Globo 50 Anos: Censura na TV Globo

GOLPE E DITADURA

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Na tarde do dia 31 de março de 1964, tropas do Exército tomaram as ruas das principais cidades do país. O clima era tenso. As Forças Armadas, com apoio dos partidos políticos de oposição ao governo e de parcelas da população, queriam a deposição do presidente da República. Na madrugada, João Goulart fugiu e, nos dias que se seguiram, uma Junta Militar assumiu o poder. Dali para a instauração da ditadura militar no Brasil foi uma questão de tempo. Mandatos de parlamentares foram cassados, a censura à imprensa e aos espetáculos de “diversões públicas”, legalizada. Em 1965, as eleições federais foram suspensas, vários políticos foram cassados e, três anos depois, o Ato Institucional n° 5 dava poderes excepcionais ao presidente, dissolvia o Congresso e eliminava o habeas corpus por crimes políticos. Foi o fim da liberdade de expressão.

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Jornais, revistas, peças de teatro e a televisão sofreram muito com a mordaça imposta pelo regime.

CRONOLOGIA DA CENSURA

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NA TELEVISÃO

A atuação da censura no Brasil durante o período da ditadura militar foi constante e contínua. Mesmo depois, até 1988, sua ação se fez presente nas mais variadas formas. Muitas leis, decretos e atos institucionais tentaram lhe dar sustentação até a promulgação da nova constituição.

O Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP), submetido ao Ministério da Justiça, era o responsável por exercer a censura em peças de teatro, livros, filmes, letras de músicas e espetáculos de televisão. O órgão começou a funcionar de forma difusa nos estados da federação em 1964, mas foi regulamentado e institucionalizado apenas em 1970. Sua ação se apoiava em um decreto lei baixado em 1946, anterior à implantação da TV no Brasil.

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Os critérios para aplicação da censura eram variados e mudaram muito. Mas algumas premissas se mantiveram ao longo dos anos. Manifestações culturais e intelectuais que atentassem à segurança nacional ou desrespeitassem o regime vigente, assim como o estímulo à luta de classes, incitamento à violência, preconceito étnico ou religioso, desrespeito à moral e aos bons costumes integravam a lista dos assuntos proibidos.

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Sempre que identificavam algum tema relacionado a esses assuntos, os censores encrencavam. Com argumentos em punho, exigiam cortes no material ou proibiam na íntegra alguns programas.

Em 1975, após reformulação legal da censura, um filme ou uma peça de teatro levavam cinco dias para serem julgados. Espetáculos de TV, um pouco mais. Uma novela, por exemplo, enfrentava um longo processo antes de ir ao ar.

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Primeiro, era analisada a sinopse do programa, junto com a descrição dos personagens principais. Depois, a censura exigia o envio dos dez primeiros capítulos para apreciação. Após serem gravados, eles eram assistidos por três técnicos que, com base em “critérios fundamentais de julgamento” aprendidos em um curso na Academia Nacional de Polícia, sugeririam mudanças para que o material se adequasse à faixa de horário.

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Seguir o protocolo, no entanto, não era garantia de que um programa fosse exibido até o fim. A qualquer momento, a censura podia impedir um espetáculo de continuar no ar sob ameaça de cassar a concessão da emissora. Mesmo com todas as dificuldades, escritores, diretores e produtores de TV conseguiram inúmeras vezes negociar e driblar a censura.

NA TV GLOBO

Ao som da música Moon River, a imagem de um barco navegando rio abaixo era exibida pelo novato Canal 4, que realizava testes na noite de 31 de março de 1965, antes de sua estreia oficial, no mês seguinte. O que os técnicos e engenheiros envolvidos na criação da TV Globo não sabiam era que, naquela mesma hora, um discurso do presidente Castelo Branco em comemoração ao “Primeiro Aniversário da Revolução” era veiculado por todas as outras emissoras de TV do Brasil. Parecia deboche, e os militares ficaram irritados. O governo passou a acompanhar a nova emissora bem de perto.

Conforme a TV Globo crescia e conquistava espaço na casa dos brasileiros, a ditadura militar baixava cada vez mais atos e decretos para tolher a liberdade de expressão. A censura atuava na forma de telefonemas, comunicações oficiais e memorandos. E a Globo, assim como as outras emissoras de televisão, era obrigada a exibir antes de cada programa o certificado de liberação, no qual era datilografado o nome da atração e do diretor, o título original e ano da produção, assim como a faixa de idade para qual a atração estava liberada.

Programas de auditório, telenovelas, humorísticos e mesmo telejornais foram fiscalizados e cortados durante o período. Alguns foram até proibidos de ir ao ar, mesmo depois de ter episódios gravados e previamente aprovados pelo governo, como as novelasRoque Santeiro (1975) e Despedida de Casado (1977).

A preocupação do Departamento de Censura de Diversões Públicas não era apenas com mensagens de cunho político. Nos anos 1980, quando o contexto já era de abertura e enfraquecimento do autoritarismo, foi encampada uma campanha em defesa da moral e dos bons costumes, que desencadeou um aumento na censura à televisão. A TV Globo, como líder de audiência, permaneceu no centro das polêmicas: os roteiros de novelas, por exemplo, recebiam em média 30 indicações de corte por parte dos censores. Se houvesse muitas irregularidades aos olhos do governo, a censura ameaçava cassar a concessão da emissora.

Os problemas foram muitos e a Globo precisou manter funcionários em Brasília para negociar diretamente com a Censura Federal. Mesmo com a mediação, era frequente o apelo de diretores, produtores, atores e outros artistas às autoridades federais, em prol da liberação de algumas atrações.

DOCUMENTOS:

Situação da Censura Federal em relação às TVS

Em 1974, funcionário da TV Globo relata visita à Censura Federal, em protesto contra a retaliação à TV Globo.

Documentos telegráficos recebidos por Roberto Marinho, em 1982, sobre posicionamento do governo acerca da censura.

Ofício assinado pelo chefe do DCDP e enviado à Rede Globo com recomendações do ministro da justiça, acerca da censura às telenovelas, em 1975.

Normas da Censura de 1969:

Planejamento de pesquisa social sobre critérios de censura – 1981:

MEU PEDACINHO DE CHÃO

Apesar de se tratar de uma segunda versão, a novela Meu pedacinho de chão, que estreia no dia 7 de abril, não é um remake. Desta vez, o autor Benedito Ruy Barbosa teve a chance de escrever a trama que sempre sonhou. Quando a primeira edição foi exibida, a televisão estava sob vigilância da Censura Federal e diversos temas não puderam ser abordados.  O autor revela hoje que esta “é a oportunidade de eu dizer as coisas que a censura não deixava. Pude falar de política, saúde e de educação”.

A primeira versão foi gravada em 1971, e é considerada a primeira novela educativa da Globo. A história se passava na zona rural, onde o coronel Epaminondas (Castro Gonzaga), um sujeito autoritário, travou uma batalha feroz contra Pedro Galvão (Xandó Batista), que comprou parte de suas terras para construir uma igreja e uma escola. Neste cenário bucólico, em meio a um embate moral entre o bem e o mal, há ensinamentos sobre saúde e educação. A novela era exibida também pela TV Cultura de São Paulo, mas isso não livrou o roteiro de passar pelo crivo da censura prévia.

Benedito Ruy Barbosa diz que um dos casos que mais o marcou foi a necessidade de cortar uma cena em que um personagem tocava violão e cantava o hino nacional para os caboclos da região. Assim como outra que, dentro da escolinha, um aluno cantava o hino em frente à bandeira nacional, estendida sobre uma mesa. A justificativa da censura era que tanto o hino, quanto a bandeira só podiam aparecer apenas em ocasiões especiais.

É por isso que a nova novela volta, agora, de uma forma completamente diferente, sob a direção de Luiz Fernando Carvalho. A opção do autor foi manter apenas “o nome dos personagens e o da localidade”, conservando também a “brasilidade” que permeia a construção da trama.

DANCIN’ DAYS

Após passar 11 anos na prisão por um crime que cometeu por acidente, Julia (Sonia Braga) tenta reconquistar a filha Marisa (Gloria Pires), que cresceu aos cuidados da tia, Yolanda (Joana Fomm). Distantes e rivais, as irmãs travam uma batalha pelo amor da adolescente, uma jovem mimada e rebelde. Ao mesmo tempo, o marido de Yolanda inaugura no Rio de Janeiro uma discoteca, que passa a agitar as noites da cidade, entre luzes coloridas, meias lurex brilhosas e saltos finíssimos. Tão logo estreou, Dancin’ Days se tornou um sucesso de audiência, em 1978. Durante a exibição da novela que inaugura o estilo de escrever de Gilberto Braga, a Censura Federal exigiu cortes e mudanças em roteiros e episódios gravados.

Em entrevista ao Memória Globo, Gilberto Braga comentou que gostaria de ter feito “uma novela mais forte do que pude fazer na época”. Os tempos eram difíceis, e os problemas com a censura começaram logo no primeiro contato entre a Globo e o governo. Quando a emissora enviou à Brasília a sinopse e descrição dos personagens da nova novela das 20h, chamada provisoriamente de A prisioneira, a censura emitiu seu parecer: só poderia passar depois das 22h. O Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP) não achou adequado que a trama abordasse “a desagregação familiar gerada pela separação de casais” e “a situação do amor livre”, já que a protagonista era mãe solteira. A Globo fez alterações, e Dancin’ Days (já com o título definitivo) estava pronta para ser gravada.

Mas, como era comum, o certificado de aprovação do governo não significava que a novela estava livre de cortes. O DCDP censurou ao menos 25 capítulos da trama. A maior preocupação era o linguajar dos personagens e as relações familiares e amorosas.

Documentos:

Palavras e palavrões

Gilberto Braga precisou inventar e reinventar maneiras de dizer que os personagens pretendiam ir ao banheiro. Em uma cena em que Julia e Hélio (Reginaldo Faria) discutem, o comerciante se irrita: “Vou urinar. Tenho direito?”. O DCDP considerou este diálogo uma “grosseria” e “inadequada ao veículo”. A frase precisou sair. Em outro capítulo, a dona de casa Áurea reclama com uma amiga que sua residência estava em obras e que, por isso, não poderia convidar alguém para jantar. Ela brinca: “E se ele quisesse fazer pipi? O banheiro estava em condições?”. Mas não teve jeito: a novamente a caneta vermelha da Censura indicou “corte”. A mesma situação ocorreu dias depois: a expressão “pipizinho” apareceu em uma das frases de Julia e foi considerada pelo DCDP de “mau alvitre”.

Em Dancin Days, o público acompanhou o desenrolar do romance de Julia e Cacá (Antonio Fagundes), que se apaixonam após a moça deixar o presídio. No capítulo 38, ela começava a se interessar por ele. Em uma conversa com Vera (Lídia Brondi), quer saber mais sobre o galã e, quando descobre que ele é diplomata, torce o nariz. “Diplomata deve ser besta paca”, comenta. A amiga responde: “Cacá não é besta, só é caladão”.  A censura achou ofensiva a expressão “besta” e exigiu que este diálogo fosse cortado. O DCDP, como se vê, não aceitava palavrões, nem de leve. O xingamento “idiota” foi eliminado de alguns episódios. E o mesmo aconteceu com a palavra “bumbum”, considerada um eufemismo para nádegas, parte do corpo a que os textos televisivos não poderiam se referir.

Documentos:

Capital Federal

Dancin’ Days se preocupava em retratar alguns dilemas da classe média urbana brasileira e se passava, na maior parte do tempo, no Rio de Janeiro. Por vezes, havia cenas com personagens em Brasília. Mas ninguém podia imaginar que a forma como a capital do país era retratada iria incomodar a Censura. Foi exatamente o que aconteceu, no entanto. Em um parecer emitido em maio de 1978, o DCDP pediu que a produção da Globo prestasse atenção nas “passagens relacionadas com as condições de vida em Brasília, excluindo as referências desairosas ao comportamento dos diferentes grupos sociais que integram a comunidade local”. Em outro documento, a Censura pediu o corte de cenas do capítulo 8. O motivo era o mesmo: “referência desaprimorosa” à capital da República.

Documentos:

Casamento e divórcio

Adultério, sexo antes do casamento e divórcio eram temas muito discutidos nos anos 1970. A lei do divórcio no Brasil só foi aprovada no final de 1977, após muita discussão. A Censura Federal, na intenção de resguardar a “moral e os bons costumes”, se esforçava ao máximo para empurrar a polêmica para baixo do tapete. Em Dancin’ Days não foi diferente.

A relação conturbada entre Yolanda (Joana Fomm) e Horácio (José Lewgoy) foi alvo de muitos cortes. No capítulo 23, o DCDP achou inadequada a forma como a personagem tratava o marido – de quem queria se separar. Durante uma discussão sobre a guarda da sobrinha, por exemplo, Yolanda se irrita, joga o travesseiro na cara de Horácio e diz que o marido vai passar a noite no sofá. Antes de bater a porta do quarto, ela resmunga para si mesma: “Velho asqueroso!”. A cena foi cortada.

Em outra situação, Yolanda reclama da vida com a amiga Bibi, que insiste em afirmar que Horácio dá uma vida muito boa para asocialite. Mas a vilã não quer saber desse papo e comenta que está “com nojo” do marido, que não aguenta mais e, ainda, que deseja largá-lo para refazer a vida. Na continuação da cena, Yolanda avista um lenço suado usado por Horácio. Com a ponta dos dedos, pega o pano sujo e joga fora, sibilando entre os dentes: “Velho!”.  Nada disso passou pelo crivo da censura.

Documentos:


Pensamentos libidinosos

A Censura implicou com vários casais da novela. No capítulo 113, a ciumenta Áurea (Yara Amaral) se confessa com o padre. Casada e mãe de família, ela pede perdão à Igreja: pecou contra a castidade, em pensamento, naquela manhã. A dona de casa diz que viu a aliança na mão esquerda de um sujeito que encontrou na rua, mas teve “atração por aquele homem”. Mais tarde, no banho, outros devaneios “horríveis” invadiram sua cabeça, causando vergonha. A beata diz ao padre que está “arrependida, à espera da penitência e absolvição”. Mas a Censura não teve misericórdia. O DCDP passou a caneta vermelha e cortou toda a fala em que revela os pensamentos libidinosos da personagem.

Fique comigo esta noite

O romance entre Julia e Cacá encontrou vários obstáculos – dentro e fora da trama.  Capítulos e mais capítulos passaram até que, enfim, pudessem ser felizes para sempre: durante boa parte da novela, eles eram noivos de outras pessoas. Mas os entraves mais difíceis foram estabelecidos em Brasília. No auge do amor, Julia entrega a chave de seu apartamento a Cacá e pede que volte “mais tarde” para visitá-la. Mesmo sendo muito importante para o desenvolvimento da novela, a cena foi censurada várias vezes.Gilberto Braga tentou incluí-la em outros momentos, de outras maneiras, mas a Censura nunca permitiu. Há um episódio em que Cacá pede a Julia que fique com ele “pelo menos essa noite”. Esta passagem também foi eliminada.

NOVELAS QUE SOFRERAM COM A CENSURA

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FONTE, FOTOS E TEXTO: MEMÓRIA GLOBO e UOL


Globo 50 Anos: Frases no Ar

FRASES NO AR

 Em 26 de abril de 1965, foi ao ar a TV Globo. Era apenas um canal de televisão carioca e contava com o talento e empenho de profissionais que vinham de jornais, rádios, teatro e cinema. Em menos de dez anos, a Globo assumiu a liderança e se tornou uma Rede de televisão com emissoras próprias e afiliadas em todo o país. A Rede Globo, unindo informação e entretenimento, tem acompanhado gerações nos últimos 49 anos. Suas novelas, minisséries, seriados, noticiários, transmissões esportivas, programas humorísticos, infantis, de variedades, auditório, musicais e realities fazem parte da vida dos brasileiros.
Frases no ar vai relembrar momentos emocionantes da televisão. São falas marcantes de personagens, comentários de jornalistas durante uma cobertura, bordões e ironias de humoristas, expressões de alegria na comemoração de uma vitória que serão mostrados e ilustrados aqui no site Memória Globo. Recordações de atores, jornalistas, humoristas, apresentadores, figurinistas, cenógrafos, costureiras e tantos profissionais que trabalham para exibir os programas da Globo. Um passeio pela memória  afetiva do telespectador que, ao longo dos anos, tem sido o personagem central de quase meio século de sucesso.

NOVELAS

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JORNALISMO

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Armando Nogueira, diretor de Jornalismo entre 1966-1990, após o lançamento do Jornal Nacional. 
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Pedro Bial, jornalista, durante a cobertura do fim da União Soviética, no Globo Repórter, em 1991.

ESPORTE

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Geraldo José de Almeida, locutor esportivo, em narração de jogos da Copa do México, em 1970

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Galvão Bueno, locutor esportivo, sobre a cena clássica na final da Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994. 

HUMOR

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AUDITÓRIO E VARIEDADES

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Globo 50 Anos – coberturas: Queda do Muro de Berlim

QUEDA DO MURO DE BERLIM

 Um dos maiores símbolos da Guerra Fria, o Muro de Berlim, foi desativado em novembro de 1989. Menos de um ano depois, as duas Alemanhas se tornariam uma única nação.

A HISTÓRIA

Durante a Guerra Fria, o planeta esteve dividido entre duas grandes esferas de influência político-ideológica e militar: o Ocidente, capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e o Leste, socialista, liderado pela União Soviética. Poucos locais do mundo simbolizaram de forma tão concreta essa divisão quanto Berlim. Oficialmente capital das duas Alemanhas (embora o governo ocidental ficasse sediado em Bonn), a própria cidade foi cortada ao meio, fisicamente, por um muro de concreto com 155 km de extensão e 3,6 metros de altura. A construção começou de surpresa em 1961, por iniciativa do governo alemão oriental. A partir daquele momento, a fronteira entre a RFA, ou Alemanha Ocidental, e a RDA, ou Alemanha Oriental, ficou fechada, e quem tentasse cruzar de um lado para outro poderia ser morto – o que, de fato, aconteceu com pelo menos 100 pessoas.

A partir de meados dos anos 1980, com as políticas reformistas do dirigente soviético Mikhail Gorbatchev (a Perestroika, na economia, e a Glasnost, na política), a tensão entre as duas Alemanhas começou a diminuir e outros países do Leste Europeu acompanharam as mudanças. Em setembro de 1989, depois que o governo da Hungria abriu as fronteiras com a Áustria, milhares de cidadãos da Alemanha Oriental começaram a sair do país, atravessando a antiga Tchecoslováquia, chegando à Hungria e, em seguida, ao território austríaco. Dali, eles tinham livre acesso ao mundo ocidental. O governo alemão oriental, que até então tinha se mantido imune às tendências de reforma dos países vizinhos, teve que ceder: em 9 de novembro, vencido pelas manifestações populares e pela onda de emigração em massa, abriu os postos de fronteira com a Alemanha Ocidental.

EQUIPE E ESTRUTURA

Silio Boccanera, então chefe do escritório da Rede Globo em Londres, e o cinegrafista Paulo Pimentel viajaram para Berlim em 10 de novembro. “Naquele dia, a movimentação começou cedo em Berlim. Nós saímos de Londres e não fomos nem para o hotel. O Muro era imenso, mas havia alguns pontos-chave, e nós fomos do aeroporto direto para o Portão de Brandemburgo”, lembra Silio Boccanera.

O correspondente Pedro Bial, que na época da queda do Muro de Berlim estava no Brasil ajudando na cobertura das eleições presidenciais, cobriu a reunificação da Alemanha, em outubro de 1990.

DESTAQUES

A queda do Muro

Um dia após a abertura de todas as fronteiras, soldados da Alemanha Oriental começaram a derrubar uma parte do Muro. Guindastes arrancaram pesados blocos de concreto, e seus pedaços foram distribuídos como souvenir. Os alemães de ambos os lados da cidade subiram e dançaram em cima daquele que havia sido, nas décadas anteriores, o grande divisor simbólico do mundo. O repórter Silio Boccanera e o cinegrafista Paulo Pimentel estavam lá e registraram as comemorações junto ao Portão de Brandemburgo. A reportagem da dupla foi ao ar no Jornal Nacional de 10 de novembro.

“Era um clima de festa. As pessoas estavam comemorando, subindo, batendo com picareta em cima do Muro e havia até batucada. Foi o Paulo Pimentel que insistiu comigo: ‘Sobe lá no Muro!’ O Muro era alto, as pessoas precisaram me ajudar a subir. E eu subi e o Paulo ficou mais à distância, com o microfone sem fio e a gente conversava. Eu falava para ele, ele fazia sinais e nós estávamos gravando as pessoas ali, derrubando o Muro. ‘Derrubando’ em termos, porque era muito rígido, as pessoas martelavam e não acontecia nada. O Muro, para ser derrubado mesmo, precisava de guindaste, o que, na virada da madrugada, eles usaram. Mas o clima todo ali era de euforia, não pelo Muro em si, mas por tudo o que ele representava. Naquele momento, nós sentíamos que uma mudança histórica estava acontecendo na nossa frente, não havia a menor dúvida. Há uma certa tendência, um certo lugar-comum, clichê, que é dizer: ‘Esse é um momento histórico.’ Mas tem horas que é indiscutível: o momento é histórico. E nós sabíamos que aquele momento certamente era”, conta Silio Boccanera.

No dia seguinte, o Jornal Nacional mostrou as mudanças na vida dos moradores de Berlim. Silio Boccanera acompanhou o movimento na fronteira, que havia ficado fechada durante quase 30 anos. Famílias inteiras estavam atravessando de carro e a pé, usando vários pontos do Muro. No lado ocidental, um supermercado montou um posto de distribuição de brindes aos visitantes, com chocolates, biscoitos e doces. Além disso, todo alemão que chegava da parte comunista podia receber, nos bancos do lado ocidental, a quantia de 100 marcos. Era um presente do governo de Bonn.

No domingo, 12 de novembro, o Fantástico exibiu uma matéria especial de Silio Boccanera, noticiando a determinação do governo alemão de abrir mais oito passagens no Muro, uma delas no coração da cidade. De Berlim, o repórter destacou “o gesto de reconciliação” dos prefeitos dos lados ocidental e oriental da cidade, que haviam se encontrado “a meio caminho”.

A reunificação

Em 2 de outubro de 1990, Pedro Bial entrou ao vivo no Jornal Nacional, em frente ao Portão de Brandemburgo, para noticiar a reunificação da Alemanha. Em Berlim era meia-noite e meia e, no Brasil, oito e meia da noite, quando anunciou: “Há exatamente meia hora a Alemanha é uma só nação.”

No dia seguinte, o presidente Richard Von Weizsäcker e o chanceler Helmut Kohl mandaram uma mensagem a todos os governos do mundo, em que assumiram a responsabilidade pelos crimes nazistas e prometeram trabalhar pela paz mundial e pela unidade europeia. Nas ruas de Berlim, a equipe da TV Globo mostrou que a festa da reunificação continuava.

Passada a euforia inicial, surgiram muitos problemas no processo de integração das partes oriental e ocidental da Alemanha, com suas realidades tão opostas. Para o Leste, a transição para a economia de mercado levou ao desemprego e à inflação. No lado ocidental, o aumento dos impostos, promovido pelo primeiro-ministro Helmut Kohl para cobrir os gastos decorrentes da reunificação, provocou ondas de protestos. Em maio de 1992, o país parou na maior greve de funcionários públicos desde a Segunda Guerra. No rastro desse movimento, diversas categorias profissionais começaram também a exigir aumentos salariais.

Sete anos depois

Sete anos depois da reunificação, em novembro de 1996, o Jornal Nacional apresentou uma reportagem de William Waack que mostrava que o país continuava dividido, como se os 150 quilômetros de concreto do Muro não tivessem sido derrubados.

William Waack foi ao encontro de uma família alemã oriental mostrada numa reportagem de Silio Boccanera exibida em 1989. A família Kuling ainda morava no lado oriental. Sua casa, antes esburacada, agora estava sendo reformada pelo governo. Mas, apesar dos enormes investimentos que vinham sendo feitos no lado “oriental” pelo “ocidental”, ainda havia uma profunda divisão de mentalidade entre as duas regiões. Como, no entanto, mostrar essa clivagem se as diferenças mais óbvias, como as de roupa e de consumo, não mais existiam? Esse, segundo Waack, era o grande desafio.

O repórter explica: “Os alemães orientais estavam dominados por uma onda de nostalgia do que tinha sido a Alemanha Oriental. Eles detestavam o regime comunista quando estavam sob ele, mas, terminado esse regime, começaram a reinventar o passado. Por isso é que eu digo: memória é imaginação, nada muda mais do que o passado. Os alemães orientais estavam muito presos ao fato de se sentirem inferiores aos alemães ocidentais, que nunca os deixaram esquecer que eles eram considerados cidadãos de segunda classe. É impossível você entender o que acontece em qualquer sociedade se você não se dedicar à maneira como essa sociedade trata do passado. Toda a minha experiência como repórter e como profissional em mais de 40 países me mostrou que se você não entende como uma sociedade lida com os seus conflitos e os seus cadáveres no porão, você jamais vai entender o que ela faz no presente.”

Vinte anos sem Muro

Em novembro de 2009, o Jornal da Globo exibiu uma série de quatro reportagens sobre os 20 anos da queda do Muro. William Waack e Sergio Gilz viajaram à Berlim para registrar como estava a capital alemã duas décadas após a reunificação. Apesar do Muro já não mais existir, algumas barreiras persistiam na vida das pessoas. Waack também entrevistou um ex-oficial da polícia política e secreta da Alemanha Oriental, a Stasi. A última reportagem mostrou novamente a família Kuling, a mesma que o correspondente Silio Boccanera acompanhou em 1989 e que, sete anos depois, Waack reencontrou.

“Nós estudamos as reportagens de 1989 e de 1996, e os fizemos percorrer os mesmos trechos da cidade. É impressionante o que aquilo traz de riqueza de transformação. Não precisa de texto. Se você exibir aquelas imagens, um chinês entende, um russo entende, um brasileiro entende, um americano entende. Basta, não precisa de palavras. A cara da menina, a cara do pai, o carro que eles dirigiam, a casa onde eles moravam e onde eles moram hoje, as ruas onde eles andavam e onde eles andam hoje. É muito raro em televisão ter essa oportunidade de levar as mesmas pessoas aos mesmos lugares 20 anos depois. Um material desses é único. Essa reportagem foi exibida numa feira da qual a TV Globo participou, em Lisboa, e chamou a atenção. A própria televisão alemã se interessou” conta Waack.

FONTES

Depoimentos concedidos ao Memória Globo por: Pedro Bial (25/05/2001), Silio Boccanera(05/04/2004); William Waack (29/05/2002 e 21/03/2012); Jornal Nacional: a notícia faz história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004; Fantástico, 12/11/1989; Jornal Nacional, 09-13/11/1989, 02/10/1990, 09/11/1996.


Globo 50 Anos – coberturas: Clonagem da ovelha Dolly

CLONAGEM DA OVELHA DOLLY

O primeiro clone da história foi realizado na Escócia, a partir das células de uma ovelha adulta. O nascimento de Dolly mudou os rumos da pesquisas genéticas.

A HISTÓRIA

Em fevereiro de 1997, pesquisadores escoceses do Instituto Roslin anunciaram nas páginas da revista Nature o êxito de uma experiência inédita: a realização de uma cópia geneticamente perfeita de uma ovelha adulta. O animal, batizado de Dolly, nasceu no dia 5 de julho de 1996, viveu seis anos e teve filhotes.

A experiência provocou muita polêmica: discutia-se, de um lado, os benefícios das pesquisas para o tratamento de inúmeras doenças e, de outro, as implicações éticas da clonagem.

EQUIPE E ESTRUTURA

Participaram desta cobertura os correspondentes da Globo em Londres William Waack, Marcos Losekann e Caco Barcellos; e os repórteres Heloísa Villela, Álvaro Pereira Júnior, Ana Luiza Guimarães e Sandra Passarinho.

A Globo acompanhou a evolução dos acontecimentos desde o anúncio do nascimento de Dolly, com matérias periódicas no Jornal Nacional e reportagens especiais no Fantástico.

DESTAQUE

O anúncio da clonagem da ovelha foi ao ar, pela primeira vez, no Jornal Nacional do dia 24 de fevereiro de 1997. “Os cientistas que conseguiram uma cópia perfeita de uma ovelha garantem: vai ser possível fazer a mesma coisa com o ser humano”, anunciou o apresentador William Bonner.

Em seguida, uma reportagem de William Waack esclarecia que as pesquisas nessa área poderiam trazer contribuições no tratamento de doenças como câncer e hemofilia, aumentando as chances de cura de milhões de pessoas. Entretanto, ressaltava, a experiência de clonar seres humanos poderia gerar situações absurdas; como a de criação de clones para transplantes, cópias de filhos únicos ou ainda clones de ditadores.

Repercussão internacional

Na semana em que foi anunciado o nascimento de Dolly, o Fantástico realizou uma cobertura especial. “Será um marco histórico, que nos aproxima da clonagem de seres humanos, ou apenas mais um capítulo na eletrizante evolução da engenharia genética?”, perguntavam os apresentadores Pedro Bial e Cláudia Cruz. Em seguida, o programa exibiu várias imagens da ovelha, dos cientistas no laboratório de Edimburgo e da repercussão mundial do feito.

O departamento de arte do programa dominical produziu uma animação para explicar aos telespectadores quais eram os procedimentos da clonagem. Trechos de uma entrevista com o professor Yan Wilmot, chefe da pesquisa, foram ao ar, junto com as reações do então presidente norte-americano, Bill Clinton, e do papa João Paulo II, que se posicionou contra a técnica.

Novas ovelhas clonadas

Na semana seguinte, em 2 de março de 1997, o Fantástico voltou a tratar do assunto, desta vez levantando a questão de quais animais poderiam ser clonados. Em dezembro deste mesmo ano, a repórter Ana Luiza Guimarães realizou uma matéria para o Jornal Nacional onde falava da clonagem de mais duas ovelhas, Molly e Polly, pelos mesmos cientistas do Instituto Rosling, da Escócia.

Em 23 de abril de 1998, o correspondente William Waack anunciou, diretamente de Londres para oJornal Nacional, o nascimento de Bonnie, o filhote de Dolly com o carneiro David.

Em março do ano seguinte, no dia 31, o Jornal da Globo anunciou que Dolly havia dado à luz mais filhotes, também do carneiro David.

Em 1999, os cientistas descobriram que Dolly apresentava sinais de envelhecimento precoce. A divulgação, ocorrida novamente na revista especializada Nature, foi repercutida pela Globo no Jornal Nacional. 

Clone humano

No começo de 2001, o médico italiano Severino Antinori chocou o mundo ao anunciar que estava tentando clonar um ser humano. Pouco tempo depois, em 2002, declarou que uma das suas pacientes estava grávida do primeiro clone humano. A notícia foi ao ar no Jornal Nacional do dia 5 de abril. Nessa mesma data, a repórter Heloísa Villela mostrou que os cientistas norte-americanos receberam com desconfiança o anúncio da experiência de Antinori. Na matéria, a geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo, apontava o risco de o embrião clonado ser abortado e do bebê apresentar doenças genéticas e má-formação ao nascer.

Anos mais tarde, em novembro de 2006, o médico anunciou que desistira do clone humano, afirmando ter sido vencido “por questões éticas e legais”. Antinori nunca apresentou provas científicas do sucesso das suas experiências.

Morte de Dolly

Em reportagem exibida pelo Jornal Nacional em 14 de fevereiro de 2003, o correspondente da Globo em Londres, Marcos Losekann, noticiou que a ovelha fora sacrificada, aos seis anos, depois de diagnosticada uma doença pulmonar progressiva. Seu corpo empalhado encontra-se exposto no Royal Museum of Scotland, em Edimburgo, na Escócia.

O Fantástico de 5 de junho de 2005 levou ao ar uma entrevista exclusiva do então correspondente da Globo em Londres, Caco Barcellos, com o criador da ovelha Dolly, Ian Wilmut, na Escócia. Os temas abordados foram transplantes de órgãos, células tronco e o avanço das pesquisas na área de clonagem.

Dez anos depois

Em 23 de fevereiro de 2007, por ocasião da comemoração de uma década da primeira clonagem de animais, a repórter Sandra Passarinho realizou uma matéria para o Jornal Nacional, entrevistando os médicos Antônio Carlos de Carvalho e Helena Martinho sobre os avanços que haviam ocorrido neste campo.

Dois dias depois, o Fantástico voltou a tratar do tema em reportagem especial. O jornalista Álvaro Pereira Junior entrevistou os cientistas Fernando Reinach, Rodolfo Rumpf e Franklin Rumjanek, que haviam sido ouvidos pelo programa em 1997. “As pessoas tinham essas loucuras, que a gente ia fazer clone do Pelé”, falou Fernando Reinach a respeito das primeiras impressões sobre a clonagem. “Iria se clonar o Hitler, o Isaac Newton, o Einstein, e outras personalidades famosas também”, completou Franklin Rumjanek, que, durante a entrevista, questionou: “a grande pergunta que se coloca é: para que clonar seres humanos?” Os três cientistas foram unânimes ao afirmar que a contribuição da clonagem não teria nada a ver com gerar gente em série.  Produzir órgãos para transplantes ou abrir o caminho das pesquisas de células-tronco seriam, sim, as colaborações mais importantes.

FONTES

MEMÓRIA GLOBO. Jornal Nacional: a notícia faz história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004; Jornal Nacional, 19-21/06/1984; Fantástico (23/02/97, 02/03/97, 05/06/05, 25/02/07); Jornal Nacional(24/02/97, 23/04/98, 31/03/99, 05/04/02, 14/02/03, 23/02/07).


Globo 50 Anos – coberturas: Morte de Carlos Drummond de Andrade

MORTE DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

A morte de um dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade, causou comoção nacional e levou a Globo a produzir uma série de homenagens.


A HISTÓRIA

Na noite de 17 de agosto de 1987, uma segunda-feira, os brasileiros se despediram de um de seus maiores poetas. Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro, em decorrência de insuficiência respiratória.

Com a saúde debilitada desde o final de 1986, quando sofreu um infarto, Drummond acompanhou a doença e a morte de sua única filha, Maria Julieta, vítima de câncer. A tristeza da perda assolou o poeta mineiro, cujos versos atravessaram diferentes gerações da literatura brasileira no século XX.

O poeta de sete faces

Nascido em 1902 na cidade de Itabira, Minas Gerais, Drummond usou a terra natal como inspiração em diversas de suas obras. Em 1919, o jovem Carlos mudou-se para Belo Horizonte, depois para Nova Friburgo (RJ) e, de lá, retornou ao estado, estudando farmácia em Ouro Preto e Belo Horizonte.

De volta à capital mineira, em 1923, conheceu Mário e Oswald de Andrade (com quem compartilhava o sobrenome, por coincidência), que visitavam a cidade e o puseram em contato próximo com a poesia modernista. Mário de Andrade, inclusive, seria seu amigo de correspondência até o fim da vida. Ainda em Belo Horizonte, trabalhou no jornal Diário de Minas e frequentava o Café Estrela, ponto de encontro de uma geração de poetas e escritores que incluía Milton Campos, Aníbal Machado, João Alphonsus de Guimaraens e Pedro Nava. Com eles, em 1925, fundou A Revista, uma das mais importantes publicações literárias do estado a divulgar o modernismo.

Drummond ingressou no serviço público em 1928, como redator de órgãos oficiais do setor de educação. Mudou-se de vez para o Rio de Janeiro, então capital federal, em 1934, trabalhando como chefe de gabinete do primeiro ministro da Educação brasileiro, Gustavo Capanema, seu antigo colega de escola. Casado desde 1925, viveu uma tragédia pessoal quando o único filho homem que teve, Carlos Flávio, morreu apenas meia hora depois de nascer. Maria Julieta viria no ano seguinte e se tornaria uma das grandes companheiras do pai ao longo da carreira. Nos anos 50, já era considerado um dos principais poetas do Brasil.

EQUIPE E ESTRUTURA

A Globo levou ao ar uma série de homenagens ao poeta em sua programação. Apresentadores, atores e jornalistas expressaram o respeito e a importância de Carlos Drummond de Andrade ao ler trechos de seus poemas ao vivo, no ar. Foram eles: Paulo José, Tônia Carreiro, Leilane Neubarth, Cid Moreira, Pedro Bial, Leila Cordeiro.

DESTAQUES

Morre o poeta

No dia 17 de agosto, a Globo noticiou o falecimento de Carlos Drummond de Andrade, ocorrido às 20h45, primeiro no Jornal da Globo, depois no RJTV – 3ª Edição.

No dia seguinte, a morte do poeta foi destaque na programação da emissora, e diversos telejornais preparam matérias especiais. OJornal Hoje, por exemplo, exibiu um perfil de Drummond, que foi homenageado com a leitura de suas obras por atores como Paulo José e Tônia Carrero.

Os telejornais locais daquele dia também reprisaram uma entrevista de Drummond à emissora, em 1977. Nomes como Mário Quintana, Afonso Arinos de Mello Franco, Burle Marx, Austregésilo de Athayde, Thiago de Mello e Cyro dos Anjos comentaram a perda. E outros jornalistas da rede, como Pedro Bial e Leila Cordeiro, também recitaram poemas de Carlos Drummond de Andrade.

No RJTV – 2ª Edição, a apresentadora Leilane Neubarth recitou no ar um trecho de José, um dos poemas mais famosos de Drummond – conhecido pela indagação do verso inicial, “E agora, José?”.

O Fantástico que se seguiu à morte de Drummond prestou homenagem com diferentes interpretações de poemas. A mímica Lina do Carmo interpretou “Falta Pouco”; Milton Nascimento cantou “Canção Amiga” e Walmor Chagas recitou “Menino chorando na noite”.

“E agora, José?”

Em 18 de agosto, o Jornal Nacional levou ao ar uma edição especial em homenagem a Drummond. Depois de o jornal dedicar dois blocos inteiros à vida e obra do escritor, incluindo textos seus declamados por jovens atores da Globo, o apresentador Cid Moreira quebrou o protocolo, levantou-se da bancada e, de pé, leu o poema José que terminou com um toque especial.

“Quando o Carlos Drummond de Andrade morreu, fizemos um ‘boa noite’ diferente. No final do jornal, sussurrei: ‘E agora, José?’ Senti vontade de fazer aquilo, e fiz. E ninguém esperava isso. Fizeram uma fila para me cumprimentar, e até hoje me sinto honrado. O Alexandre Garcia, o Paulo Henrique Amorim, o Armando Nogueira, enfim, todo mundo fez fila para me abraçar. ‘Que jogada!’, disseram. Tenho isso dentro de mim”, relembra o apresentador Cid Moreira.

Poemas eróticos

“O editor-chefe do Jornal da Globo, me chamou para ler uns poemas eróticos do Drummond (…) Quando ele me deu os poemas, eram eróticos e explícitos.”Leilane Neubarth sobre homenagem a Drummond

A jornalista Leilane Neubarth, que já havia recitado “E agora, José?”, voltou a proclamar seus versos: “Por ocasião da morte do Drummond, o editor-chefe do Jornal da Globo me chamou para ler uns poemas eróticos do Drummond. Ele me  encontrou no corredor e falou: ‘Leilane, acho que é a sua cara. Você aceita ler uns poemas inéditos do Drummond, para a gente botar no Jornal da Globo?’ Aceitei, toda feliz; qualquer desafio sempre me emocionou muito. E quando ele me deu os poemas, eram eróticos e explícitos. Então, eu me lembro que fiquei muito assustada: ‘Minha Nossa Senhora do céu, como vou falar isso para uma câmera?’ Foi uma sensação muito engraçada. A lembrança que eu tenho foi a de que ficou muito bom. As pessoas viram e vieram comentar: ‘Nossa, que ousadia!’ Foi uma ousadia que deu certo.”

O poeta em foco

A Globo prestigiou a importância de Drummond em diversas ocasiões. Em 1977, fez com ele um Globo Repórter mostrando sua trajetória em Belo Horizonte. Em outra entrevista, no mesmo ano, Drummond falou sobre sua amizade com o poeta pernambucano Manuel Bandeira. Outro amigo do autor mineiro foi homenageado por ele em 1980, quando Drummond recitou versos de Vinicius de Moraes por ocasião de seu falecimento. Em 1981, foi entrevistado no Jornal Hoje e falou de sua obra e sua vida.

Cinco anos antes de sua morte, Drummond tinha sido tema de uma série de programas e reportagens comemorativas, por ocasião de seu 80º aniversário. Amigos, críticos e outros escritores, como Otto Lara Resende e Affonso Romano de Sant’Anna, falaram das obras e da relevância do poeta mineiro para a cultura nacional.

FONTES

Depoimentos concedidos ao Memória Globo por: Leilane Neubarth (29/05/2002) e Cid Moreira(22/03/2000); MEMÓRIA GLOBO. Jornal Nacional – a notícia faz história. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004; Fantástico (23/08/87); Jornal Hoje (18/08/87); Jornal Nacional (18/08/87); Jornal da Globo(17/08/87, 18/08/87); RJTV (17/08/87).




Globo 50 Anos – coberturas: Morte JK

MORTE JK

Presidente Juscelino Kubitschek ficou conhecido pelo Plano de Metas “50 anos em 5” e morreu num acidente de carro na via Dutra, em 1976.


A HISTÓRIA

Natural da pequena cidade de Diamantina, norte de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek (1902-1976) se formou em Medicina e ingressou na carreira política depois de completar 30 anos. Antes de se tornar presidente da República (1956-1961), foi prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais, pelo PSD. Após eleição nacional em 1955, assumiu a presidência, tendo como principais promessas a transferência da capital para o coração do Brasil e a realização do Plano de Metas, projeto de modernização pela aceleração do processo de industrialização, conhecido pelo lema “50 anos em 5”.
Após deixar a presidência da República, foi eleito senador e tomou posse já em 1961. Com a eclosão do golpe militar de 1964, JK teve os direitos políticos cassados. Em 1976, Juscelino morreu em um acidente de carro, na via Dutra, quando viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro.
Em 1996 e, novamente, em 2013, investigações chegaram a sugerir que o ex-presidente fora vítima de um atentado político, hipótese negada pela Comissão Nacional da Verdade, que também avaliou o caso, em abril de 2014.

DESTAQUES

Acidente de carro

Em 22 de agosto de 1976, Juscelino Kubitschek viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro no banco de trás de seu Opala, quando sofreu um acidente fatal. O carro, que o ex-presidente chamava de Platão, era conduzido por Geraldo Ribeiro, motorista particular de JK por 30 anos, que também não resistiu aos ferimentos decorrentes da tragédia e morreu. Segundo a perícia, o automóvel seguia pela rodovia Presidente Dutra, na altura do quilômetro 165, próximo a cidade de Resende, quando foi atingido por um ônibus. Desgovernado, o veículo cruzou o canteiro de segurança em alta velocidade e se chocou contra uma carreta na contramão, antes de ser arrastado por 30 metros. O carro ficou destruído, conforme mostrou reportagem de Gloria Maria para o Jornal Nacional, no dia seguinte da tragédia.
JK tinha 73 anos e tivera os direitos políticos cassados pela ditadura, em junho de 1964, apesar de ter intenção de concorrer à futura eleição presidencial, em caso de restituição do regime democrático.
Assim que recebeu a notícia da morte de Juscelino Kubistchek, na noite do dia 22 de agosto de 1976, a Globo colocou no ar um noticiário extra de três minutos, informando ao público os recentes acontecimentos. A matéria não agradou a Censura Federal, que enviou um recado à redação do Jornal Nacional pedindo que a morte fosse abordada com menos emoção. Além disso, estava proibida a menção ao fato que JK tivera os direitos políticos cassados pelo governo militar, e também qualquer alusão aos anos de seu mandato presidencial (1956-1961).
Mesmo com as advertências, a TV Globo acompanhou o velório no dia seguinte, com imagens do cortejo, que seguiu para o aeroporto Santos Dumont, de onde o corpo partiria para Brasília. Emocionada, a multidão homenageou JK cantando a música Peixe Vivo, os hinos Nacional, da Independência e à Bandeira. Mas as imagens não chegaram a emissora a tempo de entrar no JN, por conta do tumulto. Naquela época, a Globo ainda não tinha adotado a tecnologia Eletronic News Gathering (ENG), que permitia o envio de imagem e som direto do local do acontecimento para a emissora: o primeiro uso desse sistema no JN ocorreu apenas em 1977.
No Distrito Federal, mais comoção. Cerca de 20 mil pessoas fizeram questão de dar o último adeus a JK, antes do enterro. Em depoimento ao Memória Globo, o repórter Álvaro Pereira conta que estava na capital do país naquele dia e se lembra de que o enterro mobilizou a cidade inteira: “aquilo deve ter assustado o regime militar, e eles não puderam fazer nada. É curioso, porque um regime tão poderoso, apoiado por tropas armadas do Exército, Marinha e Aeronáutica, ficou, de repente, sem ação diante da morte de JK porque veio aquele momento meio espontâneo, a massa na rua, querendo prestar uma última homenagem a Juscelino, queria sair da Catedral com o caixão nas costas. Foi um evento magnífico e comandado pela população, pela massa. O regime militar acompanhou meio assustado, meio amedrontado, apenas tentando manter a ordem daquelas manifestações. Mas não teve o poder de cercear qualquer tipo de manifestação popular de solidariedade ou de homenagem ao grande líder político. Foram momentos marcantes em Brasília e que ajudaram, gradualmente, a construir a democracia no país”.

Homenagens

Uma semana depois, a Globo acompanhou a celebração da missa de sétimo dia do ex-presidente, na Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. Na cerimônia religiosa estiveram a viúva Sarah Kubitschek, políticos, amigos e admiradores de JK, conforme mostrou o JN, no dia 30 de agosto. Um dia antes, o Fantástico também homenageou JK, com reportagem especial nas ruas de Diamantina, cidade natal de Juscelino – que era carinhosamente chamado de “pé-de-valsa” por seus conterrâneos. Nas vielas íngremes da cidade mineira, moradores realizaram um serenata de despedida, entoando em coro a canção”Peixe Vivo”.
Passado um ano, foi inaugurado em Brasília o túmulo definitivo do ex-presidente, no cemitério do Campo da Boa Esperança, como noticiou o JN, em 22 de agosto de 1977.  Após a missa celebrada por três padres, dona Sarah Kubitschek agradeceu aos 2.500 presentes, dizendo com emoção que JK “voltou a Brasília carregado nos braços do povo”.
As homenagens seguiram. Em 1986, a repórter Beatriz Thielmann acompanhou a celebração dos dez anos da morte, realizada no Memorial JK, no Eixo Monumental, em Brasília. Por conta da chuva, a cerimônia que estava prevista para ocorrer em um palco ao ar livre, onde haveria uma apresentação de música, foi transferida para dentro do museu

Exumação de Geraldo Pereira

O corpo do motorista Geraldo Ribeiro foi exumado, em Minas Gerais, no dia 14 de agosto de 1996. A ação decorreu da reabertura do inquérito sobre a morte de Juscelino Kubitschek, solicitada pelo advogado Paulo Castelo Branco, do Museu JK, conforme noticiou o Jornal da Globo, em julho daquele ano.  A hipótese do advogado era que Juscelino poderia ter sido vítima de um atentado político. Após a exumação, o corpo foi avaliado por um perito, que afirmou ter encontrado uma fenda na parte frontal do crânio e um objeto metálico não identificado. Nada foi provado: a hipótese de assassinato foi rechaçada pela Justiça, e o caso, arquivado.

Velório de Jucelino

Comissão da Verdade

Em dezembro de 2013, a Comissão Municipal da Verdade de São Paulo anunciou que Juscelino Kubitschek havia sido vítima de um atentado político, conforme noticiou o jornalista Alberto Gaspar, em reportagem ao JN. Segundo a comissão, indícios apontavam que o motorista Geraldo Ribeiro, que conduzia o Opala usado por JK, fora baleado na testa durante o trajeto, perdendo o controle do veículo, que colidiu em seguida com um caminhão, na contramão. O relato de um caminhoneiro, ouvido pela primeira vez, e também o de um perito que afirmou ter visto uma perfuração no crânio do motorista durante a exumação de seu corpo, em 1996, estavam entre as provas encontradas pela comissão.
O relatório de 90 páginas foi encaminhado à Comissão Nacional da Verdade (CNV), que iniciou outra investigação para avaliar a hipótese.  Em 22 de abril de 2014, em matéria da repórter Cristina Serra, oJN anunciou o resultado da investigação da CNV: tanto o ex-presidente, quanto seu motorista foram vítimas de um acidente de carro e não de um homicídio.
A equipe de reportagem acompanhou a sessão em Brasília, entrevistou o presidente da Comissão, e ouviu a declaração do representante do grupo de peritos que analisou o caso: a fenda no crânio foi provocada por uma lesão durante a exumação, e o objeto metálico encontrado junto ao corpo de Geraldo Ribeiro era, na verdade, um grampo utilizado para fixar o forro do caixão. A investigação avaliou documentos e fotografias inéditas, testemunhas e laudos científicos. A conclusão foi que, após ter o carro atingido por um ônibus, Geraldo Ribeiro tentou recuperar o controle do carro ao realizar uma manobra, reação que, segundo os especialistas, seria impossível, caso ele tivesse sido baleado na cabeça.

FONTES

Jornal Nacional, a notícia faz história. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004. Bom Dia Brasil 23/04/2014;Jornal Nacional 30/8/1976, 22/8/1977, 27/8/1981, 22/8/1986, 10/12/2013, 22/4/2014.  Jornal da Globo 09/7/1996. Fantástico 29/08/1976.


Globo 50 Anos – coberturas: Caso Isabella Nardoni

CASO ISABELLA NARDONI

O assassinato da menina Isabella Nardoni, jogada pela janela pelo pai e pela madrasta, chocou o país.

A HISTÓRIA

Na noite de sábado, 29 de março de 2008, a menina Isabella de Oliveira Nardoni, de 5 anos, foi jogada da janela do prédio onde seu pai, Alexandre Nardoni, morava com a esposa, Anna Jatobá, e seus dois filhos. A princípio, o casal alegou que o crime havia sido cometido por um intruso, mas os dois foram considerados culpados por um júri popular. Suas penas foram 31 e 26 anos de prisão, respectivamente.

EQUIPE E ESTRUTURA

A Globo cobriu o caso da Isabella Nardoni por mais de um mês, diariamente, em todos os telejornais de rede, os locais de São Paulo, e também no Globo Notícia, no Plantão e no Fantástico.

Equipes de jornalistas trabalharam dia e noite, cobrindo promotoria, defesa, polícia, movimentação dos suspeitos e comoção social. César Tralli, José Roberto Burnier, Cesar Galvão,Valmir Salaro, Patrícia Poeta, Walace Lara, Gloria Vanique, Mariana Godoy, Fabio Turci, Ana Brito, Kelly Varrashim, Natalia Ariede, Marina Araújo, Alan Severiano, Carla Modena, Fernando Rocha, Mauricio Ferraz – todos participaram da cobertura.

Entrevistas exclusivas do Fantástico, feitas por Valmir Salaro (com o casal suspeito, os Nardonis) e porPatrícia Poeta (com a mãe de Isabella, Ana Carolina), trouxeram nova luz ao caso e acenderam a opinião pública.

O apresentador William Bonner faz um balanço do episódio: “Publicamos e lamentamos, porque aquilo produziu um luto nacional multiplicado: se, num primeiro momento, foi a dor pela morte da menina, depois passou a ser também a dor causada pelas condições em que essa morte possivelmente teria acontecido, isto é, pelas mãos de uma madrasta e com a conivência do pai da vítima. É uma coisa inaceitável. Acho que brasileiro nenhum que tenha acompanhado essa história será um dia capaz de esquecê-la. É dessas crônicas policiais que ficam para a história de um país”.

Pela cobertura do caso, a editoria São Paulo ganhou o Prêmio Rede Globo de Jornalismo 2008, que foi entregue a Cristina Piasentini, diretora regional de Jornalismo de São Paulo.

DESTAQUES

Primeiras notícias

A primeira matéria sobre o caso Nardoni foi ao ar no domingo à noite, quando o apresentador Zeca Camargo anunciou, no Fantástico: “A morte de uma menina de 5 anos, em São Paulo, está cercada de mistérios. A polícia acredita que ela tenha sido jogada do sexto andar de um prédio”. A repórter Marina Araújo apresentou uma animação simulando a tragédia. O delegado Calixto Calil Filho disse que a versão de tentativa de invasão do apartamento, apresentada por Alexandre Nardoni, não esclarecia o caso.

No dia 31 de março, após o Globo Notícia anunciar o enterro de Isabella, o Jornal Nacional levou ao ar uma matéria de Cesar Galvão sobre o caso. A incoerência da história relatada pelo pai e pela madrasta da menina foi evidenciada após os trabalhos dos peritos. No Jornal da Globo, outra matéria de Marina Araújo deu continuidade à cobertura, com imagens do enterro, onde o avô materno fez um desabafo. Através de ilustrações realizadas com base na planta do apartamento, demonstrou-se que a versão do pai era incompatível com os dados preliminares coletados pela perícia.

No dia 1º de abril, o apresentador Evaristo Costa informou: “Segundo exames preliminares, Isabella sobreviveu à queda do sexto andar”. Sandra Annenberg continuou: “A menina chegou a ser levada a um pronto-socorro, mas não resistiu aos ferimentos”.

Durante a semana, o caso Isabella Nardoni ganhou grande repercussão nacional. Na quarta-feira, dia 2, a apresentadora Renata Vasconcellos resumiu, no Bom Dia Brasil, a situação: “Versões, muitas versões. O caso da menina de 5 anos, que, segundo a polícia, foi jogada do sexto andar de um prédio na zona norte de São Paulo é um desafio para a investigação”. Naquela mesma tarde, o Globo Notícia, apresentado por Fátima Bernardes, foi ao ar com a informação de que a polícia havia pedido a prisão temporária do pai e da madrasta de Isabella.

No Jornal Nacional, uma matéria de Cesar Galvão mostrou a chegada da mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, para depor. Também foi ao ar o depoimento de um dos vizinhos, que não quis se identificar. O Jornal da Globo seguiu com uma reportagem de Alan Severiano sobre a nova perícia realizada pela polícia.

Pai e madrasta

No dia 3 de abril, o Bom Dia Brasil começou falando sobre a expectativa da apresentação à polícia do pai e da madrasta de Isabella, que tiveram a prisão preventiva decretada. No Jornal Hoje, o apresentador Evaristo Costa leu uma carta enviada por Alexandre Nardoni, na qual ele se dizia inocente. Na segunda edição do Globo Notícia, Fátima Bernardes informou que o casal suspeito se apresentara à polícia.

Os assassinos de Isabella, seu pai e sua madrasta

Jornal Nacional mostrou imagens dos acusados chegando à delegacia. No encerramento do telejornal, o repórter José Roberto Burnier entrou ao vivo da delegacia. O Jornal da Globo informou que o casal suspeito havia sido encaminhado ao Instituto Médico Legal para exame de corpo de delito. O delegado Aldo Gagliano Junior esclareceu que a detenção dos suspeitos se devia a algumas contradições e esclarecimentos.

Na sexta-feira, 4 de abril, a cobertura do caso seguiu em todos os telejornais da emissora. No Bom Dia Brasil, as repórteres Ana Brito e Gloria Vanique entraram ao vivo da frente das delegacias onde estavam Alexandre Nardoni e Anna Jatobá.

A comoção social que o crime causou foi retratada em matéria de Kelly Varraschim para o Jornal Hoje. A apresentadora Sandra Annenberg informou que havia conversado, por telefone, com a mãe de Isabella, que não quis gravar entrevista. Evaristo Costa resumiu: “Há uma semana, o país inteiro não fala de outra coisa. De repente, a vida dessa família mudou e passamos a sentir a perda de alguém que nem conhecíamos”.

Jornal Nacional começou com Fátima Bernardes: “O promotor fala sobre a morte da menina Isabella Nardoni”. William Bonner completou: “Diz que o pai e a madrasta deram versões fantasiosas”. O repórter Fabio Turci salientou as inconsistências do caso, destacadas pelo promotor de acusação, Francisco Cembranelli, em entrevista. Matérias de Mauricio Ferraz e Valmir Salaro também foram ao ar.

Cronologia do crime

Fantástico do dia 6 de abril, o repórter Fabio Turci refez todo o trajeto percorrido, de carro, pela família na noite de sábado. De acordo com a investigação, Isabella teria sido assassinada entre 23h30 e 23h50. Em seguida, uma reportagem de Valmir Salaro confrontou fatos e versões: teria a morte de Isabella sido provocada por asfixia ou pela queda? Se o pai relatou que a deixou dormindo em seu quarto, por que a menina foi jogada do quarto dos irmãos? Se Isabella foi deixada trancada sozinha no apartamento, quem teria entrado? E como? O repórter ainda informou que a perícia já havia concluído que a tela de proteção, localizada no quarto de onde a menina havia sido jogada, fora cortada com uma faca e uma tesoura.

Em seguida, Patrícia Poeta chamou, ao vivo, dos estúdios de São Paulo, o promotor do caso, Francisco Cembranelli, que foi entrevistado por Valmir Salaro. César Tralli também entrevistou ao vivo o advogado do pai e da madrasta, Marco Polo Levorim.

Por telefone, Ana Carolina Oliveira falou com Patrícia Poeta sobre sua gravidez, ainda na adolescência, sua relação com a filha e a última vez que as duas se falaram. Foram 26 minutos seguidos de matérias sobre a tragédia. Ainda durante essa edição do programa foi ao ar uma entrevista de César Tralli com o avô paterno de Isabella, Antônio Nardoni.

Novas pistas

Durante a semana seguinte, a Globo acompanhou de perto o desenrolar do caso. No Jornal Hoje de 7 de abril, a apresentadora Sandra Annenberg conversou, por telefone, com a tia paterna da menina, Cristiane Nardoni, que negou qualquer envolvimento do irmão. A repórter Gloria Vanique entrou ao vivo, em seguida, explicando que as roupas usadas pelo casal estavam sendo analisadas pela perícia. O repórter Walace Lara noticiou o pedido de habeas corpus feito pelos advogados de defesa do pai e da madrasta de Isabella.

À noite, no Jornal Nacional, uma matéria de César Tralli informou as últimas conclusões da investigação, com base nos resultados de uma nova perícia: o assassino de Isabella teria agredido e esganado Isabella com as mãos, dentro do apartamento, antes de jogá-la do sexto andar.

Imagens inéditas foram ao ar no dia 8 de abril, no Jornal Nacional. A matéria de Cesar Galvão mostrava a filmagem das câmeras de segurança do supermercado por onde a família Nardoni havia passado horas antes do crime: parecia o retrato de uma família harmônica e feliz. No dia seguinte, o repórter Mauricio Ferraz informou, também no JN, que a quebra de sigilo telefônico dos suspeitos e de seus familiares havia sido pedida.

Até aquela data, 37 pessoas já haviam prestado depoimento, e outras 11 seriam ouvidas. A delegada responsável pelos depoimentos, Renata Helena Pontes, declarou então que o caso já estava 70% solucionado.

Habeas corpus

O apresentador Márcio Gomes abriu o JN do dia 11 de abril com a seguinte manchete: “A justiça acolhe os pedidos dos advogados de defesa, e o pai e a madrasta de Isabella saem da cadeia em São Paulo”. Em matéria, José Roberto Burnier falou sobre a decisão de soltar o casal, que havia partido do desembargador Caio Cangaçu de Almeida. A polícia aguardava apenas a liberação dos laudos para encerrar as investigações. O promotor Francisco Cembranelli declarou: “Há informações preliminares e categóricas do Instituto de Criminalística que nos permitem concluir e vincular o casal aos ferimentos sofridos por Isabella e ao que ocorreu propriamente dito na cena do crime”.

No Jornal da Globo, em entrevista por telefone com Marina Araújo, o promotor informou que diferentes vizinhos haviam escutado uma briga entre o casal Anna Jatobá e Alexandre Nardoni pouco antes da queda de Isabella.

No Fantástico de 13 de abril, a cobertura prosseguiu. Uma matéria com a cronologia dos fatos, novas pistas e a espera pelos resultados da investigação foi ao ar ainda no primeiro bloco, inteiramente dedicado ao caso. O repórter Caco Barcellos entrevistou, em Campinas, o desembargador que determinou a liberdade do casal, Caio Canguçu de Almeida. Ele afirmou que as suspeitas que recaíam sobre o casal não eram suficientes para mantê-los presos. Também foram entrevistados o promotor de acusação, o advogado de defesa, a irmão e o pai de Alexandre Nardoni.

Testemunhas mudam a direção das investigações

No dia 14, o Jornal Nacional teve acesso exclusivo aos depoimentos de Anna Jatobá e Alexandre Nardoni. No dia seguinte, o telejornal exibiu uma entrevista exclusiva, realizada porCésar Tralli, com duas testemunhas-chave da investigação: um casal que morava num prédio vizinho ao edifício onde ocorreu o crime. Uma reportagem de Cesar Galvão apresentou as três hipóteses de causa mortis de Isabella Nardoni: estrangulamento, convulsão, ou parada respiratória provocada pela queda de quase 20 metros de altura.

No dia em que Isabella completaria 6 anos, 18 de abril, foi ao ar, no JN, uma matéria com homenagens prestadas à família e à menina. O casal de suspeitos havia sido intimado a prestar novo depoimento. Os repórteres Mauricio Ferraz e César Tralli fizeram reportagens com detalhes exclusivos obtidos nos laudos que comprovavam o envolvimento direto do casal na morte da criança. O conteúdo dos três laudos foi apresentado: o do IML, sobre o corpo de Isabella; um fornecido pela criminalística, sobre o horário de entrada do carro na garagem do prédio; e um último sobre cenário do crime, feito pelo Núcleo de Crimes Contra a Pessoa. Através dos laudos, foi possível afirmar que Alexandre Nardoni havia jogado a filha do sexto andar, e que as marcas de esganadura no pescoço da menina eram compatíveis com as mãos da madrasta.

Entrevistas exclusivas

Isabella e a mãe

Uma entrevista exclusiva com os suspeitos, realizada pelo jornalista Valmir Salaro, foi ao ar no Fantástico do dia 20 de abril. Durante 35 minutos, Alexandre Nardoni e Anna Jatobá se emocionaram e se declararam inocentes.

Prédio que Isabella foi assassinada

No Jornal Nacional do dia seguinte, uma reportagem de Mauricio Ferraz confrontou a versão contada pelo casal com as conclusões dos laudos: havia várias discrepâncias. Uma reportagem de Graziela Azevedo mostrou a opinião dos psiquiatras forenses Marcos Pachedo Ferraz e Isa Kabacznik sobre a entrevista – ambos concordaram que as falas dos suspeitos pareceram ensaiadas.

Uma matéria de Rodrigo Bocardi sobre a conclusão dos laudos foi ao ar no Jornal da Globo: Isabella havia sido asfixiada por três minutos, na sala da casa, antes de ser jogada.

Na manhã do domingo, 27 de abril, a reconstituição do crime foi feita com 14 pessoas. Anna Jatobá e Alexandre Nardoni se recusaram a participar e foram representados por agentes da polícia. No Fantástico daquela noite, foram exibidas reportagens de José Roberto Burnier, César Tralli,Rodrigo Bocardi, Mauricio Ferraz, Mariana Ferrão, Ernesto Paglia e César Menezes. Após a reconstituição, a polícia descartou qualquer possibilidade de uma terceira pessoa ter estado no local do crime.

Pai e madrasta de Isabella em entrevista

No dia 2 de maio, O Jornal Nacional teve acesso, com exclusividade, ao inquérito policial completo contendo os três laudos. Em 7 de maio, o juiz Maurício Fóssen aceitou a denúncia do promotor Francisco Cembranelli e decretou a prisão preventiva de Alexandre Nardoni e Anna Jatobá. Como informou José Roberto Burnier na mesma edição do JN, os advogados de defesa anunciaram que entrariam com um pedido de habeas corpus para tentar revogar a prisão preventiva do casal. Foi marcado, para o dia 28 de maio, o interrogatório dos réus.

No JN do dia 13, José Roberto Burnier informou que o habeas corpus havia sido negado e que Alexandre Nardoni fora transferido para o Centro de Detenção Provisória de Guarulhos. Quatro dias depois, César Menezes noticiou no JN que o pai de Isabella havia sido transferido novamente de presídio, desta vez para Tremembé (SP).

Fantástico do dia 11 de maio exibiu a entrevista exclusiva dePatrícia Poeta com Ana Carolina Oliveira, mãe da menina assassinada, que até então não havia se pronunciado.

“Eu comprei umas flores e fui até a casa da Ana Carolina, em São Paulo. Disse que, se um dia ela quisesse falar, eu estaria à disposição. A história (da morte da Isabella) foi indo num crescente, e ela não falava. Um belo dia, ela disse que aquele era o momento de falar”, conta a apresentadora Patrícia Poeta.

Em março de 2009, ao completar um ano da morte de Isabella Nardoni, Patrícia Poeta entrevistou novamente a mãe da menina para o Fantástico. Em abril, a apresentadora recebeu o Prêmio de Grande Furo de Reportagem pela entrevista com Ana Carolina Oliveira.

Os réus

Jornal da Globo de 20 de maio noticiou que o perito Jorge Sanguinetti havia sido contratado pela família dos réus para contestar os laudos feitos sobre a cena do crime. Sanguinetti ficara conhecido ao contestar a perícia feita no assassinato do ex-tesoureiro de campanha de Fernando Collor, PC Farias.

“Os réus falam à justiça. Alexandre Nardoni e Anna Jatobá prestam depoimento sobre a morte de Isabella”, anunciou Fátima Bernardes na escalada do Jornal Nacional do dia 28 de maio, quase dois meses após o crime. O casal, que prestou depoimento por mais de seis horas, continuou negando as acusações e declarando inocência.

Em junho de 2008, três desembargadores da Justiça decidiram que Alexandre Nardoni e Anna Jatobá deviam continuar presos. Os telejornais de rede acompanharam os depoimentos das vítimas do caso.

O julgamento

Reconstituição do crime

No dia 24 de março de 2009, o repórter José Roberto Burnier informou, em matérias para o Jornal Nacional e o Jornal da Globo, que o casal Nardoni iria a júri popular. No Fantástico do dia 4 de abril, Carla Modena fez uma matéria explicando como seria feita a escolha do júri, composto por sete pessoas sorteadas.

“Quase dois anos depois, o casal Nardoni vai a júri popular pela morte da menina Isabella”, anunciou o apresentador Márcio Gomes na abertura do Jornal Nacional. O julgamento, que começou em 22 de março de 2010, durou cinco dias e foi acompanhado pelos repórteres da Globo, dentro e fora do Fórum de Santana (SP). Nos telejornais de rede foram mostradas ilustrações das cenas do julgamento e resumos dos depoimentos.

No dia 26 de março, o repórter César Tralli entrou ao vivo no Jornal Nacional informando que o julgamento terminaria até a meia-noite daquele dia.

Condenação à pena máxima

Um Plantão, apresentado por William Waack e Christiane Pelajopouco antes do Jornal da Globo, revelou um áudio do juiz Maurício Fossen lendo a sentença de condenação de Anna Jatobá (26 anos e 8 meses de reclusão) e Alexandre Nardoni (31 anos e 10 dias). O repórter José Roberto Burnier mostrou a reação da multidão em frente ao Fórum de Santana.

Dois anos após o crime, no dia 28 de março de 2010, o Fantásticofez uma cobertura especial e detalhada sobre o julgamento que havia ocorrido durante a semana anterior. Entre as matérias, foi exibida uma entrevista com Ana Carolina Oliveira sobre sua participação no julgamento da morte da filha.

FONTES

Depoimentos concedidos ao  Memória Globo por: Patrícia Poeta (09/03/2012) e William Bonner(07/03/2012) ; Bom Dia Brasil (30/03/08 a 30/05/08); Fantástico (30/03/08 a 30/05/08; 01/03/09 a 31/03/09, 04/04/09 e 28/03/10); Globo Notícia (30/03/08 a 30/05/08); Jornal da Globo (30/03/08 a 30/05/08) Jornal Hoje (30/03/08 a 30/05/08); Jornal Nacional (30/03/08 a 30/05/08; 24/03/09; 22 a 27/03/10).



Globo 50 Anos – coberturas: Atentados de 11 de setembro

ATENTADOS DE 11 DE SETEMBRO

 

Em 11 de setembro de 2001, os EUA foram alvo de ataques terroristas organizados pela rede Al Qaeda, liderada por Osama Bin Laden.


A HISTÓRIA

No dia 11 de setembro de 2001, o mundo assistiu ao desabamento do maior ícone da supremacia econômica norte-americana. As torres gêmeas do World Trade Center, em Manhattan, Nova York, vieram abaixo depois de serem atingidas, cada uma, por um Boeing 767. No mesmo dia, o prédio do Pentágono, centro do poder militar dos Estados Unidos, também foi atingido, por um Boeing 757. Outro avião do mesmo tipo foi sequestrado e derrubado a 130 km ao sul de Pittsburgh, na Pensilvânia.

DESTAQUES

No dia 11 de setembro de 2001, o mundo assistiu ao desabamento do maior ícone da supremacia econômica norte-americana. As torres gêmeas do World Trade Center, em Manhattan, Nova York, vieram abaixo depois de serem atingidas, cada uma, por um Boeing 767. No mesmo dia, o prédio do Pentágono, centro do poder militar dos Estados Unidos, também foi atingido, por um Boeing 757. Outro avião do mesmo tipo foi sequestrado e derrubado a 130 km ao sul de Pittsburgh, na Pensilvânia.

Mobilização da equipe

Já no primeiro momento, a equipe da Globo se mobilizou para informar aos telespectadores tudo que se passava. Ali Kamel, então diretor executivo da Central Globo de Jornalismo, lembra o episódio: “Quando cheguei à emissora, às 8h30, o Schroder já estava na sala dele. Em frente à minha mesa, há cinco aparelhos de TV sintonizados em diferentes canais. Eu estava conversando com a minha mulher ao telefone, porque ela se esquecera de me lembrar de um compromisso assumido para aquela noite. De repente, vi na Globo News, às 9h48, uma imagem de um prédio que me parecia familiar pegando fogo. Desliguei rapidamente o telefone, a tempo de ouvir que de fato se tratava mesmo de uma da torres do World Trade Center. Um bimotor, por acidente, teria se chocado contra o prédio. Essa era a primeira versão. Corri para a sala do Schroder, onde há 12 monitores de TV, e apontei para aquele com a torre em chamas. Eu era novo em televisão, estava ali desde julho daquele ano. Nunca tinha visto uma cena como a que se seguiria. Schroder deu um pulo, ligou imediatamente para oAmauri Soares, diretor executivo da CGJ em São Paulo. Durante as manhãs, depois do Bom Dia Brasil, o comando operacional do Jornalismo fica na capital paulista, de onde é gerado o Jornal Hoje. ‘Põe no ar o plantão, Amauri! O World Trade Center está pegando fogo! Põe no ar!’, dizia Schroder”.

Quando Schroder ligou, Amauri já estava no switcher pondo o plantão no ar. Desde cedo na redação, ele estava reunido com grande parte de sua equipe, preparando o que até então parecia ser a principal cobertura do dia: o assassinato do prefeito de Campinas, Toninho do PT. Por um dos monitores de sua sala, Amauri viu as primeiras imagens da CNN e correu para o switcher, quando foi alcançado pelo telefonema de Schroder.

Ali Kamel conta que Schroder logo pediu para o Centro de Documentação da Globo auxiliar Carlos Nascimento com informações na apresentação do plantão. Quatro minutos depois, no entanto, sem aviso prévio, a transmissão foi encerrada. Às 10h02, a vinheta de plantão interrompeu novamente a programação e Carlos Nascimento continuou a narração.

Para Kamel, recém-chegado à televisão, o episódio foi um aprendizado: “Eu pensei com os meus botões: se estivesse em São Paulo, talvez também tivesse tirado o plantão do ar depois de quatro minutos. Na minha cabeça, naquele momento, a notícia já tinha sido dada. Mas eu estava completamente errado. A atuação de Schroder foi decisiva. Não fossem a irritação de Schroder e a sua decisão de mandar voltar o plantão, a Globo deixaria de ter transmitido, ao vivo, o choque do segundo avião contra a outra torre.” A irritação era a mesma de Amauri, porque também ele não tinha dado ordem para que o plantão saísse do ar, num daqueles curtos-circuitos que às vezes acontecem em momentos cruciais de uma cobertura.

Schroder fala sobre os motivos que o levaram a tomar aquela decisão: “Naquele instante, sequer sabíamos a causa do choque do avião na torre. As informações eram contraditórias, não havia nenhuma razão para sair do ar. Na hora, é tudo muito rápido, você decide tudo rapidamente com os elementos que tem ao seu dispor. Uma coisa é certa: um incêndio como aquele não acontece todo dia. Para mim, não havia outra decisão senão manter o plantão.”

Transmissão ao vivo

Amauri Soares comandou a transmissão de dentro do switcher, comunicando-se com os dois apresentadores através de pontos eletrônicos. Enquanto um deles narrava os acontecimentos, Amauri Soares dizia ao outro quais imagens iriam entrar a seguir. Como estavam sem texto de apoio e não contavam com o teleprompter, Carlos Nascimento e Ana Paula Padrão dependiam dessa coordenação para acompanharem as imagens.

Àquela altura, a sala de Schroder no Rio já começava a se transformar num centro de operações. Para lá se dirigiu imediatamente o diretor da Central Globo de Programação, Roberto Buzzoni, que concordou que a programação ficasse interrompida o quanto fosse necessário. Os três – Schroder, Kamel e Buzzoni – estavam diante do monitor com as imagens da TV Globo quando, às 10h03, o segundo avião se chocou contra a Torre Sul do World Trade Center, enquanto Nascimento entrevistava, por telefone, a então chefe do escritório da Globo em Nova York, Simone Duarte. Houve um momento de pausa na narração. Segundo Amauri Soares, era uma cena tão inacreditável que ele e Carlos Nascimento pensavam se tratar de uma reprise do primeiro acidente ou de uma cena de um filme que a CNN estava usando para ilustrar a transmissão.

De improviso, Nascimento chegou a dizer que poderia ser replay do primeiro choque, já que as imagens que estavam no ar eram da TV americana. Schroder relata: “Era evidente que não era replay, pois o avião se chocara na torre que não estava pegando fogo. Mas, ao vivo, no ar, às vezes é difícil perceber as coisas. Imediatamente pedi que o Amauri rodasse em São Paulo a cena novamente e pusesse no ar: estava provado, não era replay, mas outro avião se chocando contra a outra torre. Tudo isso demorou poucos segundos, e o Carlos Nascimento pôde dizer ao público: ‘Se havia alguma dúvida sobre se o que estamos vendo é ou não um atentado terrorista, a dúvida está desfeita’”.

EUA sob ataque

A Globo começou a falar em ataque terrorista antes mesmo da CNN. Logo em seguida, chegou a informação de que mais dois aviões haviam caído nos Estados Unidos: um no Pentágono e outro em Pittsburgh, na Pensilvânia.

Naquele momento, a sala de Schroder já estava completamente tomada. Além dele, Buzzoni e Ali Kamel, Fernando Bittencourt (diretor da Central Globo de Engenharia), Tom Florido (diretor da Central Globo de Informática, Administração e Patrimônio) e Luis Erlanger (diretor da Central Globo de Comunicação) estavam ali, cada um para oferecer os recursos necessários a uma operação que se arrastaria por muitas horas.

Em São Paulo, Amauri Soares mobilizava toda a redação para apoiar a dupla de apresentadores. “Amauri trabalhou muito bem, assim como toda a equipe de São Paulo. Transmitir durante quatro horas não é nada simples. E tudo funcionou perfeitamente. O escritório de Nova York, da mesma forma, trabalhou brilhantemente, superando todas as dificuldades”, diz Schroder.

Os correspondentes da TV Globo numa força-tarefa

O escritório da Globo em Nova York trabalhou intensamente naquele dia. Os correspondentes Edney Silvestre, Zileide Silva, Heloísa Villela, Jorge Pontual, a coordenadora Simone Duarte, a produtora Joana Studart Pereira e os cinegrafistas Orlando Moreira, Hélio Alvarez e Sherman Costa, além de Luís Fernando Silva Pinto em Washington , saíram em busca de imagens que as redes de TV norte-americanas não mostravam. Foram entrevistadas pessoas nas ruas que sobreviveram à tragédia, inclusive brasileiros que estavam em Nova York. Durante o Jornal Nacional daquela noite, Zileide Silva fez diversas entradas ao vivo, dando as últimas informações .

Edney Silvestre ressalta o esforço dos profissionais do escritório de Nova York para produzir o material que foi ao ar naquele dia. Das 18 pessoas que trabalhavam na redação, duas estavam de férias. Os voos foram todos suspensos, e as pontes de acesso à cidade, fechadas. O sistema de transportes entrou em colapso, e não havia metrô, ônibus ou mesmo táxis circulando em Manhattan, onde fica a sucursal da Globo. O repórter Arnaldo Duran, que passava férias na cidade, foi a pé do bairro do Queens, onde se hospedava, até o escritório para ajudar na cobertura dos acontecimentos. “Muitas pessoas do escritório que não eram jornalistas – a recepcionista, a moça que tomava conta dos assuntos financeiros –, colaboraram, entrando na internet, assistindo à televisão e passando as notícias. Teve uma hora em que foi necessário operar uma câmera, e todos os cinegrafistas estavam ocupados. Zileide Silva tinha que entrar no ar naquele momento, e a Joana Studart, que é produtora, operou a câmera”, lembra Edney Silvestre.

Minutos depois de o primeiro avião atingir uma das torres, o repórter Jorge Pontual, que embarcava num avião para Washington, onde cobriria uma manifestação contra o FMI, foi forçado a desembarcar com os demais passageiros. No aeroporto encontrou com o cinegrafista Hélio Alvarez, que também iria para Washington. Com todos os acessos à ilha de Manhattam fechados, os dois pegaram uma carona em um carro de polícia, que tinha passe livre no local da tragédia. “Conseguimos atravessar todas as barreiras e chegamos lá perto. Gravamos as cenas de pessoas que tinham descido do prédio e estavam correndo, ainda cobertas de pó. Uma coisa dramática. Gente que tinha visto pessoas caindo e que ria porque tinha se salvado, aquele riso nervoso de quem só sabe que está vivo. Foi muito impressionante”, recorda Jorge Pontual.

Em Londres, os repórteres Ernesto Paglia e Marcos Losekannacompanharam os reflexos dos atentados na Europa. De Beirute, no Líbano, o repórter Mounir Safatli deu informações , por telefone, sobre a repercussão no Oriente Médio.

Avaliando essa cobertura jornalística da Globo, Edney Silvestreacredita que foi naquele momento que a emissora mostrou que tem uma estrutura internacional que faz a diferença: “Enquanto os outros mostravam imagens compradas, imagens de satélites, a TV Globo tinha suas próprias câmeras e seus próprios repórteres”. Um exemplo foram as imagens feitas por Orlando Moreira no “marco zero”. O cinegrafista e o repórter Jorge Pontual foram dos poucos a entrar no local do desabamento das torres.

Jorge Pontual conta como ele e Orlando Moreira conseguiram chegar ao local, furando o cerco montado pela polícia: “Nós fomos os primeiros a conseguir entrar no “marco zero”. Foi no domingo à tarde. Tinha muita barreira, mas os policiais deviam estar cansados. Orlando Moreira dizia: ‘Encosta nas paredes dos prédios, no outro lado da rua, e vai andando assim que eles não vão nos ver’. E assim a gente foi, sem ninguém ver. Até que chegamos lá e vimos os escombros ainda queimando. Aquilo era sufocante, de passar mal”.

Orlando Moreira recorda o mesmo episódio: “Chegamos àquela primeira barreira de polícia, e eles não deixaram a gente passar. Até que nós encontramos um policial que estava mais cansado, nos tornamos invisíveis aos seus olhos e conseguimos passar. Mais à frente tinha outra barreira. Falei: ‘Pontual, vem comigo’. Passamos e, quando eu vi, saímos em frente ao World Trade Center, o mais perto possível dos escombros. Foi a primeira imagem que fizemos da tragédia. Antes, a única imagem que se tinha era daquelas câmeras fixas do governo norte-americano”.

Quando a notícia interfere na programação

Durante toda a manhã, os correspondentes internacionais da Globo fizeram entradas ao vivo, direto de Nova York, atualizando as informações e relatando aquilo a que estavam assistindo in loco. Pouco depois do ataque às torres, Edney Silvestre e o cinegrafista Orlando Moreira seguiram para a área dos atentados , onde a situação era caótica. “Dentro da área havia muita fumaça e não se enxergava nada”, lembra o repórter. “A polícia não queria deixar que a gente passasse, nem de um lado, nem do outro, porque, obviamente, a cena era terrível. Orlando Moreira e eu tivemos que ir nos desviando para chegar até o local”, relembra Edney. O repórter Jorge Pontual esteve na Times Square e entrevistou as pessoas assustadas nas ruas.

Outro momento de grande impacto foi quando as pessoas começaram a se jogar do alto dos prédios, situação muito difícil para qualquer emissora de televisão. “Mas, naquele momento, não havia como decidir não transmitir, era impossível, tudo acontecia com uma rapidez muito grande. O que evitamos fazer foi repetir as cenas”, lembra Schroder.

Naquele dia, a primeira edição dos telejornais regionais e o Globo Esporte não foram exibidos. A programação normal da Globo só voltou a ser apresentada depois do final da cobertura do jornal Hoje (a narração ao vivo dos eventos se transformou no jornal Hoje daquele dia). Durante a tarde, Nascimento e Ana Paula Padrão permaneceram na bancada do telejornal, fazendo entradas ao vivo a cada intervalo comercial.

Imagens inesquecíveis

O momento de maior perplexidade foi quando a primeira torre ruiu. “Hoje, parece óbvio que elas cairiam. Mas, naqueles momentos, nada era óbvio. Parecia que ficaríamos vendo por muito tempo as duas torres pegando fogo, muito desespero, cenas já dantescas por si mesmas. Mas, de repente, a primeira torre ruiu, com a cena sendo descrita por Carlos Nascimento. Num primeiro instante, fração de segundos, houve a dúvida sobre o que era toda aquela poeira. Mas o Nascimento e o mundo logo perceberam. Era a primeira torre caindo. E, pouco tempo depois, a outra”, lembra Ali Kamel.

De fato, tudo ali era superlativo. “Nós, e o mundo, não tínhamos tempo para respirar, para digerir a tragédia imediatamente anterior. Mas a diferença é que, enquanto o mundo assiste, nós temos de assistir e trabalhar ao mesmo tempo, buscando explicações, análises. A sucessão de eventos é sem igual, quem poderá dizer o que foi mais chocante? Primeiro um avião se lança contra uma torre; depois, ao vivo, outro bate contra a segunda torre. Os prédios ardem em chamas, pessoas se jogam do alto. Em seguida, vem a notícia do ataque ao Pentágono, a gente corta a imagem e mostra ao mundo o centro militar mais poderoso do planeta parcialmente destruído. Depois, diante dos nossos olhos, e contra as expectativas, uma torre cai, depois a outra. E, por fim, a notícia da queda do avião na Pensilvânia. Tudo isso ao vivo, tudo isso muito rápido, diante dos olhos do mundo e nos obrigando a trabalhar horas seguidas não como meros espectadores, mas como transmissores de tudo aquilo, com a obrigação de narrar, informar, analisar. Foi uma jornada histórica”, lembra Schroder.

Jornal Nacional histórico

“Onze de setembro de 2001: uma terça-feira que vai marcar a História da humanidade. A maior potência do planeta é alvejada pelo terror.” Assim William Bonner e Fátima Bernardes anunciavam o Jornal Nacional daquela noite, que apresentou uma edição especial com uma hora de duração. Seu noticiário bateu o recorde de audiência daquele ano. De cada 100 televisores ligados no país no horário, 74 estavam sintonizados na Globo. Segundo William Bonner, a edição do JN foi um trabalho heróico: “Todo o mundo se envolveu, aqui e no exterior, e o resultado foi uma riqueza de informações brutal. Essa equipe pequena conseguiu se mexer para fazer história. Eu acho que nada se compara àquilo”.

Além de contar com a participação dos correspondentes de Nova York, Washington, Londres e Beirute, com reportagens e imagens exclusivas, o telejornal exibiu entrevistas com analistas políticos e especialistas em relações internacionais que não hesitaram em afirmar que o mundo seria outro depois daquela terça-feira. Aquela fora a maior agressão externa sofrida pelos Estados Unidos em seu território. No ataque ao WTC, 2.823 pessoas morreram, entre elas policiais e bombeiros que trabalhavam antes de os prédios desabarem. Somando-se todas as vítimas, inclusive as do Pentágono e do avião na Pensilvânia, 3.056 pessoas morreram nos atentados terroristas de 11 de setembro.

Já naquele dia o nome de Osama Bin Laden apareceu como suspeito de chefiar os atentados a Nova York e Washington. O terrorista, um dos mais procurados do mundo, já havia sido responsabilizado por um ataque a bomba ao próprio World Trade Center em 1993, que matara seis pessoas e deixara mais de mil feridos.

Emmy

Em outubro de 2002, o Jornal Nacional foi indicado pela Academia Nacional de Artes e Ciências da Televisão dos Estados Unidos ao prêmio Emmy Internacional, pela cobertura dos atentados de 11 de setembro. Trabalhos do mundo inteiro concorreram ao prêmio, uma espécie de Oscar da televisão para emissoras estrangeiras. A Globo foi uma das quatro finalistas, ao lado da alemã RTL e das britânicas ITN e BBC. A vencedora, no entanto, acabou sendo a Rede BBC, que concorreu com sua série de reportagens sobre a tomada de Cabul pelas tropas americanas.

Schroder avalia que o sucesso daquela cobertura teve um significado especial para todos na Central Globo de Jornalismo: “Eu tinha assumido havia pouco tempo. O Ali Kamel era recém-chegado. Em agosto, durante o sequestro de Silvio Santos, já tínhamos ficado sete horas ao vivo no ar. Foi como um treino do que viria pouco tempo depois, mas nada comparável ao 11 de setembro. Foi com o ataque às torres gêmeas que pudemos dar uma prova de que a equipe sempre esteve unida, preparada, e que a mudança de comando na CGJ foi, de fato, uma mudança na continuidade”.

A resposta dos EUA

A primeira reposta do governo de George W. Bush aos atentados de 11 de setembro foi atacar o regime talibã que protegia a rede terrorista comandada por Osama Bin Laden. Com o apoio de governos de 56 países e da maioria do povo americano, os Estados Unidos iniciaram a ofensiva militar contra o Afeganistão no dia 7 de outubro.

E março de 2003, os EUA bombardearam Bagdá, capital do Iraque, deflagrando mais uma guerra no Golfo Pérsico. Com a justificativa de estarem atrás de armas de destruição em massa, as tropas norte-americanas invadiram o país de Saddam Hussein.

Em maio de 2011, quase uma década depois dos atentados, o sucessor de Bush, Barak Obama, anunciou que Osama Bin Laden estava morto. O terrorista fora encontrado num esconderijo a cem quilômetros de Islamabad, capital do Paquistão, graças ao trabalho de investigação minucioso do serviço secreto norte-americano. 

Dez anos depois

Dez anos após os atentados ao World Trade Center, o Jornal Nacional exibiu uma série de reportagens sobre o tema, produzida por seus correspondentes nos Estados Unidos. Na primeira reportagem, apresentada no dia 5 de setembro de 2011, Rodrigo Bocardi mostrou como os ataques modificaram os conceitos de segurança em todo o planeta. A convite do governo norte-americano, o repórter também visitou a base de Guatânamo, em Cuba, onde foram presos afegãos e iraquianos acusados de ligação com a rede terrorista Al Qaeda.

No dia seguinte, Luís Fernando Silva Pinto falou sobre os custos financeiro e humano das duas guerras – Afeganistão e Iraque – que se seguiram aos atentados. Os impactos dos ataques de 11 de setembro na comunidade muçulmana nos EUA foram o tema da reportagem de Elaine Bast.
Os repórteres Marcos Uchoa e Edu Bernardes viajaram ao Afeganistão para mostrar como estava o país longe do domínio dos talibãs. Na última reportagem da série, exibida no dia 10, a correspondente Giuliana Morrone falou sobre a reconstrução de Nova York e seus habitantes. A repórter também visitou o canteiro de obras onde ficavam as torres do World Trade Center e mostrou o novo prédio, ainda em construção, que será erguido no local.


Globo 50 Anos – coberturas: Chegada do homem à Lua

Em 20 de julho de 1969, os primeiros passos do astronauta Neil Armstrong na lua são transmitidos via satélite para o mundo inteiro.


A HISTÓRIA


A nave norte-americana Apollo 11 cumpriu a missão mais importante da corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética, iniciada no final dos anos 1950. Horas depois do módulo da nave Eagle ter pousado na planície lunar do Mar da Tranquilidade, o astronauta e comandante da missão, Neil Armstrong, dava os primeiros passos na superfície da Lua.

DESTAQUES

Transmissões via satélite

Em 28 de fevereiro de 1969, o Brasil ingressou na era das transmissões via satélite. Naquele dia, a Embratel inaugurou, no município fluminense de Itaboraí, a Estação Terrena de Comunicação Via Satélite. A data foi programada para que fosse possível transmitir a missão da nave espacial Apollo 9: testar o módulo de exploração que permitiria o envio de astronautas à Lua.

A bordo da Apollo 9

Antes da missão espacial, a Globo distribuiu um anúncio intitulado “O Brasil estará a bordo da Apollo 9” em nome das Emissoras Associadas e Rede Globo de Televisão: “Você assistirá a todos os lances do espetacular voo da Apollo 9, desde o seu lançamento em Cabo Kennedy, o audacioso acoplamento no espaço, até a sua emocionante descida no Pacífico. Você estará participando de todos esses acontecimentos no mesmo instante em que eles estarão ocorrendo. Trezentos milhões de televisores, espalhados pelo mundo inteiro, estarão acompanhando esse feito maravilhoso, no maior ‘pool’ mundial de televisão. Oito dias de transmissão direta da Apollo 9 para o Brasil inteiro: Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Porto alegre, Curitiba, Recife, Vitória, Belém, Fortaleza, Salvador, Goiânia, Brasília, Juiz de Fora e Bauru, comandados pela TV Globo.”

Primeira transmissão via satélite

O voo da Apollo 9 foi adiado por problemas técnicos, mas nem por isso a estação da Embratel deixou de ser inaugurada. Às 11h, Hilton Gomes apresentou, “direto de Roma”, uma entrevista concedida pelo Papa Paulo VI, gravada na véspera: “Esta é a primeira reportagem internacional via satélite para o Brasil, inaugurando, oficialmente, o Intelsat III, numa transmissão em cadeia para todo o Brasil, comandada pela Embratel”.

Em um português quase perfeito, o Papa falou durante três minutos e abençoou o povo brasileiro. Logo depois, foram exibidos lances de um jogo de futebol do clube italiano Juventus. O objetivo era que o telespectador tivesse uma ideia de como seria a transmissão da Copa do Mundo de 1970, realizada no México.

Mundo novo da televisão

O lançamento da Apollo 9 ocorreu, finalmente, em 3 de março, e foi transmitido ao vivo, via satélite. À noite, Hilton Gomes abriu o Jornal da Globo saudando “o admirável mundo novo da televisão via satélite”, que permitia ao telespectador assistir ao vivo aos acontecimentos internacionais: “Agora o fato entra na sua casa instantaneamente, como ocorreu hoje à tarde, precisamente há uma hora, quando um extraordinário sistema de comunicações, incluindo a NBC, o satélite Intelsat, a Embratel, as Emissoras Associadas e a Rede Globo de Televisão, lhe mostrou imagens de impressionante nitidez do lançamento da Apollo 9 nos Estados Unidos.”

Salto gigantesco para a humanidade

Pouco mais de três meses após a missão da Apollo 9, o mundo acompanha a aterrisagem da Apollo 11 na lua. Ao tocar o solo, Neil Armstrong pronuncia a célebre frase: “É um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade.” Eram 23h56, horário de Brasília. A Globo transmitia, sem interrupções, as imagens de Armstrong caminhando sobre a superfície da Lua, seguido por Edwin Aldrin Jr.

Mais de 600 milhões de pessoas no mundo inteiro assistiam ao espetáculo, ao vivo, pela TV. A Apollo 11 havia entrado na órbita da Lua no dia anterior. Em edições extraordinárias, a Globo informava sobre as manobras de aproximação do módulo lunar. Enquanto Armstrong e Aldrin comandavam o Eagle, um terceiro astronauta, Michael Collins, permanecia na nave-mãe.

Narração emocionante

“As emoções iam surgindo enquanto eles falavam” Hilton Gomes sobre a transmissão da chegada à lua

O repórter Hilton Gomes narrou a chegada dos astronautas direto dos estúdios da Globo, no Jardim Botânico. Um trabalho marcante, como ele mesmo conta: “Acompanhamos o lançamento da Apollo 11, eu e a equipe lá em Cabo Kennedy, depois voamos para o Rio e fomos direto para o estúdio. Quando chegamos, a nave estava se aproximando da Lua e tivemos que narrar simultaneamente o diálogo dos três astronautas. E, com toda aquela preocupação, as emoções iam surgindo enquanto eles falavam”.

“Armação”

A perfeição das imagens na transmissão foi tal que levou alguns telespectadores a duvidar de que o homem tivesse realmente pisado na Lua. Enquanto havia aqueles que julgavam tratar-se de uma farsa dos norte-americanos, outros chegavam a pensar que era uma “armação” da Globo, como testemunhou o próprio Hilton Gomes. Ao tomar um café no bar da esquina, a moça que sempre o atendia olhou o jornalista com cara feia e disparou: “Você é um mentiroso! O homem não foi à Lua coisa nenhuma!”. Como outros fregueses também olhavam desconfiados, Hilton Gomes desistiu do café e saiu de fininho.

Liderança da Globo

Graças à transmissão da façanha espacial, a Globo ocupou, pela primeira vez, a liderança na audiência na cidade de São Paulo. A emissora, até então considerada excessivamente carioca, ganhava definitivamente a simpatia dos paulistanos.

Em setembro de 1969, a Globo já detinha a liderança absoluta de audiência: apresentava nove entre os dez programas mais assistidos no Rio e três entre os dez de São Paulo. Em 1971, a Rede Globo passou a exibir os dez programas mais assistidos nas duas capitais.

FONTES

MEMÓRIA GLOBO. Jornal Nacional, a notícia faz história. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005; Jornal da Globo (20/06/1969; 28/02/1969; 03/03/1969) Sites: http://pt.wikipedia.org/wiki/Apollo_9




Globo 50 Anos – coberturas: Tancredo – Eleição e Morte

Após quase 40 dias de agonia, e comoção nacional, Tancredo Neves morreu em 21 de abril de 1985, sem nunca assumir o cargo para o qual fora eleito.


A HISTÓRIA

Após a derrota da emenda Dante de Oliveira, líderes peemedebistas se articularam com parcelas do PDS (Partido Democrático Social) e formaram a Aliança Democrática para disputar, em 15 de janeiro de 1985, as eleições para presidente da República no Colégio Eleitoral. Como candidato daquela frente partidária, Tancredo Neves conseguiu vencer, por 480 votos contra 180, o candidato governista Paulo Maluf.

A eleição de Tancredo Neves, apesar de indireta, foi recebida com grande entusiasmo pela maioria dos brasileiros. Afinal, ele seria o primeiro presidente civil do país depois de mais de 20 anos. O presidente eleito, no entanto, jamais assumiu o governo. Na véspera da sua posse, foi internado no Hospital de Base, em Brasília, com fortes dores abdominais. O seu vice, José Sarney, assumiu a Presidência no dia seguinte, em 15 de março de 1985.

EQUIPE E ESTRUTURA

O Jornalismo da Globo cobriu amplamente a doença e o padecimento de Tancredo Neves. Além disso, o planejamento da edição especial do Jornal Nacional mobilizou quase todo o jornalismo da emissora.

Já no dia 12 de abril, frente ao agravamento da saúde de Tancredo Neves, o diretor de telejornais de rede, Woile Guimarães, nomeou Luís Edgar de Andrade, chefe de redação, como responsável pelo esquema de colocação do JN especial no ar. Era sua incumbência a escalação das equipes de plantão (chefes e subchefes dos estúdios, redatores, produtores, apresentadores e entrevistadores) e a checagem das escalas do Centro de Produção de Notícias, de toda a estrutura da Divisão de Operação e da Engenharia. Deveria também controlar a passagem de um turno de plantão ao outro, sempre pessoa a pessoa, função a função. Além disso, tinha que realizar testes de prontidão nos estúdio do Rio de Janeiro, de São Paulo e Brasília. Os testes eram completos, indo desde a leitura das primeiras páginas do script até a checagem das matérias nos equipamentos de VT.

Participaram da cobertura os repórteres André Luiz Azevedo, Carlos Tramontina, Caco Barcellos, Carlos Dorneles, Tonico Ferreira, Ana Terra, Leila Cordeiro, Sandra Moreyra, Neide Duarte, Leonel Da Mata, Fernanda Esteves, Valéria Sffeir, Geraldo Canali, Álvaro Pereira e Pedro Rogério, entre outros. O repórter Carlos Nascimento destacou-se por sua capacidade de entrar ao vivo no Jornal Nacional e narrar longos textos de improviso, sem erro. A equipe contou com a ajuda de profissionais da Divisão de Esportes e de emissoras afiliadas à Globo.

As equipes trabalharam intensamente durante o período em que Tancredo Neves ficou internado.Tonico Ferreira lembra: “Eu achava, no final, que a gente ia morrer junto com ele de tão cansados que ficávamos. Que coisa inacreditável, como é que a gente podia imaginar! Eu fui dormir achando que no dia seguinte ia fazer a cobertura da posse. Estava tudo preparado: as divisões de matérias, quem iria fazer o quê. E à noite ficamos sabendo que o homem tinha ido para o Hospital de Base. Uma parte da equipe ficou cobrindo a doença do Tancredo e outra cobriu a posse do Sarney. Depois, o Tancredo Neves foi transferido de Brasília para São Paulo, foi para o Incor. Nós ficamos não sei quanto tempo – para mim, pareceu uma eternidade – na frente daquele hospital. Foi um momento que a Globo brilhou com entradas ao vivo muito importantes, tanto do Tramontina quanto do Nascimento, que davam diariamente todo o noticiário com detalhes sobre qual era o antibiótico que Tancredo estava tomando. Foi muito difícil aquela cobertura e muito dramática: as pessoas ali na frente, o país parado. Foi uma cobertura inesquecível pelo lado triste e pelo cansativo.”

Isabela Assumpção concorda: “Foi uma coisa monstruosa aquilo. A gente tinha escalas para ficar na frente do Incor. Um repórter ia rendendo o outro por horário. Eu me lembro que peguei um turno que começava à meia-noite e ia até de manhã. Durante muitos dias, fiquei nesse turno. Dava até para dormir um pouco dentro do carro. Os técnicos das UPJs (Unidades Portáteis de Jornalismo) ficavam acordados, se acontecesse alguma coisa, eles avisavam.”

Apesar do cansaço, o período também foi de grande aprendizado para os jornalistas, como explica Carlos Tramontina: “Foi um período em que nós vivemos uma experiência importante. Importante porque o país acompanhava tudo que ocorria na porta do Instituto do Coração e nós evoluímos profissionalmente, aprendemos com a necessidade de falar sobre coisas complicadas de maneira simples para serem compreendidas pela população. E as pessoas ficavam esperando os nossos telejornais para saber quais eram os níveis de potássio, de creatinina no organismo do presidente. Assuntos que eram absolutamente técnicos e altamente específicos passaram a fazer parte do dia-a-dia das pessoas.”

Após o enterro de Tancredo, Luís Edgar de Andrade escreveu uma carta à redação, na qual agradecia a colaboração dos diferentes profissionais que realizaram um verdadeiro mutirão de telejornalismo: “Merecem meu cumprimento especial aqueles que, repetidamente, dobraram o expediente, trabalhando 12, 14 e até 16 horas por dia, com sacrifício do lazer e do convívio com a família. Quero lembrar também os que vararam madrugadas, de script na mão, no estúdio ou no controle E/F, e os que passaram muitas noites editando nas ilhas do ENG, que nunca pareceram tão frias como nestas noites de abril.”

DESTAQUES

O padecimento de Tancredo Neves

Jornal Nacional exibiu matérias sobre a doença de Tancredo Neves desde o dia 14 de março, além de boletins ao vivo sobre seu estado de saúde. A princípio, essas matérias dividiam espaço com outras sobre a implantação da Nova República. Mas, aos poucos, a saúde do presidente foi ocupando praticamente todo o noticiário. O Brasil viveu um clima de comoção nacional, acompanhando a agonia de Tancredo, desde a sua transferência de emergência para São Paulo até a série de sete operações a que foi submetido.

As contínuas manifestações de solidariedade da população em frente ao Instituto do Coração, em São Paulo, davam um ar mais dramático aos acontecimentos. O país passou semanas aguardando ansiosamente pelos boletins sobre a saúde do presidente, lidos diariamente pelo jornalista Antônio Britto, que deixara o cargo de editor-regional da Globo de Brasília e assumira o de porta-voz da Presidência. Naquele período, o JN contava sempre com a entrada de um repórter – em geral, Carlos Nascimento – direto do hospital. O último bloco do noticiário, com cerca de 15 minutos, era dedicado integralmente ao assunto.

Depois de 39 dias de agonia, em 21 de abril, Tancredo Neves morreu no Instituto do Coração, vítima de infecção generalizada. O comunicado oficial do seu falecimento foi feito às 22h30, porAntônio Britto. Como era domingo, a notícia da morte foi dada no Fantástico. Carlos Tramontina, que estava no hospital, deu ao vivo a informação.

Jornal Nacional especial

Logo em seguida ao Fantástico, foi ao ar um Jornal Nacional especial. Apresentado por Sérgio Chapelin, o programa teve aproximadamente quatro horas de duração. Foram exibidos uma retrospectiva dos fatos, desde a eleição de Tancredo no Colégio Eleitoral até a repercussão da sua morte, e um resumo da sua trajetória política, mostrando sua experiência como ministro da Justiça de Getúlio Vargas e como primeiro-ministro em 1961-62, a eleição para o governo de Minas Gerais em 1982 e sua decisiva participação na campanha das diretas.

Foram realizadas várias entrevistas, algumas delas no próprio estúdio da Globo, no Rio de Janeiro, com políticos e personalidades, como o sociólogo Gilberto Freyre. O historiador Raimundo Faoro falou ao repórter Paulo Henrique Amorim sobre questões legais relativas à permanência do vice José Sarney como presidente. Sobre o mesmo assunto, o professor de direito constitucional Célio Borja foi entrevistado por Leda Nagle. Pelo telefone, a repórter também conversou com o jurista Afonso Arinos.

Artistas e personalidades de diferentes áreas deram seus depoimentos e prestaram homenagens a Tancredo Neves. A cantora Fafá de Belém inovou ao cantar o Hino Nacional com acompanhamento de apenas um piano, que executou um arranjo e um andamento diferentes do usual. Uma videocharge de Chico Caruso mostrou o rosto de Tancredo numa bola de gás que subia aos céus.

Terminada a edição especial do Jornal Nacional, a Globo continuou apresentando plantões com as últimas informações sobre a repercussão da morte de Tancredo.

O cortejo fúnebre e o enterro

No dia seguinte, a Globo mostrou imagens do cortejo fúnebre do Instituto do Coração ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Uma multidão de dois milhões de pessoas se despediu de Tancredo Neves nas ruas da capital paulista. O telejornal acompanhou todo o trajeto do corpo em Brasília e em Belo Horizonte, mostrando de perto as demonstrações de carinho e tristeza da população.

O enterro de Tancredo Neves em São João del Rei, no dia 24 de abril de 1985, foi transmitido ao vivo pela Globo. A editora Sílvia Sayão lembra que a montagem do equipamento para a transmissão foi bastante complicada e durou quase um dia inteiro. No desfecho do sepultamento, o repórter Carlos Nascimento interrompeu a narração, e as imagens mostraram o vagaroso trabalho do coveiro João Aureliano, cercado de autoridades e parentes de Tancredo.

Nascimento relembra o episódio: “O enterro foi à noitinha, às sete horas mais ou menos. Durante a tarde, Boni queria esquentar a programação e me mandou narrar o que estava acontecendo. Só que não estava acontecendo nada, porque os políticos iam começar a chegar depois. Mas ele me mandava falar. Eu ia, subia no telhado e pensava: ‘Vou falar o que meu Deus?’ Aí, eu narrava as montanhas de São João del Rei, o pôr-do-sol, descrevia e falava do Tancredo e o sino tocava… e ficava aquela coisa poética. E o Boni falava: ‘Ah, está ótimo!’ E foi assim a tarde inteira. Até que, finalmente, à noite, houve o sepultamento e aquela cena incrível do sujeito com a pá. Quando eu comecei a falar, o Boni disse: ‘A única hora que não é para falar é agora! Deixa, deixa!’ Então ficou aquele som do coveiro.”

FONTES

Depoimentos concedidos ao Memória Globo por: Carlos Nascimento (10/05/2002), Carlos Tramontina (27/01/2004), Isabela Assumpção (12/11/2008) e Tonico Ferreira (16/03/2004). Jornal Nacional: a notícia faz história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.