu sei quando eu estou sobrando. Vou deixar os pombinhos à vontade”. Às vezes Darcy se irritava com os comentários da sogra e gritava para Tavinho: “Eu ainda mato essa jararaca!”.

O cenário era a casa do casal, onde aparecia a sala de estar com dois sofás e uma mesa de centro, uma pequena sala de jantar, a porta do banheiro – onde Darcy sempre entrava com uma revista da Playboy para “tirar água do joelho” – e a cozinha americana, separada da sala por um balcão.

Em todos os episódios, o figurino se repetia: Dona Celeste usava um vestido azul com destaque para os seios volumosos; Darcy tinha um penteado chanel e estava sempre com uma blusa de seda larga, uma saia e uma echarpe; e Otávio adotava um estilo almofadinha, com calça social e camisa de mangas compridas.

Entre os episódios que foram ao ar estão: O Que Mamãe Dirá?, em que Dona Celeste comentava os modos estranhos de Darcy; São Coisinhas de Mulher, em que a vizinha Tatiana (Denise Fraga) pedia para tomar banho com Darcy, para o estranhamento de Dona Celeste; O Pau Comeu na Casa de Noca, em que Darcy aparecia com o olho roxo e Dona Celeste procurava saber o que aconteceu; Quem Passou a Mão na Minha Poupança?, uma crítica à ministra Zélia Cardoso de Melo, que confiscou as poupanças, entre elas a de Darcy; Quando Voam as Cegonhas, em que Darcy dizia que estava grávida de nove meses e Tavinho fazia todas as suas vontades, incluindo linguiça frita com ovos, feijoada em lata e cerveja Caracu – mas no final do episódio, Darcy ia ao banheiro e voltava sem a barriga: “Ué, cadê meu netinho?”, perguntava Dona Celeste. “Era chope, rá rá rá”, respondia Darcy; Cadê Minhas Bolas, em que Darcy era convocada para jogar na Seleção Brasileira de Futebol, para desespero de Tavinho, que escondia suas chuteiras; Parabéns Para Você, que mostrava uma festinha de aniversário comandada por Darcy com um churrasco em sua casa, em que um dos amigos de Darcy, vivido por Marco Nanini, se interessava por Dona Celeste e armava a maior confusão; e O Cravo Brigou com a Rosa, episódio que Darcy brigava com Tavinho, saía de casa e ia para um motel chorar as mágoas.

As presidiárias

O quadro estreou em 1989, com quatro personagens bem diferentes:

TONHÃO (Claudia Raia) – Maria de Lurdes das Graças, de 38 anos, conhecida como Tonhão, ficou famosa nos anos 70 quando jogou no Palmeiras. Foi condenada a 28 anos por ter seduzido e estuprado 456 alunas do Educandário das Normalistas Carmelitas. A presidiária se aproveitava de qualquer situação para seduzir suas companheiras de cela.

OLGA DE CASTRO (Cristina Pereira) – Militante duplo-esquerdista do PCCPC (Partido Comunista Comunista Pra Caramba), tinha 22 anos e usava uma boina com a estrela vermelha do Partido Comunista.

ISABELLE DUFFON DE MONTPELLIER (Louise Cardoso) – Menina mimada, filha de um poderoso banqueiro internacional, foi presa aos 22 anos de idade e condenada a 15 anos de reclusão a pedido do próprio pai – para que ela começasse a sua carreira por baixo. Vivia reclamando das instalações antiquadas e repugnantes condições insalubres do presídio.

CRISTIANE F (Debora Bloch) – Drogada, prostituta, alcoolizada, vadia, mal paga e torcedora do Botafogo, tinha 18 anos quando foi condenada por porte de drogas e tráfico de camisinhas e tomadas japonesas.

DONA SOLANGE (Regina Casé) – Diretora do presídio, era uma portuguesa de bigode e seios enormes.

 O cenário principal era formado pela cela das quatro presidiárias, com dois beliches e pôsteres de mulheres nas paredes, colados por Tonhão. O figurino de cada uma customizava o uniforme da cadeia de acordo com seus estilos.

Na mira do crime

Um programa policial apresentado pelo delegado Mariel Mexilhão (Pedro Paulo Rangel). Vestido com blazer marrom, camisa listrada, correntes de ouro, óculos de grau estilo aviador, costeletas, pulseiras de prata e lenço estampado na lapela, o delegado usava como cenário uma cadeira de couro e uma mesa, típicas das antigas delegacias. Para a trilha sonora, acionava uma vitrola com um disco de vinil.

Além da “cotação do presunto na Baixada” e da “parada dos mais procurados pela polícia”, Na Mira do Crime apresentava sempre a reconstituição de uma história verídica, nos moldes do programa Linha Direta, que estreara em abril de 1990. Uma das histórias mostrava o casal Denilson (Luiz Fernando Guimarães) e Luzinete (Regina Casé). Desconfiado da mulher, um dia Denilson resolveu chegar mais cedo em casa e a flagrou na cama com o carnavalesco Pedro Paranaguá (Diogo Vilela). Não perdoou e deu dois tiros em cada um. Ao voltar da cadeia, virou gay e decidiu morar com um homem, que se vestia de mulher e costurava para fora. Ao final, Mariel Mexilhão anunciava a moral da história, enviesada: “Malandro que ensaboa o pé… escorrega no quiabo”.

Outros quadros

Barbosa Nove e Meia

Em 1989, com o final de Fogo no Rabo, o personagem de Ney Latorraca passou a estrelar o Barbosa Nove e Meia – que começava às 21h30 porque ele dormia cedo – e satirizava os programas de entrevistas.

Rala, Rala

No mesmo ano estreou Rala, Rala, “a primeira novela rural semLima Duarte”. O protagonista desta vez era Índio Cleverson (Luiz Fernando Guimarães), um ingênuo silvícola meio abobalhado que achava tudo “En-graçado pra-caramba!”.

Prisão de Ventre
Prisão de Ventre foi outro sucesso que também trazia Luiz Fernando Guimarães como protagonista no papel de um falido jogador de futebol que sonhava encontrar sua perna desaparecida.

Piada em Debate
Louise Cardoso era a âncora deste quadro que tinha como objetivo debater em detalhes a anedota mostrada anteriormente. Num dos episódios exibidos, Debora Bloch interpretava uma mocinha que passava mal dentro de um avião e a comissária de bordo (Claudia Raia) perguntava à sua mãe (Cristina Pereira): “Foi comida?”. A mãe, então, respondia: “Foi sim, mas vai casar amanhã”.
Para o debate pós-anedota foram convidados a socióloga Agripina Inácia (Regina Casé), o economista Adroaldo Pereira (Ney Latorraca), o chefe da torcida jovem do Botafogo, Tarzã (Guilherme Karan), e ainda o papagaio José de Arimateia. O debate esquentava e a âncora tinha que se esforçar para manter a ordem. O mais engraçado era o replay da piada em questão, mostrando detalhes que num primeiro momento o telespectador poderia não perceber, como os personagens ao redor do núcleo principal.

Dieta
Paródia da novela Tieta, exibida entre 14/08/1989 e 31/03/1990. Na abertura, uma Debora Bloch cheia de curvas e mais cheinha se enrolava em panos e dançava entre as palmeiras, ao som da música que satirizava a versão de Caetano Veloso para a personagem de Jorge Amado. A nova letra estimulava a gula sem preocupação: “Vem meu amor, vem com sabor / Juntos vamos engordar / Comer sem pudor, a todo vapor / Linguiça, paio e couve-flor / Dieta, Dieta / No ventre de Dieta encontrei um leitãozinho / A boca de Dieta tá cheia de macarrão”. Os personagens de Dieta lembravam os da novela, mas sempre com uma guloseima em mãos. O pecado de Perpétua (vivida por Joana Fomm em Tieta), por exemplo, era uma gigante pizza calabresa. Ao final, o locutor anunciava: “Dieta do Agreste. Baseada numa receita de Jorge Amado”.

Que Gay Sou Eu?
Sátira à novela Que Rei Sou Eu?, exibida pela Globo entre 13/02/1989 e 16/09/1989. Pedro Paulo Rangel, Luiz Fernando Guimarães e Ney Latorraca formavam o trio de gays que vivia num imaginário reino na época da Revolução Francesa.

 Casal Telejornal
Mostrava o cotidiano de Carlos Alberto (Luiz Fernando Guimarães) e Maria Helena (Regina Casé), um casal de jornalistas que lia as notícias mais absurdas do mundo – “Ministros militares desmentem boato de que Mike Tyson dará um golpe de direita” – diretamente do balcão da cozinha de um apartamento de classe média, enquanto resolviam seus assuntos domésticos.

Casal Neuras
Outro casal que marcou os primeiros programas era o Casal Neuras, versão para a TV dos personagens paulistas, moderninhos e neuróticos criados pelo cartunista Glauco Villas-Boas e publicados em tiras de quadrinhos na Folha de S. Paulo. Na definição do criador, os Neuras eram “personagens que experimentaram a revolução sexual, mas ainda vivem como nossos pais”. O casal era interpretado por Luiz Fernando Guimarães e Louise Cardoso.

Morro do Macaco Molhado
Exibido a partir de 1989. As atrizes Louise Cardoso e Claudia Raia davam vida a uma dupla de vigaristas dispostas a aplicar os mais diversos golpes. Numa das histórias, Claudia Raia era Maria, empregada de Dona Virgínia (Debora Bloch) que inventava que a patroa estava “mais carregada que caminhão de boia-fria”. Para resolver o problema do “encosto”, chamava Dona Dedeia (Louise Carodoso), uma mãe de santo fajuta que só pensava em se dar bem. A música caiu na boca do povo: “Malandra é malandra mesmo / Não dá mole pra Mané / Mané não lambuza o torresmo / Mané não sabe como é”.

Black Notícias
Inspirado no Jornal Nacional do final dos anos 80, os apresentadores Hipólito Hip-Hop (Guilherme Karan) e Rap Rapeize (Luiz Fernando Guimarães) davam as notícias ao som do hip-hop. Nos créditos do telejornal apareciam os nomes da “equipe de produção”: Edição – James Brown, Câmera – Billy Biscate, Armação – Paulo Muamba, Segurança – Walter Negão e Conexão – Japeri.

Campo Rural
O quadro satirizava o telejornal Globo Rural, que estreou em 6 de janeiro de 1980 na Globo. Mimosa (Louise Cardoso) aparecia junto ao apresentador caipira, vivido por Guilherme Karan, e não dava uma palavra, só concordava com o que ele dizia fazendo “Hummmm”. Rosinha Longras (Regina Casé) era uma ex-boia-fria e entrevistadora do programa, que bajulava seus convidados dizendo: “Ele não é “incríver”? No final da entrevista, despedia-se com um “Amanhã a gente volta, com certeza!”. Entre os patrocinadores do programa estavam o “Leite de Aveia da Vaca” e “Adubo Barrosinho”.

Telecatch Segundo Grau
Apresentado pela professora de biologia interpretada por Claudia Raia, o quadro era uma sátira ao Telecurso Segundo Grau. Na aula sobre o corpo humano, dois marmanjos brigavam num ringue e a cada órgão anunciado pela professora, o homem vestido de esqueleto recebia um golpe no local correspondente.

 Plantão da Farmácia Central
Debora Bloch era Adelaide Catarina, uma incansável repórter que empunhava o microfone na mão e gesticulava exageradamente com a outra enquanto entrava no programa em flashes extraordinários. Com sua inconfundível locução ritmada em alto e bom som, ela se metia em diversas enrascadas. Uma delas foi o desabamento de uma casa de luxo de uma ilustre moradora de São Paulo, interpretada por Regina Casé. Presa nos escombros, ela conversava aos berros com sua filha, uma fútil socialite vivida por Louise Cardoso, que estava mais preocupada com a preservação da piscina e da sauna do que com o estado de saúde da senhora. A atriz chegou a interpretar ainda a jornalista Blasé Urinolla Falabella, que não se importava em mostrar que estava entediada e jogava uma baforada de cigarro no rosto de seus entrevistados. O quarteto ficava completo com os repórteres Rocha Miranda (Luiz Fernando Guimarães), o “repórter de subúrbio”, e Melissa Grendene (Louise Cardoso), a “repórter sandália”.

Brega In Rio
Sátira ao Rock in Rio, que ocorreu em janeiro de 1985. Com o slogan “O primeiro espetáculo que o sertão consagrou”, o festival exibia duplas caipiras como a formada por Diogo Vilela e Louise Cardoso, que cantavam uma versão adaptada da música original: “Se a vida começasse agora / se o mundo fosse um jerimum / largava a obra e xaxava até de manhã / ô-ô-ô-ô / Brega in Rio”. No final, o locutor anunciava o que o público poderia encontrar no evento: “200 toneladas de mandioca, 40 mil litros de manteiga de garrafa, muito leite de cabra e participações de Waldick Soriano e Benito de Paula. Venha logo e traga a sua peixeira!”.

Saddam Onze e Meia
Paródia do programa Jô Soares Onze e Meia, apresentado por Jô Soares no SBT entre 1988 e 1999. No quadro, Pedro Paulo Rangel era o apresentador , “o tirano mais simpático do Iraque”. Vestido como militar, com uma boina, suas entrevistas eram feitas num cenário de guerra, onde não faltavam uma mesa, um sofá e a indefectível canequinha.

Balança, Mas Não Sobe
Paródia do Balança Mas Não Cai, exibido na Globo entre 16/09/1968 e 28/12/1971 e depois entre 25/04/1982 e 02/01/1983. No quadro, mulheres de maiô dançavam na abertura e piadas de duplo sentido eram protagonizadas por atores como Pedro Paulo Rangel, Guilherme Karan, Debora Bloch e Luiz Fernando Guimarães.

Outros quadros marcantes foram o Super Safo, em que Diogo Vilelaera um super-herói que usava o “jeitinho brasileiro” malandro para se safar das confusões: “Esse é mais um biscate para o Super Safo!”; Esporte Esportivo, no qual Diogo Vilela fazia uma paródia de Fernando Vanucci, apresentador do Globo Esporte na época; Relacionamento, Sublime Relacionamento, que mostrava um marido assumidamente corno com sua mulher chata e exigente, cujo amante não apenas se escondia, mas também morava no armário, que tinha até porteiro eletrônico; A Coisa, em que Marco Nanini e Cristina Pereira faziam um cientista louco e sua assistente; e ainda Loucademia de Ginástica, Hospital Geral, Perdidos no Espaço e A Perseguida.

O programa continuou fazendo sátiras da televisão e do cotidiano brasileiro, em quadros como Recessão da Tarde, uma brincadeira com as chamadas da Sessão da Tarde, da Globo, em que anunciavam “filmes” como Apertem os Cintos… O Salário Sumiu e Querida, Engoli as Crianças.

Paródias de comerciais
Os esquetes que criavam intervalos comerciais do TV Pirata eram uma atração à parte, sempre satirizando propagandas que estavam no ar na época. Como a sátira ao cigarro Free: “Pelo menos alguma coisa a gente tem em comum, a sua mulher”. Ou então a Valisère: “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”, em que a estudante (Debora Bloch) ganhava de presente o primeiro sutiã, mas quem acabava estreando era o irmão (Diogo Vilela). E ainda o “Melissão, que vem com um pochetão”, protagonizado por Louise Cardoso, que usava um uniforme de estudante e tentava seduzir a professora, interpretada por Regina Casé. “Revista Faça Feio – a revista da mulher moderna mas sem jeito” era outro esquete comercial em que Debora Bloch encarnava uma moça desajeitada que tentava acertar com os afazeres domésticos.

CURIOSIDADES

Habituada a encarnar sempre o símbolo sexual, Claudia Raiarevelou que teve que lutar para convencer o diretor Guel Arraes a interpretar o personagem Tonhão, do quadro As Presidiárias, que a deixava irreconhecível com uma touca de meia na cabeça e trejeitos masculinos. Segundo Bussunda, um dos principais redatores do programa, a ideia inicial era criar um quadro chamado TV Machão, com a participação de todas as atrizes do programa.

A realidade brasileira era uma grande fonte de inspiração para oTV Pirata. Por essa razão, os criadores compraram briga com muitas personalidades da época. Durante o escândalo da Legião Brasileira de Assistência (LBA), presidida por Rosane Collor, TV Pirata chegou a retratar a então primeira-dama com roupa de presidiária.

Ney Latorraca conta que entrou no TV Pirata por indicação de Marco Nanini. Seu personagem, Barbosa, era um homem de cabeça branca que fazia bico. Mas ele começou a aumentar tanto o bico que, meses depois, só dava Barbosa, e todo mundo o imitava: “Barbosa, Clotilde”. O sucesso foi tamanho que a mensagem de fim de ano mostrava Tonhão e Barbosa, um do lado do outro, desejando boas festas.

Regina Casé lembra uma passagem hilária ocorrida na época em que interpretava uma das integrantes de uma família de negros. Depois de uma das gravações, que acabou muito tarde, a atriz voltou para casa com toda aquela tinta preta no corpo, difícil de tirar. Seu marido acordou e, quando se deparou com a mulher preta daquele jeito, quase morreu de susto. Luiz Fernando Guimarães também sofreu com a caracterização: passou horas com o corpo besuntado de chocolate para caracterizar o índio Cléverson.

Depois de mais de vinte anos e especialmente por suas duas primeiras temporadas, TV Pirata atingiu um status de ícone do humor brasileiro. No ano seguinte ao fim do programa, o grupo Casseta & Planeta e outros colaboradores se reorganizaram em torno de mais um projeto inovador: Dóris Para Maiores, que por sua vez deu origem ao Casseta & Planeta, Urgente!

Em 2004, a Globo Video lançou um DVD duplo com os melhores quadros do programa, incluindo episódios selecionados de TV Macho e a trama completa de Fogo no Rabo.

O canal de TV por assinatura Multishow, também pertencente às Organizações Globo, reapresentou em 2005 a maior parte dos episódios da primeira temporada, em comemoração aos 40 anos da Rede Globo.

A novela Fogo no Rabo foi reprisada em maio de 2009 no Video Show.

PROGRAMAS ESPECIAIS

Em 1989, o programa começou a exibir edições especiais, como quando promoveu a “campanha” Milionário Esperança, que parodiava o Criança Esperança, da TV Globo. Essa nova fase do TV Pirata foi marcada, entre outros quadros, pela sátira ao filme A Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock.

ABERTURA

A primeira abertura do programa, exibida em abril de 1988, deixava clara sua intenção transgressora: um grupo de piratas invadia uma emissora de TV, destruía os estúdios de onde um telejornal estava sendo transmitido, invadia a sala de controle e colocava no ar uma fita que dava início à programação do TV Pirata.

Outra vinheta, criada por Ricardo Nauemberg, mostrava a logomarca da emissora sendo destruída ao se chocar com a logomarca do TV Pirata.

Com a volta do TV Pirata em abril de 1992, a nova abertura mostrava uma pequena televisão animada que passeava pela tela acompanhada do slogan “nitroglicerina pura”.

Fonte: Memória Globo

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