Globo 50 Anos – coberturas: Impeachment de Collor

 Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto após o fim do regime militar no Brasil, foi também o primeiro a sofrer um processo de impeachment.


A HISTÓRIA

Em 29 de setembro de 1992, pela primeira vez na história da República do Brasil, um presidente, eleito pelo voto direto, foi afastado por vias democráticas. Por 441 contra 38 votos, a Câmara dos Deputados votou pelo impedimento de Fernando Collor, empossado em 15 de março de 1990. As acusações apontavam para um esquema de corrupção no governo que envolvia pessoas próximas ao presidente, como Paulo César Farias, ex-tesoureiro da campanha de Collor.

EQUIPE E ESTRUTURA

Desde as primeiras denúncias contra o presidente Collor, o Jornal Nacional dedicou grande parte de seu noticiário à crise política que se instalara no governo.

A Globo acompanhou passo a passo os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), desde a sua instauração até a leitura do relatório final, 85 dias depois. No dia 9 de junho, o repórter Álvaro Pereira assistiu às seis horas de depoimento de PC Farias no Congresso e apresentou no JN um resumo de suas declarações.

No dia 24 de agosto, a Globo transmitiu, também ao vivo, a sessão de leitura do relatório final da CPI no Congresso Nacional. À noite, o JN entrou ao vivo do estúdio de Brasília, apresentado por Carlos Nascimento. Em entrevista ao repórter Francisco José, Paulo César Farias declarou-se inocente.

O repórter Marcelo Canellas fez parte da equipe que cobriu o movimento contra a corrupção no governo liderado pelos estudantes brasileiros, que ficaram conhecidos como “caras-pintadas”.

Em setembro de 1992, o Jornal Nacional registrou a solenidade de entrega do pedido de impeachmente a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do parecer. A Globo transmitiu ao vivo toda a sessão de votação, que durou pouco mais de duas horas. O JN desse dia foi inteiramente dedicado à votação na Câmara. Cid Moreira e Sérgio Chapelin abriram o telejornal, Carlos Nascimento seguiu com a apresentação diretamente de Brasília, onde estavam os repórteres Alexandre Garcia, Renato Machado,Pedro Bial, Delis Ortiz e Heraldo Pereira.

DESTAQUES

As denúncias e a abertura da CPI

Três meses depois da posse de Fernando Collor, em junho de 1990, surgiram as primeiras denúncias de corrupção no governo, atingindo, naquele momento, apenas o segundo escalão. Em outubro, as acusações passaram a envolver pessoas próximas ao presidente, como PC Farias, o ex-tesoureiro da campanha de Collor, que agiria como intermediário de negócios entre o empresariado e o governo. A partir daí, os escândalos e as denúncias se sucederam e, a cada mês, novos nomes eram apontados.

No dia 24 de maio de 1992 as denúncias atingiram diretamente o presidente da República. Numa entrevista à revista Veja, Pedro Collor acusou o irmão de manter uma sociedade com PC Farias, que seria seu testa-de-ferro nos negócios.

As denúncias rapidamente tiveram repercussão no Congresso Nacional. No dia 25 de maio, o telejornal informou que a Polícia Federal instauraria inquérito para apurar as denúncias contra Collor. O assunto ocupou todo o primeiro bloco do Jornal Nacional.

No bloco seguinte, em matéria de três minutos, mostrou-se as repercussões do escândalo no Congresso e na economia.

O presidente, por sua vez, pediu a abertura de uma ação penal com base na Lei de Imprensa, para responsabilizar o autor das denúncias por crime contra a honra. Durante toda a semana o Jornal Nacionalacompanhou de perto a crise política no governo.

O procurador-geral da República, Aristides Junqueira, pediu a abertura de inquérito para a apuração de crimes contra a administração pública federal, atribuídos ao presidente Fernando Collor, à ex-ministra Zélia Cardoso de Melo, a PC Farias e ao piloto de avião Jorge Bandeira de Melo, acusado de intermediar a liberação de verbas no Ministério da Ação Social. Naquele dia, o presidente divulgou uma carta à nação na qual se dizia profundamente chocado com as declarações “insensatas e falsas” do irmão Pedro Collor. O documento teve alguns de seus trechos divulgados no JN.

Dois dias mais tarde, Pedro Collor, em companhia da mulher, Tereza, do seu advogado e de uma equipe médica, disse em entrevista coletiva que não poderia provar todas as acusações contra Fernando Collor e PC Farias que fizera à revista Veja, mas, mesmo assim, estava com a consciência tranquila. Também tornou público o resultado dos exames de sanidade mental a que tinha se submetido. Segundo o laudo ele estava apto a realizar todos os atos de responsabilidade civil e não apresentava nenhum diagnóstico psiquiátrico.

Naquele mesmo dia, 27 de maio, por solicitação de parlamentares do Partido dos Trabalhadores (PT), o Congresso instaurou uma CPI para apurar as denúncias contra PC Farias. A Rede Globo acompanhou passo a passo os trabalhos da CPI até sua conclusão, quase três meses mais tarde.

O relatório final da CPI

O cerco contra Fernando Collor apertou no dia 28 de junho, quando a revista IstoÉ publicou uma entrevista do motorista Eriberto França confirmando que a empresa Brasil-Jet, de Paulo César Farias, pagava as contas da Casa da Dinda, residência do presidente. A CPI descobriu, então, que a secretária particular do presidente, Ana Acioli, recebia depósitos de PC e de seus “fantasmas” (nomes fictícios de titulares de contas movimentadas pelo “esquema PC”). A prova material definitiva dos vínculos do presidente com o sistema de corrupção (um cheque utilizado na compra do Fiat Elba de Rosane Collor) foi localizada por Jorge Bastos Moreno, repórter do jornal O Globo.

A Globo transmitiu, ao vivo, a sessão de leitura do relatório final da CPI no Congresso Nacional em 24 de agosto. Foram lidas na íntegra suas 200 páginas, redigidas pelo senador Amir Lando. Além de Paulo César Farias, foram apontados como os principais envolvidos Cláudio Vieira, Jorge Bandeira de Melo, Rosinete Melanias, Marta Vasconcelos, Ana Acioli, Najun Turner e José Roberto Nehring. Eles foram responsabilizados por crimes de corrupção, exploração de prestígio, falsificação, sonegação, formação de quadrilha, falso testemunho, entre outros. O relatório apontou as ligações de Fernando Collor com o esquema de corrupção. Estimava-se que um total de 6 milhões e 500 mil dólares haviam sido transferidos para os gastos pessoais do presidente.

No dia da leitura do relatório, uma parte do Jornal Nacional foi apresentada, ao vivo, do estúdio de Brasília, por Carlos Nascimento. Foi feito um histórico do caso desde as denúncias de Pedro Collor e apresentadas as principais conclusões da CPI. Em seguida, mostrou-se a repercussão do fato entre governadores e outros políticos. Paulo César Farias se disse inocente numa entrevista exclusiva concedida ao repórter Francisco José.

Diante das descobertas da CPI, que evidenciavam o envolvimento de Collor com PC Farias, o impeachment do presidente tornou-se o tema central dos noticiários da Globo. Antes mesmo da conclusão do relatório, o Jornal Nacional registrou as primeiras manifestações populares exigindo o afastamento do presidente.

Fantástico mostrou, no dia 16 de agosto, nas principais capitais do país, a manifestação do povo, vestido de preto contra os atos de corrupção. Era uma resposta a Collor, que havia convocado a população para sair às ruas de verde e amarelo, em seu apoio. Alexandre Garcia fez uma crônica sobre a situação política do país.

Dias depois, jovens estudantes de todo o país, pintando o rosto de verde e amarelo, também ganharam as ruas em protesto. No dia 21 de agosto, cerca de 100 mil “caras-pintadas” se reuniram numa passeata na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio. Marcelo Canellas fazia parte da equipe que cobriu a manifestação dos estudantes. A imagem de uma jovem pintando o rosto do repórter e, em seguida, a lente da câmera tornou-se um ícone desse período.

Pedido de impeachment

No dia 1º de setembro, o Jornal Hoje, Jornal Nacional e o Jornal da Globo exibiram a solenidade de entrega do pedido de impeachment, assinado pelo presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Barbosa Lima Sobrinho, e pelo presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcelo Lavenère, no Salão Verde da Câmara dos Deputados.

No dia seguinte, os três principais telejornais da emissora mostraram a leitura do pedido de impeachment e trechos dos discursos dos parlamentares José Genoino, Gastone Righi, Nelson Jobim e do presidente da Câmera Federal, Ibsen Pinheiro.

Na sexta-feira, dia 25, os telejornais nacionais da Globo acompanharam as deputadas Irma Passoni e Sandra Starling lendo, na Câmara, o parecer do relator Nelson Jobim pedindo a abertura de processo contra o presidente.

No domingo, o Fantástico exibiu um perfil do presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Lindberg Farias, líder da campanha dos “caras-pintadas”, e uma matéria com o vice-presidente Itamar Franco, que aguardava o provável impeachment de Fernando Collor para assumir a presidência.

Aprovação do impeachment na Câmara

Dia 29 de setembro de 1992, a Globo transmitiu ao vivo a sessão da Câmara dos Deputados, de pouco mais de duas horas, que aprovou o pedido de impeachment do presidente. Dos 503 deputados, 480 estavam presentes. Eles foram chamados um a um, por ordem alfabética, para dar seu voto ao microfone. O momento mais emocionante foi quando o deputado Paulo Romano (PFL-MG) disse o “sim” decisivo. O parecer foi aprovado com 441 votos, muito além das previsões da própria oposição, cujos cálculos apontavam 380 votos favoráveis.

Jornal Nacional desse dia foi inteiramente dedicado à votação na Câmara. Cid Moreira e Sérgio Chapelin abriram o Jornal Nacional, chamando a atenção para a importância do fato: “Uma terça-feira histórica para o Brasil. Pela primeira vez, a Câmara autoriza o Senado a julgar o presidente da República num processo de impeachment”. Em seguida, Carlos Nascimento apresentou o telejornal, diretamente de Brasília, onde estavam os repórteres Alexandre Garcia, Renato Machado, Pedro Bial,Delis Ortiz e Heraldo Pereira.

No dia seguinte, Ibsen Pinheiro, presidente da Câmara dos Deputados, entregou, pessoalmente, o parecer contendo as denúncias contra Fernando Collor a Mauro Benevides, presidente do Senado Federal. Em menos de duas horas, o documento foi aprovado. À tarde, o pedido de impeachment já estava no plenário do Senado, que se tornou a partir de então o tribunal de julgamento do presidente por crime de responsabilidade.

Presidente afastado

Fernando Collor, como determinava a lei, foi afastado do cargo compulsoriamente por 180 dias e substituído, em 2 de outubro, pelo vice-presidente Itamar Franco. Carlos Nascimento fez a narração, ao vivo, do seu afastamento e cobriu, junto com Renato Machado, a posse do novo presidente.

No Fantástico do dia 06 de dezembro, o repórter Alexandre Garcia entrevistou o presidente afastado sobre o processo deimpeachment no Senado. Fernando Collor negou a possibilidade de renúncia ou possíveis planos de deixar o país.

Em 29 de dezembro, Jornal Hoje, o Jornal Nacional e o Jornal da Globo exibiram o último julgamento de Collor por crime de responsabilidade. Antes do final, diante da tendência dos senadores de afastá-lo definitivamente do cargo e suspender seus direitos políticos, Fernando Collor decidiu renunciar. Os jornais da emissora entrevistaram os políticos Roberto Freire, Ciro Gomes, Albano Franco e Lula sobre a renúncia e sobre o governo Itamar Franco.

Mesmo com a renúncia, o julgamento prosseguiu e o presidente afastado foi condenado, por 76 votos a três, à inelegibilidade e à inabilitação por oito anos para o exercício de cargos públicos.

FONTES

Fantástico (16/08/1992); Jornal Nacional (25/05/1992 e 29/09/1992); Jornal Nacional – a notícia faz história. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004. Sites: http://www.pt.wikipedia.org, acessado em 18/07/2012; http://www.youtube.com acessado em 18/07/2012.


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