Super Marília

Super Marília Pêra 2

O ano era 1987 e eu assistia à novela “Brega & Chique” magnetizado pela presença exuberante e histriônica de Rafaela Alvaray, personagem que roubou praticamente todas as cenas deste clássico das sete de Cassiano Gabus Mendes.

No ano seguinte, a primorosa adaptação televisiva de “O Primo Basílio”, de Eça de Queirós, me fez crer que atuar significava muito mais do que simplesmente representar. Algo de extraordinário e epifânico acontecia ali, quando Marília incorporava Juliana, a “criada de dentro” que se rebela contra a patroa adúltera. Não foi à toa que o nome da atriz surgia magistralmente em primeiro plano na abertura da minissérie, desbancando o trio central Luísa-Basílio-Jorge.

Foi neste trabalho que Marília Pêra pôde também explorar a sua verve cantora, algo que a acompanhou desde muito cedo, graças à influência e ao estímulo do pai, também ator e um fã de música erudita. Toda a aspereza de Juliana era de certa forma quebrada com aquele cinismo lírico, nas passagens em que cantarolava “A Carta Adorada”, um trecho da popular opereta “A Grande Duquesa de Gerolstein”, de Jacques Offenbach, que ganhou uma versão em português do autor Gilberto Braga (um dos responsáveis pela adaptação de “O Primo Basílio” para a TV).

Na trilha sonora original desta minissérie, Marília gravou uma versão completa para “A Carta Adorada”, que é um dos principais destaques de um disco muito bem concebido pelo maestro e arranjador Roger Henri.

No entanto, a relação de Marília Pêra com as trilhas sonoras para a teledramaturgia brasileira é um caso antigo, e remonta a 1971, ano em que a Som Livre colocava no mercado o disco nacional da novela “O Cafona”, a primeira trilha produzida pela então recém-inaugurada gravadora das Organizações Globo.

A canção “Shirley Sexy” foi uma ideia do produtor João Araújo, que convidou Marília para interpretar o tema de sua própria personagem na trama de Bráulio Pedroso, exibida às 22 horas. Composta pela dupla Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, este samba-rock resumiu muito bem o espírito de sua personagem, a secretária Shirley, meio atrapalhada e apaixonada pelo patrão cafona que enriquece (vivido por Francisco Cuoco): “Venho pré-fabricada / e já nem tenho opinião / Sei que sou desligada / mas sou a dona / do meu patrão“.

“Shirley Sexy” conquistou as paradas na época, o que rendeu à sua intérprete uma participação no programa do Chacrinha e mais um convite para gravar um tema de novela. Desta vez, sem atuar, Marília emprestou sua voz para a trilha sonora nacional da comédia romântica “Minha Doce Namorada”, exibida às 19 horas, também em 1971.

A canção “Sex Appeal”, da mesma dupla de compostitores de “Shirley Sexy”, descreve com um sarcasmo pueril o universo das modelos e manequins que passa a fazer parte do cotidiano de Patrícia, personagem brejeira vivida por Regina Duarte nesta trama de Vicente Sesso(“Todas causando alarme / com muito charme e sex appeal / vão ser as elegantes / mais perfumadas do meu Brasil”).

E pra fechar aquele ano super produtivo, Marília Pêra ainda estamparia a capa da trilha sonora nacional da novela “Bandeira 2”, um clássico do realismo social de Dias Gomes, no qual interpretou Noeli, uma motorista de táxi que nas horas vagas defendia a escola de sambaImperatriz Leopoldinense como porta-bandeira. Obviamente que um dos temas mais populares desta trilha foi gravado por ela. O baião fofinho “Bandeira 2”, outra colaboração com a dupla Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, serviu para descrever com muita felicidade a sua participação na trama (“Sou chofer de praça, muito inteligente / De qualquer encrenca saio muito bem / Sou desinibida e inteligente / Dentro do meu carro sei que sou alguém“).

Após estas primeiras investidas, Marília gravaria, enfim, um álbum todinho seu, com canções que fizeram parte do espetáculo “Feiticeira”, estrelado por ela e escrito por Fauzi Arap e pelo produtor e jornalista Nelson Motta (com quem foi casada por sete anos). Lançado em 1975, o disco foi um fracasso de crítica e público, mas hoje carrega uma aura “cult“, principalmente por trazer as participações dos então desconhecidos músicos Lobão, Ritchie e Lulu Santos (que formavam a banda Vímana na época) e por incluir as primeiras composições do também novato Eduardo Dusek, como “Alô Alô Brasil”, disponível no vídeo abaixo. Esta gravação acabou sendo aproveitada para ser o tema da inesquecível Kiki Blanche, personagem de Eva Todor na novela das sete “Locomotivas”, de Cassiano Gabus Mendes (exibida em 1977). Voltaria em 2001 (numa gravação repaginada e com a voz do seu autor) para ser o tema de abertura da novela “As Filhas da Mãe”, de Silvio de Abreu, exibida às 19 horas.

E em 1989, um samba de Henrique Beltrão, imortalizado na voz de Sylvia Telles, ganhou uma releitura deliciosa da nossa diva. “Amendoim Torradinho” também recebeu um arranjoblues bem apimentado e marcou a trilha sonora nacional da novela das seis “O Sexo dos Anjos”, de Ivani Ribeiro.

https://www.youtube.com/watchv=H9JWHEyWmAY

É isso! Fica aqui registrada a homenagem deste blog à versatilidade e ao talento de Marília Pêra, uma super artista que vai deixar saudades!

 

 

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