Reviva: De volta aos anos 80: as novelas das sete que marcaram a década

Célia Biar e Marília Pêra em “Brega e Chique”

Houve um tempo em que as novelas do horário das sete da Globo reinaram absolutas na preferência do público. Isso é perceptível tomando como amostra “Cambalacho“, atração do Viva. Que delícia acompanhar essa novela, que remete a uma época em que Silvio de Abreu(o autor) deitava e rolava com suas histórias de chanchada, amparadas pela direção criativa de Jorge Fernando.

Antes de avançar, é preciso analisar o panorama do horário na época, década de 1980. Até o final do anos 70, Cassiano Gabus Mendes havia sedimentado seu estilo de comédias românticas, leves, divertidas e charmosas, “novelas de situação“, tomando emprestado uma caractérística atribuída às “sitcoms” da TV americana. A Globo sentia que era preciso avançar e usar o horário para extrapolar no humor. Tentativas foram feitas com “Feijão Maravilha“, de Bráulio Pedroso (1979) e “Chega Mais“, de Carlos Eduardo Novaes (1980).

Lucélia Santos em “Vereda Tropical”

Silvio de Abreu bem que tentou algo neste sentido com “Pecado Rasgado“, sua estreia na Globo (1978-1979), mas foi podado pelo diretor, Régis Cardoso. Em 1980, Cassiano Gabus Mendes seguia com sua novela “Plumas e Paetês” quando sofreu um infarte que o afastou da produção. Silvio o substituiu eficazmente, aumentando o humor na história e elevando a audiência. Talvez, este tenha sido o primeiro passo efetivo para uma pequena “revolução” no horário.

Em sua trama seguinte, Silvio recebeu uma direção cheia de gás e com a criatividade que ele precisava para levar adiante suas ideias: os então jovens Jorge Fernando e Guel Arraes, com direção geral do experiente Roberto Talma. A partir de uma ideia de Janete Clair, Silvio estreou “Jogo da Vida“, em 1981. A novela começou como uma leve comédia dramática. Mas se você tomar o primeiro capítulo de “Jogo da Vida” e o último, verá que os estilos são completamente diferentes. Silvio foi, a cada capítulo, imprimindo cada vez mais a sua marca, calcada no humor rasgado, pastelão às vezes, com influências nas chanchadas da Atlântida e no cinema de comédia de Hollywood.

Malu Mader e Cecil Thiré em “Top Model”

Em 1982, Cassiano Gabus Mendes subsituiu Silvio no horário com “Elas por Elas“, que se tornou um de seus melhores trabalhos. Nesta, percebe-se que Cassiano investiu mais no humor do que em seus folhetins anteriores. Talvez influenciado pela “nova ordem” que se estabelecia para o horário das sete. Teve a colaboração de um jovem roteirista que cresceria na Globo com um estilo próprio: Carlos Lombardi. E muito do sucesso de “Elas por Elas” se deve à criação inesquecível de Luiz Gustavo como o detetive atrapalhado Mário Fofoca. Cassiano já não era mais o mesmo de suas leves comédias românticas de antes.

Maitê Proença, Paulo Goulart e Glória Menezes em “Jogo da Vida”

Na sequência, como forma de contrabalancear estilos – e até para manter uma certa diversidade de tramas – a Globo estreou “Final Feliz“, de Ivani Ribeiro. Era a prmeira novela da autora na Globo e sua única trama inédita na emissora. Ivani apresentou uma novela mais romântica, leve e ao mesmo tempo divertida, com personagens cativantes. Outro sucesso. Em seguida, 1983, era a vez de Silvio de Abreu de novo. E ele veio bem munido, com Carlos Lombardi como colaborador e Jorge Fernando e Guel Arraes na direção, à frente da revolucionária “Guerra dos Sexos“. Pronto, não havia mais volta. Acertou-se em cheio no humor que o horário buscava.

Eva Wilma e Cristina Pereira em “Elas por Elas”

Guerra dos Sexos” foi tão inovadora à sua época que acabou por influenciar e gerar toda uma linha de programas de humor deste tipo nos anos 80, como a série “Armação Ilimitada” e o humorístico “TV Pirata“, dirigidas por quais Guel Arraes. Misturando drama e folhetim com humor nonsense e chanchada, e tendo uma temática muito pertinente para a época, “Guerra dos Sexos” marcou a televisão de tal forma que muito do que se viu depois, parecia nela referenciada.

Em 1984, no lugar da comédia rasgada, uma comédia de costumes: “Transas e Caretas“, de Lauro César Muniz, sem a mesma repercussão que a trama anterior. Depois, foi a vez deCarlos Lombardi apresentar uma história sua: “Vereda Tropical“, com supervisão de texto deSilvio de Abreu, direção de Guel e Jorginho. Apesar de assinada por Lombardi, percebe-se em “Vereda Tropical” toda a influência de Silvio e dos diretores, seja pelas ambientações, pelos tipos humanos ou pela abordagem do humor.

Cássio Gabus Mendes, Malu Mader e Betty Gofman em “Ti-ti-ti”

Lauro César Muniz voltou ao horário da sete, dessa vez supervisionando o texto de Daniel Más em “Um Sonho a Mais“, uma história que prometia, mas que acabou confundindo – apesar de ter mantido a audiência em alta. Cassiano retornou em seguida, com a criativa “Ti-ti-ti“, outro de seus grandes sucessos. A disputa entre os costureiros Victor Valentim e Jacques Leclair (Luiz Gustavo e Reginaldo Faria) deu muito pano pra manga – com perdão do trocadilho.

Já era o ano de 1986. Foi quando chegou a vez de “Cambalacho“, a mais chanchada das novelas de Silvio de Abreu. O resultado conferimos diariamente no Viva, logo, dispensa apresentações. Ivani voltava às sete horas depois de duas passagens de sucesso pelo horário das seis (“Amor com Amor se Paga” e “A Gata Comeu“). Agora, vinha com uma trama inocente e interiorana: “Hipertensão“. Um erro estratégico! Essa novela seria mais apropriada ao horário das seis: boa, mas destoava do estilo que Cassiano, Silvio, Jorginho e Lombardi haviam sedimentado.

Isabela Garcia e Beatriz Bertu em “Bebê a Bordo”

Em 1987, foi a vez de Cassiano voltar com uma nova história: “Brega e Chique“, dirigida porJorge Fernando, considerada a melhor novela daquele ano, capitaneada, principalmente, pelo talento de Marília Pêra, que viveu uma das protagonistas, Rafaela Alvaray. Na sequência, “Sassaricando“, de Silvio de Abreu, pela primeira vez sem Jorginho. Talvez por isso, essa novela tenha seguido uma linha diferente. Ainda com força na comédia e em tipos engraçados (como Tancinha/Cláudia Raia e Fedora/Cristina Pereira), mas também com uma trama policial, mais elaborada.

Carlos Lombardi, até então numa geladeira que já durava quase quatro anos, retornou com uma novidade: “Bebê a Bordo“, em que ele mostrou amadurecimento no texto, demarcando um estilo próprio e original que passou a caracterizá-lo: dramas familiares recheados de comédia num texto sarcástico e rápido, e um apelo quase erótico, ora refletido no texto, ora nos tipos humanos, vestidos ou pouco vestidos.

Elza Gomes em “Final Feliz”

O ano de 1989 fechou a década com dois grandes sucessos que entraram para a história: “Que Rei Sou Eu?“, novela de capa-e-espada de Cassiano Gabus Mendes, êxito incontestável com grandes momentos de Antônio Abujamra (o bruxo Ravengar) e Tereza Rachel (a Rainha Valentine). E a novela jovem “Top Model“, escrita por Antônio Calmon eWalther Negrão, com Malu Mader como a protagonista Duda, e o paizão Gaspar (Nuno Leal Maia) e toda uma renca de filhos.

Pena que esse cenário, de novelas marcantes e criativas exibidas na sequência, pouco a pouco foi dimuindo. Com a chegada dos anos 90, o quarteto Cassiano-Silvio-Jorginho-Lombardi se dissolveu em parte, com a morte de Cassiano (em 1993) e com trabalhos em outros horários. A década de 80 ficou para trás e a maioria das histórias aqui citadas viraram referência pop para as gerações que se seguiram.

Fotos: CEDOC/TV GLobo.

Carlos Augusto Strazzer, John Herbert e Laerte Morrone em “Que Rei Sou Eu?”

Fonte: Canal Viva/Nilson Xavier 

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