Globo 50 Anos: Censura na TV Globo

GOLPE E DITADURA

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Na tarde do dia 31 de março de 1964, tropas do Exército tomaram as ruas das principais cidades do país. O clima era tenso. As Forças Armadas, com apoio dos partidos políticos de oposição ao governo e de parcelas da população, queriam a deposição do presidente da República. Na madrugada, João Goulart fugiu e, nos dias que se seguiram, uma Junta Militar assumiu o poder. Dali para a instauração da ditadura militar no Brasil foi uma questão de tempo. Mandatos de parlamentares foram cassados, a censura à imprensa e aos espetáculos de “diversões públicas”, legalizada. Em 1965, as eleições federais foram suspensas, vários políticos foram cassados e, três anos depois, o Ato Institucional n° 5 dava poderes excepcionais ao presidente, dissolvia o Congresso e eliminava o habeas corpus por crimes políticos. Foi o fim da liberdade de expressão.

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Jornais, revistas, peças de teatro e a televisão sofreram muito com a mordaça imposta pelo regime.

CRONOLOGIA DA CENSURA

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NA TELEVISÃO

A atuação da censura no Brasil durante o período da ditadura militar foi constante e contínua. Mesmo depois, até 1988, sua ação se fez presente nas mais variadas formas. Muitas leis, decretos e atos institucionais tentaram lhe dar sustentação até a promulgação da nova constituição.

O Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP), submetido ao Ministério da Justiça, era o responsável por exercer a censura em peças de teatro, livros, filmes, letras de músicas e espetáculos de televisão. O órgão começou a funcionar de forma difusa nos estados da federação em 1964, mas foi regulamentado e institucionalizado apenas em 1970. Sua ação se apoiava em um decreto lei baixado em 1946, anterior à implantação da TV no Brasil.

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Os critérios para aplicação da censura eram variados e mudaram muito. Mas algumas premissas se mantiveram ao longo dos anos. Manifestações culturais e intelectuais que atentassem à segurança nacional ou desrespeitassem o regime vigente, assim como o estímulo à luta de classes, incitamento à violência, preconceito étnico ou religioso, desrespeito à moral e aos bons costumes integravam a lista dos assuntos proibidos.

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Sempre que identificavam algum tema relacionado a esses assuntos, os censores encrencavam. Com argumentos em punho, exigiam cortes no material ou proibiam na íntegra alguns programas.

Em 1975, após reformulação legal da censura, um filme ou uma peça de teatro levavam cinco dias para serem julgados. Espetáculos de TV, um pouco mais. Uma novela, por exemplo, enfrentava um longo processo antes de ir ao ar.

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Primeiro, era analisada a sinopse do programa, junto com a descrição dos personagens principais. Depois, a censura exigia o envio dos dez primeiros capítulos para apreciação. Após serem gravados, eles eram assistidos por três técnicos que, com base em “critérios fundamentais de julgamento” aprendidos em um curso na Academia Nacional de Polícia, sugeririam mudanças para que o material se adequasse à faixa de horário.

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Seguir o protocolo, no entanto, não era garantia de que um programa fosse exibido até o fim. A qualquer momento, a censura podia impedir um espetáculo de continuar no ar sob ameaça de cassar a concessão da emissora. Mesmo com todas as dificuldades, escritores, diretores e produtores de TV conseguiram inúmeras vezes negociar e driblar a censura.

NA TV GLOBO

Ao som da música Moon River, a imagem de um barco navegando rio abaixo era exibida pelo novato Canal 4, que realizava testes na noite de 31 de março de 1965, antes de sua estreia oficial, no mês seguinte. O que os técnicos e engenheiros envolvidos na criação da TV Globo não sabiam era que, naquela mesma hora, um discurso do presidente Castelo Branco em comemoração ao “Primeiro Aniversário da Revolução” era veiculado por todas as outras emissoras de TV do Brasil. Parecia deboche, e os militares ficaram irritados. O governo passou a acompanhar a nova emissora bem de perto.

Conforme a TV Globo crescia e conquistava espaço na casa dos brasileiros, a ditadura militar baixava cada vez mais atos e decretos para tolher a liberdade de expressão. A censura atuava na forma de telefonemas, comunicações oficiais e memorandos. E a Globo, assim como as outras emissoras de televisão, era obrigada a exibir antes de cada programa o certificado de liberação, no qual era datilografado o nome da atração e do diretor, o título original e ano da produção, assim como a faixa de idade para qual a atração estava liberada.

Programas de auditório, telenovelas, humorísticos e mesmo telejornais foram fiscalizados e cortados durante o período. Alguns foram até proibidos de ir ao ar, mesmo depois de ter episódios gravados e previamente aprovados pelo governo, como as novelasRoque Santeiro (1975) e Despedida de Casado (1977).

A preocupação do Departamento de Censura de Diversões Públicas não era apenas com mensagens de cunho político. Nos anos 1980, quando o contexto já era de abertura e enfraquecimento do autoritarismo, foi encampada uma campanha em defesa da moral e dos bons costumes, que desencadeou um aumento na censura à televisão. A TV Globo, como líder de audiência, permaneceu no centro das polêmicas: os roteiros de novelas, por exemplo, recebiam em média 30 indicações de corte por parte dos censores. Se houvesse muitas irregularidades aos olhos do governo, a censura ameaçava cassar a concessão da emissora.

Os problemas foram muitos e a Globo precisou manter funcionários em Brasília para negociar diretamente com a Censura Federal. Mesmo com a mediação, era frequente o apelo de diretores, produtores, atores e outros artistas às autoridades federais, em prol da liberação de algumas atrações.

DOCUMENTOS:

Situação da Censura Federal em relação às TVS

Em 1974, funcionário da TV Globo relata visita à Censura Federal, em protesto contra a retaliação à TV Globo.

Documentos telegráficos recebidos por Roberto Marinho, em 1982, sobre posicionamento do governo acerca da censura.

Ofício assinado pelo chefe do DCDP e enviado à Rede Globo com recomendações do ministro da justiça, acerca da censura às telenovelas, em 1975.

Normas da Censura de 1969:

Planejamento de pesquisa social sobre critérios de censura – 1981:

MEU PEDACINHO DE CHÃO

Apesar de se tratar de uma segunda versão, a novela Meu pedacinho de chão, que estreia no dia 7 de abril, não é um remake. Desta vez, o autor Benedito Ruy Barbosa teve a chance de escrever a trama que sempre sonhou. Quando a primeira edição foi exibida, a televisão estava sob vigilância da Censura Federal e diversos temas não puderam ser abordados.  O autor revela hoje que esta “é a oportunidade de eu dizer as coisas que a censura não deixava. Pude falar de política, saúde e de educação”.

A primeira versão foi gravada em 1971, e é considerada a primeira novela educativa da Globo. A história se passava na zona rural, onde o coronel Epaminondas (Castro Gonzaga), um sujeito autoritário, travou uma batalha feroz contra Pedro Galvão (Xandó Batista), que comprou parte de suas terras para construir uma igreja e uma escola. Neste cenário bucólico, em meio a um embate moral entre o bem e o mal, há ensinamentos sobre saúde e educação. A novela era exibida também pela TV Cultura de São Paulo, mas isso não livrou o roteiro de passar pelo crivo da censura prévia.

Benedito Ruy Barbosa diz que um dos casos que mais o marcou foi a necessidade de cortar uma cena em que um personagem tocava violão e cantava o hino nacional para os caboclos da região. Assim como outra que, dentro da escolinha, um aluno cantava o hino em frente à bandeira nacional, estendida sobre uma mesa. A justificativa da censura era que tanto o hino, quanto a bandeira só podiam aparecer apenas em ocasiões especiais.

É por isso que a nova novela volta, agora, de uma forma completamente diferente, sob a direção de Luiz Fernando Carvalho. A opção do autor foi manter apenas “o nome dos personagens e o da localidade”, conservando também a “brasilidade” que permeia a construção da trama.

DANCIN’ DAYS

Após passar 11 anos na prisão por um crime que cometeu por acidente, Julia (Sonia Braga) tenta reconquistar a filha Marisa (Gloria Pires), que cresceu aos cuidados da tia, Yolanda (Joana Fomm). Distantes e rivais, as irmãs travam uma batalha pelo amor da adolescente, uma jovem mimada e rebelde. Ao mesmo tempo, o marido de Yolanda inaugura no Rio de Janeiro uma discoteca, que passa a agitar as noites da cidade, entre luzes coloridas, meias lurex brilhosas e saltos finíssimos. Tão logo estreou, Dancin’ Days se tornou um sucesso de audiência, em 1978. Durante a exibição da novela que inaugura o estilo de escrever de Gilberto Braga, a Censura Federal exigiu cortes e mudanças em roteiros e episódios gravados.

Em entrevista ao Memória Globo, Gilberto Braga comentou que gostaria de ter feito “uma novela mais forte do que pude fazer na época”. Os tempos eram difíceis, e os problemas com a censura começaram logo no primeiro contato entre a Globo e o governo. Quando a emissora enviou à Brasília a sinopse e descrição dos personagens da nova novela das 20h, chamada provisoriamente de A prisioneira, a censura emitiu seu parecer: só poderia passar depois das 22h. O Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP) não achou adequado que a trama abordasse “a desagregação familiar gerada pela separação de casais” e “a situação do amor livre”, já que a protagonista era mãe solteira. A Globo fez alterações, e Dancin’ Days (já com o título definitivo) estava pronta para ser gravada.

Mas, como era comum, o certificado de aprovação do governo não significava que a novela estava livre de cortes. O DCDP censurou ao menos 25 capítulos da trama. A maior preocupação era o linguajar dos personagens e as relações familiares e amorosas.

Documentos:

Palavras e palavrões

Gilberto Braga precisou inventar e reinventar maneiras de dizer que os personagens pretendiam ir ao banheiro. Em uma cena em que Julia e Hélio (Reginaldo Faria) discutem, o comerciante se irrita: “Vou urinar. Tenho direito?”. O DCDP considerou este diálogo uma “grosseria” e “inadequada ao veículo”. A frase precisou sair. Em outro capítulo, a dona de casa Áurea reclama com uma amiga que sua residência estava em obras e que, por isso, não poderia convidar alguém para jantar. Ela brinca: “E se ele quisesse fazer pipi? O banheiro estava em condições?”. Mas não teve jeito: a novamente a caneta vermelha da Censura indicou “corte”. A mesma situação ocorreu dias depois: a expressão “pipizinho” apareceu em uma das frases de Julia e foi considerada pelo DCDP de “mau alvitre”.

Em Dancin Days, o público acompanhou o desenrolar do romance de Julia e Cacá (Antonio Fagundes), que se apaixonam após a moça deixar o presídio. No capítulo 38, ela começava a se interessar por ele. Em uma conversa com Vera (Lídia Brondi), quer saber mais sobre o galã e, quando descobre que ele é diplomata, torce o nariz. “Diplomata deve ser besta paca”, comenta. A amiga responde: “Cacá não é besta, só é caladão”.  A censura achou ofensiva a expressão “besta” e exigiu que este diálogo fosse cortado. O DCDP, como se vê, não aceitava palavrões, nem de leve. O xingamento “idiota” foi eliminado de alguns episódios. E o mesmo aconteceu com a palavra “bumbum”, considerada um eufemismo para nádegas, parte do corpo a que os textos televisivos não poderiam se referir.

Documentos:

Capital Federal

Dancin’ Days se preocupava em retratar alguns dilemas da classe média urbana brasileira e se passava, na maior parte do tempo, no Rio de Janeiro. Por vezes, havia cenas com personagens em Brasília. Mas ninguém podia imaginar que a forma como a capital do país era retratada iria incomodar a Censura. Foi exatamente o que aconteceu, no entanto. Em um parecer emitido em maio de 1978, o DCDP pediu que a produção da Globo prestasse atenção nas “passagens relacionadas com as condições de vida em Brasília, excluindo as referências desairosas ao comportamento dos diferentes grupos sociais que integram a comunidade local”. Em outro documento, a Censura pediu o corte de cenas do capítulo 8. O motivo era o mesmo: “referência desaprimorosa” à capital da República.

Documentos:

Casamento e divórcio

Adultério, sexo antes do casamento e divórcio eram temas muito discutidos nos anos 1970. A lei do divórcio no Brasil só foi aprovada no final de 1977, após muita discussão. A Censura Federal, na intenção de resguardar a “moral e os bons costumes”, se esforçava ao máximo para empurrar a polêmica para baixo do tapete. Em Dancin’ Days não foi diferente.

A relação conturbada entre Yolanda (Joana Fomm) e Horácio (José Lewgoy) foi alvo de muitos cortes. No capítulo 23, o DCDP achou inadequada a forma como a personagem tratava o marido – de quem queria se separar. Durante uma discussão sobre a guarda da sobrinha, por exemplo, Yolanda se irrita, joga o travesseiro na cara de Horácio e diz que o marido vai passar a noite no sofá. Antes de bater a porta do quarto, ela resmunga para si mesma: “Velho asqueroso!”. A cena foi cortada.

Em outra situação, Yolanda reclama da vida com a amiga Bibi, que insiste em afirmar que Horácio dá uma vida muito boa para asocialite. Mas a vilã não quer saber desse papo e comenta que está “com nojo” do marido, que não aguenta mais e, ainda, que deseja largá-lo para refazer a vida. Na continuação da cena, Yolanda avista um lenço suado usado por Horácio. Com a ponta dos dedos, pega o pano sujo e joga fora, sibilando entre os dentes: “Velho!”.  Nada disso passou pelo crivo da censura.

Documentos:


Pensamentos libidinosos

A Censura implicou com vários casais da novela. No capítulo 113, a ciumenta Áurea (Yara Amaral) se confessa com o padre. Casada e mãe de família, ela pede perdão à Igreja: pecou contra a castidade, em pensamento, naquela manhã. A dona de casa diz que viu a aliança na mão esquerda de um sujeito que encontrou na rua, mas teve “atração por aquele homem”. Mais tarde, no banho, outros devaneios “horríveis” invadiram sua cabeça, causando vergonha. A beata diz ao padre que está “arrependida, à espera da penitência e absolvição”. Mas a Censura não teve misericórdia. O DCDP passou a caneta vermelha e cortou toda a fala em que revela os pensamentos libidinosos da personagem.

Fique comigo esta noite

O romance entre Julia e Cacá encontrou vários obstáculos – dentro e fora da trama.  Capítulos e mais capítulos passaram até que, enfim, pudessem ser felizes para sempre: durante boa parte da novela, eles eram noivos de outras pessoas. Mas os entraves mais difíceis foram estabelecidos em Brasília. No auge do amor, Julia entrega a chave de seu apartamento a Cacá e pede que volte “mais tarde” para visitá-la. Mesmo sendo muito importante para o desenvolvimento da novela, a cena foi censurada várias vezes.Gilberto Braga tentou incluí-la em outros momentos, de outras maneiras, mas a Censura nunca permitiu. Há um episódio em que Cacá pede a Julia que fique com ele “pelo menos essa noite”. Esta passagem também foi eliminada.

NOVELAS QUE SOFRERAM COM A CENSURA

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FONTE, FOTOS E TEXTO: MEMÓRIA GLOBO e UOL


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