Personagens Inesquecíveis: Roque Santeiro – Roque Santeiro (1985)

Esse personagem despensa apresentações, né?

Roque Santeiro (o saudoso José Wilker), o grande mito de Asa Branca, filho do beato Salu (Nelson Dantas), irmão de João Ligeiro (Maurício Mattar) por parte de pai, e ex-namorado de Mocinha (Lucinha Lins). Ganhou o apelido devido à habilidade inata de modelar santos. Como o ofício foi interpretado como vocação religiosa, o rapaz chegou a ser sacristão. Era tímido, mas imaginoso, com talento para contar histórias. Seu sonho era sair da cidade e ganhar o mundo, carregando consigo um impulso aventureiro. Tornou-se o herói de Asa Branca quando a cidade foi invadida por bandidos, que ocuparam a prefeitura, exigindo resgate. Todos fugiram, mas ele permaneceu, defendendo o ostensório da igreja. Por isso teria sido morto, e seu corpo jogado no rio. Tempos depois, apareceu para uma menina doente, que logo ficou curada, e assim o mito teve início, levando Asa Branca a ser visitada por fiéis de todo o Brasil. A história verdadeira, porém, não é bem essa.

RELEMBRE MOMENTOS DO PERSONAGEM:

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Reviva: A trajetória de Yoná Magalhães, a primeira mocinha da Globo

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Atriz do mítico Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Yoná Magalhães, quem diria?, entrou para a vida artística por acaso, apenas para ajudar a família quando o pai ficou desempregado. “Eu tinha que ajudar de alguma maneira, não sabia muito como, queria continuar os meus estudos. Gostava de brincar de teatro, essas coisas que todo mundo faz. Então eu digo: ‘Quem sabe não é por aí, né?’ Fui fazendo pequenas pontas, pequenos papéis, isso em meados da década de 1950, até que consegui um contrato com a Rádio Tupi”. Yoná Magalhães Gonçalves nasceu no dia 7 de agosto de 1935, no Lins de Vasconcelos, subúrbio do Rio de Janeiro. Depois de sua passagem pelo rádio, teve a primeira chance de estrelar uma telenovela, convidada por Antônio Leite – ainda antes do advento do videoteipe. Em seguida, participou de novelas e do Grande Teatro da TV Tupi e excursionou pelo Brasil com as peçasO Amor é Rosa Bombom e Society em Baby-Doll, em 1962, com a companhia de André Villon e Ciro Costa.

Durante a turnê teatral, conheceu e se casou com o produtor Luis Augusto Mendes e foi morar na Bahia. Em Salvador, participou com o grupo A Barca, formado por ex-alunos da Escola de Teatro, do Grande Teatro, na TV Itapoã, sob a direção de Luiz Carlos Maciel. Também atuou no filme de Glauber Rocha, um marco do Cinema Novo: “Eu não estava engajada em nada, eu não consegui perceber a grandeza daquela obra, não consegui perceber o significado. Também ninguém esperava que fosse o que foi”. De volta ao Rio em 1964, continuou trabalhando em teatro, chegando a montar sua própria companhia, com a qual encenou O Pecado Imortal e Os Inimigos Não Mandam Flores, de Pedro Bloch.

Yoná Magalhães fez parte do primeiro elenco da TV Globo. Contratada em 1965, protagonizou a novela Eu Compro Esta Mulher (1966), de Glória Magadan, onde formou o primeiro par romântico de sucesso da emissora com o ator Carlos Alberto. “A audiência deu um pulo astronômico. Eu não sei bem esse mistério da dupla romântica, mas na época causava grande frisson.

A identificação era muito grande, porque aquela dupla continuava, então aquilo era de verdade”. A atriz trabalhou ainda em outras novelas da mesma autora, como O Sheik de Agadir (1966), A Sombra de Rebecca (1967), O Homem Proibido (1968), A Gata de Vison (1968/1969), quando contracenou com Tarcísio Meira, e A Ponte dos Suspiros (1969).

Ela e Carlos Alberto se transferiram para a Tupi de São Paulo, em 1971, para participar deSimplesmente Maria, dirigida por Walter Avancini. No ano seguinte, já de volta à Globo, atuou em Uma Rosa com Amor, de Vicente Sesso, em que disputava com Marília Pêra as atenções de Paulo Goulart. Depois, juntou-se a Tarcísio Meira, Glória Menezes, Francisco Cuoco em O Semideus (1973), de Janete Clair, sob a direção de Daniel Filho e Walter Avancini. Em Espelho Mágico (1977), de Lauro César Muniz, interpretou Nora Pelegrini, uma ex-estrela que amargava papéis coadjuvantes; e em Sinal de Alerta (1978), de foi a jornalista Talita, proprietária da Folha do Rio, jornal que lidera uma campanha contra a deterioração do meio ambiente.

No final da década de 1970, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou na TV Tupi, atuando na novela Gaivotas (1979), de Jorge Andrade, e na Bandeirantes, participando das novelas Cavalo Amarelo (1980), de Ivani Ribeiro, Os Imigrantes (1981), de Benedito Ruy Barbosa, Wilson Aguiar Filho e Renata Palottini, e Maçã do Amor(1983), de Wilson Aguiar Filho. De volta ao Rio e à Globo em 1984, viveu a americanófila Maria das Graças – ou Grace –, em Amor com Amor se Paga, de Ivani Ribeiro.

No ano seguinte, esteve no elenco de uma das novela de maior sucesso da história da emissora: Roque Santeiro, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva. Nela, interpretou a Matilde, dona da boate onde trabalham as dançarinas Ninon (Cláudia Raia) e Rosaly (Isis de Oliveira). “Eu falava: ‘Pô, não podia também cantar um pouco? Eu danço um bocadinho…’. E aí começou aquela coisa: ‘Ih, a Yoná, olha a Yoná está de malha, olha a perna!’. Enfim, aconteceu o nunca esperado por ninguém, nem por mim, que foi o convite da Playboy para fotografar. Por causa da Matilde do Roque Santeiro, você vê? Foi uma coisa espantosa para as pessoas, mas eu já sabia que eu tinha perna há muito tempo”. A seguir, participou da novela O Outro (1987), de Aguinaldo Silva, na qual viveu outra personagem exuberante, a Índia do Brasil.

Nos anos 1990, atuou em quatro novelas de Walther Negrão:Despedida de Solteiro (1992), Anjo de Mim (1996), Era uma Vez… (1998) e Vila Madalena (1998). Em Senhora do Destino (2004), de Aguinaldo Silva, foi Flaviana, sogra de Giovanni Improtta (José Wilker). Em Paraíso Tropical (2007), de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, deu vida à ex-vedete Virgínia, mulher do malandro Belisário Cavalcanti (Hugo Carvana), com quem praticava pequenos golpes. Atuou ainda em Negócio da China (2008), de Miguel Falabella, e Cama de Gato (2009), de Thelma Guedes e Duca Rachid. Em 2013, interpretou a decadente socialite Glória Pais em Sangue Bom.

A atriz participou também de importantes minisséries da Globo, como Grande Sertão: Veredas (1985), adaptada da obra de Guimarães Rosa por Walter George Durst, e Engraçadinha… Seus Amores e Seus Pecados (1995), adaptada da obra de Nelson Rodrigues por Leopoldo Serran, e atuou em diversos seriados, entre os quais a segunda versão de Carga Pesada e Tapas & Beijos.

De sua carreira no teatro, a atriz destaca as montagens de Terror e Miséria, de Bertolt Brecth; Os Físicos, de Durremat; Os Inimigos Não Mandam Flores, de Pedro Bloch; Balbina de Inhansã, de Plínio Marcos;Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues; Mulher Integral, de Carlos Eduardo Novaes; Falcão Peregrino, de Vicente Pereira; Vagas para Moças de Fino Trato, de Alcione Araújo; A Partilha, de Miguel Falabella; e O Milagre da Santa, Vicente Pereira. No cinema, além de Deus e o Diabo e de uma versão de Society em Baby-Doll, dirigida por Waldemar Lima e Luiz Carlos Maciel, atuou ainda em Alegria de Viver(1958), de Watson Macedo, e Pista de Grama (1958), de Haroldo Costa.

Yoná Magalhães morreu no dia 20 de outubro de 2015, no Rio de Janeiro, aos 80 anos.
[Depoimento concedido ao Memória Globo por Yoná Magalhães em 14/06/2000.]

GALERIA DE FOTOS DE YONÁ:


Pelas Trilhas das Novelas: Dona – Roupa Nova (Roque Santeiro, 1985 – 1ª edição)

Música: Dona
Cantor (a): Roupa Nova
Novela: Roque Santeiro (1985)
Tema de: Viúva Porcina (Regina Duarte)

Letra

Dona desses traiçoeiros
Sonhos sempre verdadeiros
Oh! Dona desses animais
Dona dos seus ideais

Pelas ruas onde andas
Onde mandas todos nós
Somos sempre mensageiros
Esperando tua voz

Teus desejos, uma ordem
Nada é nunca, nunca é não
Porque tens essa certeza
Dentro do teu coração

Tan, tan, tan, batem na porta
Não precisa ver quem é
Pra sentir a impaciência
Do teu pulso de mulher

Um olhar me atira à cama
Um beijo me faz amar
Não levanto, não me escondo
Porque sei que és minha
Dona!

Dona desses traiçoeiros
Sonhos sempre verdadeiros
Oh! Dona desses animais
Dona dos seus ideais

Não há pedra em teu caminho
Não há ondas no teu mar
Não há vento ou tempestade
Que te impeçam de voar

Entre a cobra e o passarinho
Entre a pomba e o gavião
Ou teu ódio ou teu carinho
Nos carregam pela mão

É a moça da Cantiga
A mulher da Criação
Umas vezes nossa amiga
Outras, nossa perdição

O poder que nos levanta
A força, que nos faz cair
Qual de nós ainda não sabe
Que isso tudo te faz
Dona! Dona!
Dona! Dona! Dona!


Globo 50 Anos: Roque Santeiro

Sátira à exploração política e comercial da fé popular, a novela marcou época apresentando uma cidade fictícia como um microcosmo do Brasil. A cidade é Asa Branca, onde os moradores vivem em função dos supostos milagres de Roque Santeiro (José Wilker), um coroinha e artesão de santos de barro que teria morrido como mártir ao defender a cidade do bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro). O falso santo, porém, reaparece em carne e osso 17 anos depois, ameaçando o poder e a riqueza das autoridades locais.

No dia em que o bando de Navalhada invadiu Asa Branca, todos os habitantes fugiram apavorados, enquanto Roque Santeiro desapareceu, sendo dado como morto. Logo após o incidente, uma menina que conseguiu sobreviver e disse ter visto o rapaz em uma visão. A notícia se espalhou, e Roque, tido como salvador da garota, foi santificado. Uma estátua em homenagem ao herói foi erguida em praça pública, e a população logo passou a lhe atribuir curas e milagres.

A volta de Roque Santeiro e o reconhecimento de que tudo não passou de uma farsa significaria o fim do mito, prejudicando os interesses de todos os beneficiários da mentira, e também colocando em risco a sustentação da cidade.

Os representantes das forças políticas, religiosas e econômicas de Asa Branca se dividem entre os que defendem que a verdade deve ser revelada e os que querem manter o falso milagre porque precisam dele para sobreviver. Entre os que se sentem ameaçados com a volta de Roque estão o conservador padre Hipólito (Paulo Gracindo), o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), o comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus) – principal explorador da imagem do santo – e o temido fazendeiro Sinhozinho Malta (Lima Duarte), amante da pretensa viúva do santo, a fogosa Porcina (Regina Duarte). Incentivada por Sinhozinho, Porcina – que sequer conhecia Roque – espalhou a mentira de que havia se casado com o santeiro, e acabou se transformando em patrimônio da cidade. Quando conhece Roque, apaixona-se de fato por ele, formando com Sinhozinho e o santo o principal triângulo amoroso da trama.

A chegada de Roque Santeiro também atinge em cheio a vida de outra moradora de Asa Branca: Mocinha (Lucinha Lins), a verdadeira noiva de Roque. Mocinha nunca se conformou com o desaparecimento do noivo e esperou anos por seu amor, mantendo-se casta. Ao revê-lo, sua paixão reacende e ela se enche de esperança. Filha do prefeito e da beata Dona Pombinha (Eloísa Mafalda), ela é cortejada pelo soturno professor Astromar Junqueira (Rui Resende). Com o retorno do amado, Mocinha finalmente se entrega a ele, liberando sua sexualidade reprimida. Mas a personagem enlouquece ao término da história, perambulando pela cidade vestida de noiva.

 No capítulo final da novela, após muitas tensões e reviravoltas, Roque Santeiro concorda em deixar a cidade. O mito não é desfeito, e o povo de Asa Branca segue acreditando em seu santo. A dúvida sobre com quem Porcina vai ficar perdura até a última cena, que lembra o clássico Casablanca (1942), de Michael Curtiz. A viúva não sabe se embarca com Roque num avião ou continua na cidade ao lado de Sinhozinho Malta. Diferentemente da personagem de Ingrid Bergman no filme, porém, ela decide ficar com o coronel.

PRODUÇÃO

Efeitos sonoros ajudaram a caracterizar alguns personagens deRoque Santeiro. Quando Sinhozinho Malta (Lima Duarte) estava nervoso, sacudia o relógio e as pulseiras de ouro que trazia no braço, e ouvia-se o som de uma cascavel, misturado ao som do chocalho das pulseiras. O bordão – “Tô certo ou tô errado?” – completava a ação do coronel. Já no tique nervoso de Zé das Medalhas (Armando Bógus), que vivia esticando o queixo, ouvia-se o barulho de ossos estalando. Outro efeito sonoro marcante era o que pontuava as cenas em que Sinhozinho Malta demonstrava como decepava a parte íntima de seus inimigos e de seus bois. O gesto vinha acompanhado do som de uma guilhotina.

CENAS MARCANTES

A empatia entre Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e Viúva Porcina (Regina Duarte), protagonistas de cenas memoráveis, conquistou o público. As hilárias brigas do casal, que vivia uma conturbada relação, faziam muito sucesso. Sinhozinho, para pedir perdão à amada, chegou a ficar de quatro e lamber a mão de sua “dona”, imitando um cachorro.

Os ataques e as manias de Porcina também renderam cenas preciosas. Extravagante e cheia de si, ela vivia levantando os seios com as mãos e limpando os cantos da boca borrados pelo batom escandaloso. Exagerada, não conseguia chamar pela empregada (Ilva Niño) a não ser com o estridente grito: “Minaaaaaaaaaaaaaaa!”.

Confusões amorosas movimentavam Asa Branca, conferindo um tom cômico à novela. Como a que ocorria durante um animado forró, no qual a Viúva Porcina contava com uma aliada de última hora para despistar Sinhozinho Malta (Lima Duarte).

CURIOSIDADES

Roque Santeiro foi a primeira novela de Dias Gomes exibida às 20h. Até então, o autor escrevia novelas para as 22h.

Segundo o autor Aguinaldo Silva, Roque Santeiro foi escrita em uma velha máquina de escrever portátil, quando os computadores ainda não faziam parte da nossa realidade. Em entrevista concedida ao Memória Globo quando estava escrevendo a novela Porto dos Milagres (que a princípio se chamaria Mar Morto, por ter como uma de suas inspirações a obra de Jorge Amado),Aguinaldo Silva comentou sobre as facilidades e dificuldades de escrever novelas nos dias de hoje, em comparação à década de 1980.

Numa interpretação primorosa, a atriz Regina Duarte surpreendeu fazendo a cômica e exuberante Porcina, muito diferente dos tipos vividos por ela anteriormente, que contribuíram para consolidar a sua imagem como “namoradinha do Brasil”.

Aguinaldo Silva passou a escrever Roque Santeiro a partir do capítulo 41, com a incumbência de dar continuidade à trama. Para isso, contou com a colaboração de três profissionais: os escritores Marcílio Morais e Joaquim de Assis, e a pesquisadora Lilian Garcia. Segundo Aguinaldo, quase no final da trama, no capítulo 163, Dias Gomes declarou que gostaria de finalizar a novela, e acabou escrevendo os capítulos finais.

José Wilker conta que a TV Globo tinha um projeto de desenvolver um seriado a partir de Roque Santeiro – como aconteceu com O Bem-Amado. Dessa forma, segundo o ator, o final da novela já estava decidido: Porcina (Regina Duarte) só poderia ficar com Sinhozinho Malta (Lima Duarte). MasRegina Duarte lembra que foram gravados dois finais.

Cássia Kis Magro lembra que o último capítulo de Roque Santeiro foi ao ar exatamente na noite de estreia da peça Fedra, na qual ela contracenava com Fernanda Montenegro, e que a preocupação de todos era que não aparecesse ninguém para ver a montagem, em cartaz no Rio de Janeiro.

Regina Duarte não foi o primeiro nome pensado pela direção para viver a estridente Viúva Porcina. Segundo o ator Lima Duarte, Sônia Braga, Vera Fischer, Marília Pêra e Fernanda Montenegro chegaram a ser sondadas para o papel. A escolha final, porém, mostrou-se a mais acertada: o entrosamento do casal Sinhozinho e Porcina foi perfeito. Diferentemente da versão censurada, em que contracenava com Betty Faria, Lima Duarte emprestou um tom mais cômico a seu personagem.

Alguns atores escalados para a primeira versão de Roque Santeiro atuaram na nova novela: Lima Duarte (Sinhozinho Malta), João Carlos Barroso (Jiló), Luiz Armando Queiroz (Tito) e Ilva Niño (Mina).Milton Gonçalves, que interpretava o padre Hipólito na versão censurada, ganhou o papel do promotor público na trama de 1985.

A atriz Elizangela estava escalada, na versão censurada em 1975, para interpretar a personagem Tânia, vivida por Lídia Brondi na versão de 1985. Em depoimento ao Memória Globo, ela contou que, quando soube que Roque Santeiro finalmente seria levada ao ar, foi pessoalmente conversar com o diretorPaulo Ubiratan para pedir um papel na novela. Ganhou o papel de Marilda, a mulher de Roberto Mathias (Fábio Jr.).

Roque Santeiro foi a primeira novela dos atores Maurício Mattar, Claudia Raia e Patrícia Pillar.

A novela contou com participações especiais de peso: Lilian Lemmertz, Dennis Carvalho, Marcos Paulo, Paulo César Pereio, Tarcísio Meira, Cláudio Gaya e Jorge Fernando. Os dois últimos interpretaram dois costureiros da capital que iam a Asa Branca especialmente para fazer o vestido de noiva da Viúva Porcina (Regina Duarte).

O ator e diretor Marcos Paulo estava escalado para interpretar o personagem Gerson, o diretor de cinema, na primeira versão da novela, que foi censurada. Dez anos depois, além de fazer uma participação especial na segunda versão, ele ainda foi um dos diretores da produção.

Roque Santeiro atingiu recordes de audiência logo na primeira semana de exibição.

Em Recife, segundo jornais da época, a audiência de Roque Santeiro levou candidatos às eleições para deputado a cancelarem comícios no horário em que a novela era exibida.

Yoná Magalhães viveu uma experiência inusitada por conta da novela. No papel de Matilde, ela vestiu pela primeira vez uma malha na TV. Estava tão em forma que, aos 51 anos, foi chamada para posar para a revista Playboy.

Claudia Raia conta que, escalada para fazer um papel pequeno na trama – a dançarina e prostituta Ninon –, acabou ganhando notoriedade e sucesso com suas cenas na novela, tornando-se símbolo sexual.

A novela foi reapresentada duas vezes: a primeira, entre 1º de julho de 1991 e 3 de janeiro de 1992, no fim da tarde; a segunda, entre 11 de dezembro de 2000 e 29 de junho de 2001, na sessão Vale a Pena Ver de Novo, como parte das comemorações dos 35 anos da TV Globo.

Roque Santeiro foi vendida para vários países, entre eles Angola, Argentina, Canadá, Chile, Cuba, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal.

TRILHA SONORA

A trilha sonora de Roque Santeiro obteve enorme sucesso e levou a gravadora Som Livre a abrir um precedente: pela primeira vez, deixou de produzir a trilha internacional de uma novela para lançar um segundo volume da trilha nacional. O primeiro volume vendeu mais de meio milhão de cópias em apenas três meses.

Volume 1:
Isso Aqui Tá Bom Demais – Tema de Sinhozinho Malta
Compositores: Dominguinhos/ Nando Cordel
Intérprete: Dominguinhos (Partic. especial Chico Buarque)

A Outra – Tema de Lulu
Compositores: Ivan Lins/ Vitor Martins
Intérprete: Simone

Sem Pecado e Sem Juízo – Tema de Linda Bastos e Gerson
Compositores: Baby Consuelo/ Pepeu Gomes
Intérprete: Baby Consuelo

Chora Coração – Tema de Mocinha
Compositores: Wando/ Pedrinho Medeiros
Intérprete: Wando

Mistérios da Meia-Noite – Tema do Lobisomem
Compositores: Zé Ramalho
Intérprete: Zé Ramalho

Santa Fé – Tema de abertura
Compositores: Moraes Moreira/ Fausto Nilo
Intérprete: Moraes Moreira

Dona – Tema de Porcina
Compositores: Sá/ Guarabyra
Intérprete: Roupa Nova

De Volta pro Aconchego – Tema de Roque
Compositores: Dominguinhos/ Nando Cordel
Intérprete: Elba Ramalho

Indecente – Tema de Matilde
Compositores: Jimmy/ Rosane do Amaral
Intérprete: Anne Duá

Coração Aprendiz – Tema de Tânia
Compositores: Ronaldo Bastos/ Erich Bulling
Intérprete: Fafá de Belém

Roque Santeiro – Tema de locação
Compositores: Guarabira/ Sá
Intérprete: Sá & Guarabira

Cópias Mal Feitas – Tema de Zé das Medalhas
Compositores: Alceu Valença/ Rubem Valença
Intérprete: Alceu Valença

Volume 2:

Malandro Sou Eu  Tema de Roque
Compositores: Arlindo Cruz/ Sombrinha/ Franco
Intérprete: Beth Carvalho

Coisas do Coração Tema de Tânia
Compositores: Ritchie/ Bernardo Vilhena
Intérprete: Ritchie

Pelo Sim Pelo Não Tema de Sinhozinho Malta
Compositores: Zé Renato/ Cláudio Nucci/ Juca Filho
Intérprete: Cláudio Nucci e Zé Renato

Vitoriosa – Tema de Lulu
Compositores: Ivan Lins/ Vitor Martins
Intérprete: Ivan Lins

Fruta Mulher – Tema de Matilde
Compositores:
Intérprete: Nana Caymmi

Verdades e Mentiras – Tema de locação
Compositores: Guarabyra/ Sá
Intérprete: Sá & Guarabyra

Mil e Uma Noites de Amor – Tema de Linda Bastos e Gerson
Compositores: Baby Consuelo/ Fausto Nilo/ Pepeu Gomes
Intérprete: Pepeu Gomes

A Hora e a Vez  Tema de Porcina
Compositores: Cláudio Nucci/ Ronaldo Bastos/ Zé Renato
Intérprete: Cláudio Nucci e Zé Renato

Mal Nenhum – Tema de Ninon e Delegado Feijó
Compositores: Ed Wilson/ Ronaldo Bastos
Intérprete: Joanna

Entra e Sai de Amor – Tema de Tânia e Padre Albano
Compositores: Altay Velloso
Intérprete: Altay Velloso

Amparito Amor – Tema de Amparito Hernandez
Compositores: Amparito Hernandez
Intérprete: Cauby Peixoto

Mal de Raiz – Tema de Mocinha
Compositores: Miltinho/ Paulo César Pinheiro
Intérprete: MPB4

ABERTURA

Roque Santeiro teve uma das mais célebres aberturas idealizadas pelo designer Hans Donner. Boias-frias, carros e tratores andavam livremente sobre folhas, milhos, frutas e rochas gigantes. Para produzi-la, foi utilizado o chromakey (processo eletrônico pelo qual a imagem captada por uma câmera pode ser inserida sobre outra imagem, como se fossem primeiro plano e fundo). Em algumas cenas a equipe trabalhou com miniaturas de carros, kombi e caminhões, formando um engarrafamento sobre uma vitória-régia natural. A vinheta mostrava uma motocicleta em alta velocidade, andando sobre um coco, e um carro de boi trafegando sobre uma espiga de milho.

CENSURA

Em 1975, Roque Santeiro teve uma versão proibida, protagonizada por Betty Faria(Porcina), Lima Duarte(Sinhozinho Malta) e Francisco Cuoco (Roque Santeiro). Já haviam sido gravados 30 capítulos da novela quando a Censura Federal percebeu que se tratava de uma adaptação do texto teatral, vetado anteriormente, O Berço do Herói, escrito por Dias Gomes em 1963.

No dia da proibição, o locutor Cid Moreira leu no Jornal Nacional um editorial assinado pelo presidente da Rede Globo, Roberto Marinho, anunciando o veto. Em meio à comoção da equipe, a emissora teve apenas três meses para produzir outra novela. Para preencher o buraco na programação, foi exibida uma reprise compacta de Selva de Pedra (1972), de Janete Clair, posteriormente substituída por Pecado Capital (1975), da mesma autora. Para a realização desta novela, parte do elenco e dos cenários de Roque Santeiro foi aproveitada. Embora tenha sido produzida e gravada às pressas, Pecado Capital se tornou um marco da teledramaturgia brasileira.

A intervenção da Censura Federal, proibindo a exibição da primeira versão de Roque Santeiro, rendeu uma breve internação de José Bonifácio de Oliveira, o Boni, em uma casa de saúde, com suspeitas de enfarto.

O diretor Dennis Carvalho, que interpretaria o personagem Roberto Mathias na primeira versão de Roque Santeiro, lembra que, assim que a novela foi censurada, sugeriu a ida dos atores a Brasília como uma forma de protesto. A ideia era tentarem ser recebidos pelo presidente da República, Ernesto Geisel. A audiência com o presidente não aconteceu, mas a viagem do elenco rendeu cobertura da imprensa.

A versão de 1985 de Roque Santeiro era praticamente a mesma que havia sido censurada em 1975. Quase nenhum personagem novo foi introduzido, e a trama central da história se manteve idêntica, com poucas adaptações. Na nova versão, Asa Branca deixou de ser apenas uma cidade do interior da Bahia para representar uma mistura de várias regiões brasileiras.

Elenco:
Adelaide Palete – Camareira
Afrânio Gama – Garçom
Alexandre Frota – Luizão
Alfredo Murphy – Alemão
Ana Luiza Folly – Noêmia
Ângela Figueiredo – Selma Sotero
Ângela Leal – Odete
Antonio Pitanga – capanga
Armando Bógus – Zé das Medalhas
Arnaud Rodrigues – Cego Jeremias
Arthur Costa Filho – Dr. Denilson
Ary Fontoura – Florindo Abelha
Bruno Andrade – Raul
Cassia Kis Magro – Lulu
Célia Cruz – Amparito
Cininha de Paula – secretária de Sinhozinho
Clara Farjado
Cláudia Costa – Carla
Claudia Raia – Ninon
Cláudio Cavalcanti – Padre Albano
Cláudio Tovar – Jurandir
Cristina Galvão – Dondinha
David Leroy – ator “Sinhozinho Malta”
Dedina Bernadelli – Ângela Flores
Dennis Carvalho – Tomazini
Dudu Moraes – participação especial
Edwiges Gama – Manicure
Edyr de Castro – Nininha
Elizangela – Marilda
Ely Reis – Sacristão
Eloísa Mafalda – Pombinha Abelha
Ewerton de Castro – Gerson do Vale
Fábio Jr. – Roberto Matias
Fernando Amaral – ator “Padre Hipólito”
Fernando José – Oliveira
Gabriela Bicalho – Tininha
Gabriela Senra – Lulu menina (participação especial)
Gilson Moura – Tião
Heloísa Helena – Madre
Ilva Niño – Mina
Isis de Oliveira – Rosaly
Ivan Setta – ator “Navalhada”
Ivan Simões – Soldado
João Carlos Barroso – Toninho Jiló
Jorge Coutinho – participação especial
Jorge Fernando – Lucio Armando
José Wilker – Roque Santeiro
Juliana Neli – Maquiadora
Juliana Reis
Leina Krespi – Idalvina
Lícia Magna – Sinhana
Lídia Brondi – Tânia
Lidia Iório – D. Marta
Lílian Lemmertz – Margarida (participação especial)
Lima Duarte – Sinhozinho Malta
Lucinha Lins – Mocinha
Luiz Armando Queiroz – Tito França
Luiz Magnelli – Decembrino
Lutero Luiz – Dr. Cazuza (participação especial)
Lu Mendonça – Mãe de Porcina (Regina Duarte)
Malik dos Santos – Tiquinho
Manoel Elizário – Barman
Marcos Paulo – Jorge di Lima
Maurício do Valle – delegado Feijó
Maurício Mattar – João Ligeiro
Milton Gonçalves – Lourival (promotor público)
Nélia Paula – Amparito Hernandez
Nelson Dantas – Beato Salu
Oswaldo Loureiro – Navalhada
Othon Bastos – Ronaldo César
Paschoal Vilaboim – capanga
Patrícia Pillar – Linda Bastos
Paulo César Pereio – Delegado Benevides (participação especial)
Paulo Gracindo – Padre Hipólito
Regina Dourado – Efigênia
Regina Duarte – Viúva Porcina
Rui Rezende – Astromar Junqueira
Sandro Solviat – Sua Majestade
Sylvia Guimarães
Tarcísio Meira – Cel. Emereciano Castor (participação especial)
Tony Tornado – Rodésio
Tuty Masil
Valter Santos
Valter Alves
Waldir Santana – Terêncio
Wanda Kosmo – Marcelina
Wilson Pastor – fotógrafo (participação especial)
Yoná Magalhães – Matilde

Reviva: Os casais apaixonantes da ficção

 João Coragem e Lara (Irmãos Coragem – 1970)

Casal-modelo dentro e fora das telas, Tarcísio Meira e Glória Menezes formaram um dos casais históricos na televisão brasileira na pele dos inesquecíveis João Coragem e Lara, na primeira versão de Irmãos Coragem, exibida no ano de 1970

Sinhozinho Malta e Viúva Porcina (Roque Santeiro – 1885)

Quem não se lembra de Roque Santeiro? Sucesso de Dias Gomes que marcou época na televisão brasileira? Pois bem, é de lá que vem nosso primeiro casal. Regina Duarte (viúva Porcina) e Sinhozinho Malta (Lima Duarte) encarnaram os personagens mais populares da televisão e viviam uma relação de amor e ódio na trama, que tinha como pano de fundo o mistério em torno de Luís Roque (José Wilker), visto como santo por moradores da fictícia ‘Asa Branca’. Porcina e Sinhozinho Malta viviam em pé de guerra, mas logo se reconciliavam para a alegria do público que vibrava com as bijouterias e a roupa de Porcina, persoagem caricata que rendeu bons frutos a Regina Duarte. De fato, Roque Santeiro tornou-se referência nas carreiras de Regina e Lima Duarte. As cenas em que Sinhozinho Malta ficava de quatro arfando como um cachorro para seduzir a amada constam de qualquer antologia do gênero. Não por acaso, o último capítulo da telenovela rendeu 100 pontos no Ibope, audiência pouquíssimas vezes registrada na TV brasileira. 

Babalú e Raí (Quatro por quatro – 1994)

 Ela vestia uma minissaia curtíssima que deixa à mostra suas belas pernas e fazia enlouquecer um mecânico ‘galinha’ e engraçado ao mesmo tempo. Estamos falando dos personagens de Letícia Spiller e Marcello Novaes na novela das 19h de Carlos Lombardi. Babalú e Raí formaram um dos casais mais simpáticos do público brasileiro. A química foi tanta que os protagonistas começaram a namorar na telenovela, casaram e tiveram filhos anos mais tarde.
Beijo técnico? Que nada! 

Dinah e Otavio (A Viagem – 1994)

Uma história um tanto quanto conturbada do casal Dinah e Olavo, da novela “A viagem”, que tratava de temas sobrenaturais como foco principal. Após muitas brigas, e uma relação de ódio, o casal Dinah e Olavo se aproximou e acabou por se apaixonar, entretanto Dinah acaba falecendo, e a emocionante história de amor dos dois acaba sendo além da vida. 

Julião Petruchio e Catarina (O Cravo e a Rosa – 2000)

Esse casal ganha no quesito humor, pois até ficar com Catarina, o bruto Petruchio sofreu nas mãos da granfina um tanto quanto mimada, que não queria saber dele. Com muita insistência, e muitas armações, Petruquio consegue conquistar o coração da durona, e mesmo juntos, o casal continuou fazendo os telespectadores rirem. 

Serena e Rafael (Alma Gêmea – 2005).

O amor entre Serena (Priscila Fantin) e Rafael (Du Moscovis) era algo de outras vidas em ‘Alma Gêmea’. Literalmente. A índia era a reencarnação de Luna (Liliana Castro), ex-noiva do florista. O casal passou poucas e boas nas mãos da invejosa Cristina (Flávia Alessandra). Apaixonada por Rafael, ela foi a responsável pela morte de sua prima Luna

 Bebel e Olavo (Paraíso Tropical – 2007).

Amor bandido. Essa é a melhor definição para o romance da garota de progama Bebel (Camila Pitanga) com o empresário mau-caráter Olavo (Wagner Moura) em ‘Paraíso Tropical’. Apesar das armações da dupla de vilões, o público se rendeu ao carisma da prostituta e torceu até o fim pela felicidade da morena

Jade e Lucas (O Clone – 2001).

Glória Perez uniu o Oriente e o Ocidente pelo amor de Jade (Giovanna Antonelli) e Lucas (Murilo Benício) em ‘O Clone’. O casal enfrentou dezenas de desencontros durante mais de duas décadas para poder finalmente ser feliz um ao lado do outro.

 Laura e Marcos (Celebridade – 2003)

Nem sempre os casais memoráveis de novelas são feitos de mocinhos. Em “Celebridade”, o casal de vilões vivido porMárcio Garcia e Cláudia Abreu roubou a cena. A “cachorra” e o “miche” que protagonizaram cenas “calientes” de sexo e brigas desbancaram os protagonistas Malu Mader e Marcos Palmeira. A novela foi exibida em 2003.

 Jô Penteado e Flávio (A Gata Comeu – 1985).

No início da novela A Gata Comeu (1985), Jô Penteado (Christiane Torloni) e o professor Flávio (Nuno Leal Maia) vivia feito cão e gato. Mais no decorrer da novela a coisa mudou de lado e os dois passaram a viver uma linda história de amor que durou até no final da trama de Ivani Ribeiro.

Esses são apenas alguns dos apaixonados da telinha! Tiveram mais, muito mais; mas separamos apenas alguns, gostaram da edição especial?

CONTENTE: Pra você qual foi o casal mais apaixonante?

 

 

Morto-Vivo: Roque Santeiro – Roque Santeiro (últimas edições)

Cópia (11) de Morto

Em “Roque Santeiro” uma falsa morte é o tema central de toda a novela.

A cidade é Asa Branca, onde os moradores vivem em função dos supostos milagres de Roque Santeiro (José Wilker), um coroinha e artesão de santos de barro que teria morrido como mártir ao defender a cidade do bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro). O falso santo, porém, reaparece em carne e osso 17 anos depois, ameaçando o poder e a riqueza das autoridades locais.

No dia em que o bando de Navalhada invadiu Asa Branca, todos os habitantes fugiram apavorados, enquanto Roque Santeiro desapareceu, sendo dado como morto. Logo após o incidente, uma menina que conseguiu sobreviver e disse ter visto o rapaz em uma visão. A notícia se espalhou, e Roque, tido como salvador da garota, foi santificado. Uma estátua em homenagem ao herói foi erguida em praça pública, e a população logo passou a lhe atribuir curas e milagres.

A volta de Roque Santeiro e o reconhecimento de que tudo não passou de uma farsa significaria o fim do mito, prejudicando os interesses de todos os beneficiários da mentira, e também colocando em risco a sustentação da cidade.

Gostaram? Essa é a edição de hoje! E não perca a reta final de nossa coluna.

Assista neste link a volta de Roque para a cidade!

Personalidade da Semana: Dias Gomes (1922-1999)

Dias Gomes. Cedoc/TV Globo

TRAJETÓRIA

   

Filho do engenheiro Plínio Alves Dias Gomes e de Alice Ribeiro de Freitas Gomes, o dramaturgo Alfredo de Freitas Dias Gomes nasceu em Salvador, na Bahia, em 19 de outubro de 1922. Escreveu seu primeiro conto, As Aventuras de Rompe-Rasga, aos 10 anos. Em seguida, três anos depois, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro.

Em 1937, aos 15 anos, escreveu sua primeira peça, A Comédia dos Moralistas, premiada num concurso promovido pelo Serviço Nacional de Teatro e pela União Nacional dos Estudantes (UNE). A peça foi publicada dois anos depois por seu tio, pela Fênix Gráfica da Bahia. Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, Dias Gomes escreveu o drama Amanhã Será Outro Dia, abordando o nazismo, a invasão da França pelos alemães, o exílio dos perseguidos políticos nos países da América, a Gestapo e o torpedeamento de navios brasileiros.

Lima Duarte em O Bem Amado (1973)

Dias Gomes fez sua estreia no teatro profissional em 1942, com a comédia Pé de Cabra, encenada no Rio de Janeiro e, depois, em São Paulo, por Procópio Ferreira. Antes disso, porém, a peça foi proibida e teve dez páginas do texto cortadas pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o órgão de censura do governo Vargas. A parceria com Procópio Ferreira, no entanto, foi extremamente frutífera, rendendo a Dias Gomes um contrato de exclusividade para escrever quatro peças por ano. Esse contrato o fez escrever Zeca Diabo, Doutor Ninguém, Um Pobre Gênio, Sinhazinha, Eu Acuso o Céu e João Cambão, todas durante o ano de 1943. Ainda naquele ano, Dias Gomes ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, a qual abandonaria dois anos depois.

Em 1944, Dias Gomes aceitou um convite de Oduvaldo Vianna para trabalhar em São Paulo na recém-inaugurada Rádio Panamericana, onde escreveu adaptações de peças, de romances e de contos para o programa Grande Teatro Panamericano. No ano seguinte, transferiu-se para a Rádio Tupi-Difusora, em São Paulo, onde participou do programa A Vida das Palavras. Nessa mesma época, ingressou no Partido Comunista, no qual permaneceu até 1971.

Em 1948, por motivos políticos, Dias Gomes foi demitido da Rádio Tupi-Difusora, transferindo-se para a Rádio América. Logo em seguida, foi para a Rádio Bandeirantes, onde assumiu a direção artística e escreveu diversos programas, entre os quais Aventura Musical e Sonho e Fantasia. Durante todo esse período, teve vários romances publicados: Duas Sombras Apenas (1945); Um Amor e Sete Pecados(1946); A Dama da Noite (1947) e Quando é Amanhã (1948).

Dias Gomes e Janete Clair.

Dias Gomes e Janete Clair se casaram em 13 de março de 1950. Logo após, os dois se mudaram para o Rio de Janeiro, onde o dramaturgo conseguira um emprego primeiro na Rádio Tupi (dos Diários Associados) e, em seguida, na Rádio Tamoio e na Rádio Clube. Em abril de 1953, porém, Dias Gomes foi demitido novamente, desta vez após viajar com uma delegação de escritores à União Soviética para as comemorações do Primeiro de Maio.

Em virtude da perseguição política de que era alvo, passou a escrever utilizando pseudônimos – o que duraria até 1956, quando ingressou na Rádio Nacional e passou a participar dos programas Todos Cantam sua Terra, Grande Teatro e Brasil, Espaço 2. Permaneceu na Rádio Nacional até 1964.

Em 1959, escreveu a peça O Pagador de Promessas, adaptada para o cinema sob a direção de Anselmo Duarte e ganhador da Palma de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Cannes, em 1962. Trata-se da história de Zé do Burro – interpretado na versão cinematográfica pelo ator Leonardo Villar –, um camponês que prometeu carregar uma cruz do interior do sertão baiano à Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, caso seu burro doente se recuperasse.

  O Pagador de Promessas é considerada uma das obras-primas do teatro realista moderno. Além das inúmeras montagens no Brasil, também foi encenada nos Estados Unidos e na Polônia, entre outros países, e traduzida para dez idiomas. Sua versão cinematográfica, que foi indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro, também ganhou prêmios nos festivais de São Francisco (EUA), Cartágena (Colômbia), Acapulco (México) e Edimburgo (Escócia).

Outra obra de Dias Gomes, O Marginal, foi adaptada para o cinema por Carlos Manga, com Tarcísio Meira, em 1974. Em 1985, Fábio Barreto filmou O Rei do Rio e, em 1988, o diretor cubano Pastor Vera levou às telas o texto Amor em Campo Minado, originalmente escrito para teatro.

De 1960 a 1964, Dias Gomes escreveu as peças A InvasãoO Berço do Herói e O Santo Inquérito, outro grande marco de sua trajetória. Cassado pelo golpe militar de 1964, foi acolhido por Ênio Silveira na Editora Civilização Brasileira, um dos poucos focos de resistência. Atuou como diretor de relações públicas da editora e, ao lado do poeta Moacyr Félix, lançou a Revista Civilização Brasileira, que circulou de 1965 a 1968. Os tempos tornaram-se ainda mais difíceis quando sua peça O Berço do Herói, dirigida por Antônio Abujamra, foi proibida pela censura na noite de estreia. Em 1966, sua casa foi invadida e vasculhada por oficiais militares. No ano seguinte, mesmo premiado internacionalmente, o filme O Pagador de Promessas teve a sua exibição proibida em todo o território nacional, permanecendo assim até 1972. Sua peça A Invasão também foi censurada, e a interdição durou até 1978.

Dias Gomes começou a trabalhar na Globo em 1969. A primeira telenovela que escreveu na emissora, e que assinou sob o pseudônimo de Stela Calderón, foi uma adaptação do romance A Ponte dos Suspiros, de Michel Zevaco. Ambientada na Veneza do século XIV, a trama era estrelada pelo casal de atores Yoná Magalhães e Carlos Alberto, sob a direção de Marlos Andreucci.

Paulo Gracindo em Bandeira 2 (1972)

Sua segunda novela, Verão Vermelho (1969), a primeira assinada com o próprio nome, era ambientada na Bahia e já abordava temas polêmicos relacionados ao desquite, à reforma agrária e ao candomblé. Na sequência, Dias Gomes escreveu também Assim na Terra como no Céu (1971), em que mostrava a moda e os costumes da juventude dourada carioca, e Bandeira 2 (1972), que apresentava pela primeira vez um bicheiro – o Tucão, vivido por Paulo Gracindo – como protagonista. Bandeira 2 deu origem, inclusive, à peça O Rei de Ramos, com partitura musical de Chico Buarque e Francis Hime, encenada no Rio de Janeiro em 1979, com o próprio Paulo Gracindo no papel principal.

 Em 1973, Dias Gomes escreveu a primeira novela a cores no Brasil, O Bem-Amado. Repleta de personagens inesquecíveis vividos por Paulo Gracindo, Lima Duarte, Dirce Migliaccio, Emiliano Queiroz e Ida Gomes, a novela chegou a ser reprisada em forma condensada e deu origem a um seriado que permaneceu no ar durante cinco anos. Foi, ainda, a primeira novela brasileira a ser vendida para o exterior – antes, apenas os textos das novelas eram comercializados. Mesmo obtendo grande sucesso, a trama de O Bem-Amado sofreu interferências da Censura Federal, que impediu o autor, por exemplo, de batizar os personagens Odorico e Zeca Diabo de Coronel e Capitão, respectivamente.

 No ano seguinte, Dias Gomes escreveu a novela O Espigão, a primeira a abordar temas ambientais, criticando o progresso tecnológico das grandes cidades e a desumanização das relações sociais. Dirigida por Régis Cardoso, a novela foi estrelada por Cláudio Marzo e Débora Duarte, além de Susana Vieira – premiada como atriz-revelação naquele ano – e Ary Fontoura.

Apesar das bem-sucedidas tramas escritas por Dias Gomes, em 1975, o autor voltou a ter problemas com a Censura, que culminaram no veto de Roque Santeiro. Com 51 capítulos escritos e 20 gravados, a novela foi proibida pela Censura Federal na véspera de estreia. O motivo da proibição, o autor soube dez anos depois, fora uma conversa telefônica com Nelson Werneck Sodré gravada pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), na qual Dias Gomes teria dito que tapeara os censores com uma adaptação de sua peça proibida O Berço do Herói.

Frustrado com o episódio, Dias Gomes aproveitou parte de seus personagens na novela Saramandaia, exibida em 1976, introduzindo na teledramaturgia brasileira o realismo fantástico característico da literatura latino-americana. Através de tipos inusitados que explodiam, ardiam em fogo, criavam asas ou botavam formigas pelo nariz, Saramandaia foi estrelada por Antonio Fagundes, Sônia Braga e Juca de Oliveira, entre outros, sob a direção de Walter Avancini, Roberto Talma e Gonzaga Blota.


Naquele ano, a obra de Dias Gomes alcançou definitiva projeção internacional, levando o autor a participar de um seminário sobre suas peças de teatro na Penn State University, no estado norte-americano da Pensilvânia.

Dias Gomes voltou a abordar uma temática ecológica em 1978, ao escrever, em parceria com Walter George Durst, a novela Sinal de Alerta, que denunciava crimes ambientais. Última trama a ser produzida pelo núcleo das 22 horas, foi estrelada por Paulo Gracindo e Yoná Magalhães, além de Vera Fischer, Renata Sorrah e Bete Mendes.

Em 1983, sua esposa, a novelista Janete Clair, morreu de câncer. Dias Gomes foi chamado, então, para supervisionar a parte final da novela Eu Prometo, último trabalho da autora, e orientar a então estreante Gloria Perez, que fora assistente de Janete Clair e ficou responsável por terminar de escrever a trama.

Dois anos depois, Dias Gomes passou a coordenar a recém-fundada Casa de Criação Janete Clair, com o objetivo de renovar a linguagem e a dramaturgia da Globo. Mesmo contando com nomes como Ferreira Gullar, Antônio Mercado e Doc Comparato, entre outros, o audacioso projeto de renovar tanto a temática quanto o formato da teledramaturgia brasileira duraria apenas três anos.

 Ainda em 1985, com a liberdade propiciada pela abertura política, Roque Santeiro pôde ir ao ar. A novela atraiu milhões de espectadores interessados em acompanhar a hilariante trajetória de Roque Santeiro, Sinhozinho Malta e da Viúva Porcina, vividos respectivamente por José Wilker, Lima Duarte e Regina Duarte, constituindo um marco na história da teledramaturgia brasileira. Autor da versão original, Dias Gomes escreveu apenas os primeiros e os últimos 50 capítulos da nova versão, deixando a trama a cargo de Aguinaldo Silva e Marcílio Moraes.

A partir de então, Dias Gomes deixaria de lado a extenuante tarefa de escrever os mais de 200 capítulos de uma novela e passaria a se dedicar aos argumentos. Foi assim, por exemplo, com a novelaMandala (1987), estrelada por Vera Fischer e Felipe Camargo, da qual escreveu a sinopse e os primeiros 20 capítulos.

Paulo Gracindo em O Bem Amado (1980)

Além dos argumentos, a atenção do autor voltou-se para minisséries e seriados. Destes, escreveu aproximadamente cem episódios de O Bem-Amado entre 1979 e 1984. Das minisséries, destacam-se a adaptação para a TV de O Pagador de Promessas, dirigida por Tizuka Yamazaki, exibida – com inúmeros cortes – em 1988; As Noivas de Copacabana (1991), narrando a história de um psicopata vivido por Miguel Falabella; e Decadência (1995), que denunciava os abusos de algumas seitas religiosas.

Em 1989, quando completou 50 anos de carreira artística, Dias Gomes teve sua obra publicada em sete volumes pela editora Bertrand Brasil e, em 1991, depois de uma eleição bastante disputada com Gilberto Mendonça Teles, passou a ocupar a cadeira de número 21 da Academia Brasileira de Letras.

Ainda naquele ano, junto com Ferreira Gullar e Lauro César Muniz, escreveu a novela Araponga, mais uma tentativa de inovar na estrutura das telenovelas, agora incorporando o ritmo das minisséries. Outra tentativa seria feita em 1996, quando Dias Gomes escreveu, também com Ferreira Gullar, O Fim do Mundo – o primeiro investimento da Globo numa micronovela, com 35 capítulos, no horário nobre. Também nesse período, foi o responsável, em parceria com Marcílio Moraes, pela segunda versão da novela Irmãos Coragem, de Janete Clair.

 Em 1998, escreveu uma autobiografia, Apenas um Subversivo, publicada também pela editora Bertrand Brasil. Seu último trabalho para a Globo foi uma adaptação do romance Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado, em minissérie estrelada por Giulia Gam, Marco Nanini e Edson Celulari, exibida em 1998.

Dias Gomes faleceu no dia 18 de maio de 1999, aos 76 anos, após sofrer um acidente de carro em São Paulo. De seu casamento com Janete Clair, que durou mais de 30 anos, teve quatro filhos: os músicos Alfredo, Guilherme Dias Gomes e Denise Emmer – e Marcos Plínio, falecido. Desde 1985, era casado com a atriz Bernadeth Lyzio, com quem teve duas filhas, a escritora Mayra Dias Gomes e a cantora Luana Dias Gomes.

Fonte: Memória Globo